Imagine 5ª Temporada | Capítulo 60: Retorno
Com uma xícara de chá entre as mãos, Marina conta para uma amiga os planos para o aniversário de 21 anos. A conversa na sala de estar do apartamento dela nos Estados Unidos é interrompida por um telefonema de Lua.
— Oi, mãe! — atende, animada.
— Oi, minha filha. — O tom de voz de Lua é completamente diferente do de Marina e espanta a universitária.
— Aconteceu alguma coisa?
Sua mãe suspira.
— Seu avô Ricardo, filha. Ele caiu durante o banho, precisou ser internado.
Marina larga a xícara na mesinha de centro e se endireita no sofá.
— E como ele está?
— Estável, mas… ele precisou ser entubado.
A jovem arregala os olhos.
— O quê? Mãe, foi grave assim?
— Ele bateu a cabeça. Foi levado inconsciente para o hospital.
— Meu Deus do céu! E quando foi isso?
— Ontem a noite. Nós tínhamos chegado da formatura da Isabela quando recebemos a informação.
— Por que a senhora só me ligou agora?
— Ah, filha, não queria preocupar vocês. Não contamos pra ninguém ainda, não queria que o Vinícius te falasse.
Marina balança a cabeça.
— Mas, mãe… — Ela suspira. — Meu Deus do céu, e como a vó está?
— Nervosa, né? Coitada. O Arthur está com ela lá no hospital.
— Como eu queria estar aí — se lamenta Marina.
— Fica tranquila. Eu vou mantendo vocês informados.
— Mas avisa a gente na hora, mãe. Não fica guardando informação.
— Pode deixar — promete Lua.
O peso da própria cabeça incomoda Yasmin antes mesmo dela abrir os olhos. A loira está deitada em sua cama, na casa dos pais. Ao seu lado, Renan dorme tranquilamente. Os dois chegaram da formatura de Isabela quando o dia já estava amanhecendo e foram direto para cama, sem ao menos se importarem em tirar as roupas de festa.
— Caramba, a gente bebeu demais ontem — ri a jovem uma hora depois quando eles estão tomando café da manhã na sala de jantar.
— Nem me fale — concorda Renan, mastigando uma mordida de pão. — Acho que eu não tenho condições de pegar a estrada de volta pra fazenda ainda.
— Você acha? Eu tenho certeza, tá saindo álcool pelos seus poros. E você tem que ir mesmo?
— Sim, eu estou ajudando o meu pai na reprodução daquelas vacas que eu te falei.
— Hum — responde Yasmin, sem fazer ideia de quando ele comentou sobre isso com ela. — Mas pelo o seu bem-estar e segurança, você vai ter que ficar mais um pouco.
— E você nem gosta, né? — ironiza o rapaz.
— Nem um pouco — ela ri.
— Você poderia vir comigo pra fazenda desta vez, hein? O que acha?
— O que eu vou fazer na fazenda, Renan?
— Ué, aproveitar. Ficar comigo.
Yasmin hesita.
— Não sei, vou pensar. Quanto tempo você vai ficar lá desta vez?
— Acho que uma semana. Cinco dias, não sei ao certo.
— Tudo isso?
— Pois é, só depois eu volto pra São Paulo.
— Você tinha que arrumar alguma coisa pra trabalhar no Rio também — sugere a designer de moda sorrindo.
— Então porque a senhorita tá passando um tempo no Rio, eu tenho que passar também?
— Viu como você é inteligente — provoca Yasmin e eles riem. — Mas você me convenceu, eu vou pra São José dos Campos com você.
— Deixa ela usufruir do privilégio dela de ser desocupada — fala Isabela caminhando na esteira da academia do condomínio. No aparelho ao lado, Felipe responde:
— Há três dias que ela tá se achando em um episódio de Simple Life.
Isabela gargalha.
— Eu amo quando você usa suas referências da cultura pop. Mas, falando sério, não fica pegando no pé da Yasmin. Ela está feliz.
— No meio da roça.
— Roça — Isabela gargalha. — Esta fazenda da família do Renan é mais chique do que muitas casas deste condomínio. E outra, a gente tem que apoiar esta relação. Ela finalmente parece estar deixando o Victor de vez no passado.
— Até que enfim! E por falar nele, você ficou sabendo do Seu Ricardo?
— Sim, o Vinícius me contou.
— Que tenso, né? Desde que ele foi colocado em coma induzido não vem apresentando melhoras.
— Com a idade dele é complicado. O Vini me disse que a Marina está pensando em vir pro Brasil.
— Sério? — se surpreende Felipe.
— Sim, pra ficar com a família. Eles estão achando que podem ser os últimos dias do Seu Ricardo.
— Ai, credo, vira essa boca pra lá!
— Apesar da idade avançada, ninguém tá preparado pra perder um avô. Eu não contei nada para a Yasmin ainda.
— Por quê?
— Sei lá — Isabela dá de ombros. — Não quero atrapalhar a felicidade dela. Quando ela voltar, ela fica sabendo.
Com os dedos pálidos Arthur aceita o copo de água entregue pela esposa.
— Você precisa ir para casa um pouco, meu bem. Tomar um banho, descansar — aconselha Lua.
— Eu não vou sair daqui enquanto ele não melhorar.
Lua suspira e senta na cadeira ao lado do esposo, em um corredor do hospital onde Ricardo está internado.
— A Mel está com a sua mãe no apartamento. Ela me mandou mensagem agora há pouco, a Dona Kátia está dormindo.
— Graças a Deus. Ela precisa descansar.
— Assim como você — insiste Lua, passando a mão no cabelo dele.
Melância, rodelas de pepino e cubos de avocado são equilibrados em um prato por Victor, que caminha sem pressa pela mesa de frutas e legumes da sala vip do aeroporto de Boston. Mesmo distante alguns metros dele, os olhos de Marina acompanham o irmão gêmeo.
— Ele está tentando parecer calmo — comenta com o namorado, que está sentado na poltrona ao lado.
— Hum? — Vinícius ergue a cabeça do livro que lê.
— O Victor está tentando disfarçar que está nervoso.
— Também, quem não estaria? Vai fazer um ano que ele rompeu contato com todo mundo e agora está voltando pro Rio neste momento delicado.
— Será que eles vão se encontrar? — reflete Marina.
— Acho pouco provável — responde Vinícius, sabendo exatamente sobre quem Marina fala. — A Yasmin está em uma fazenda no interior de São Paulo.
— Com o novo namorado dela?
— Eles não assumiram nada.
— Você não acha estranho ele ser parecido com o Victor? — indaga Marina.
— Como assim?
— Amor, ele é uma versão mais rústica do Victor. Alto, loiro, olhos castanhos.
— Se for falar, o Victor também só tem se relacionado com meninas iguais a Yasmin. Loiras de olhos azuis.
— Azuis escuros — completa Marina. — Eu reparei também.
— Pra mim isso significa muito, porque eles não…
— Shiu, ele tá vindo — interrompe Marina em um sussurro.
— Desisti, estou sem fome — fala o acadêmico do MIT, sentando em um sofá na frente do casal.
— Estava falando exatamente isso para o Vinícius agora — desconversa Marina. — Você acha que é uma boa a gente chegar de surpresa?
— Não tem outro jeito — responde Victor. — Se a gente contasse para os nossos pais, eles iam convencer a gente de que está tudo bem, que a gente não precisa interromper nossa rotina.
— Ainda bem que a Mel foi mais direta com a gente — fala Marina, olhando para Vinícius.
— É, minha mãe tem ficado com a sua vó quando ela não está no hospital.
— É muito importante ter o apoio de todos vocês nesse momento — agradece Marina fazendo um carinho na mão de Vinícius.
— Vamos? — chama Victor, levantando do sofá. — Está na hora do nosso embarque.
Os olhos de Maísa alternam entre o painel do carro e a rua em que dirige. O cabelo da acadêmica de Direito está preso em um rabo de cavalo no topo de sua cabeça e no banco do passageiro está o blazer de seu conjunto de alfaiataria azul marinho.
— Aqui! — exclama ao encontrar o prédio do escritório de advocacia em que vai começar a estagiar. Ela encontra uma vaga no estacionamento do prédio e desce de seu carro. — Ok, Maísa, respira — fala pra si mesma a caminho do elevador. Ao entrar, tira os óculos escuros e encara diretamente seu reflexo no espelho: — Você é capaz, você foi aceita, hoje é só o primeiro dia de uma carreira brilhante no Direito Penal!
No hospital onde Ricardo está internado, Lua não vê o dia passar. A televisão do espaço destinado a familiares exibe o último jornal do dia. Mesmo com o avanço das horas, Lua permanece sentada em um dos sofás. A repercussão das principais notícias do dia sequer chamam a sua atenção. Após muito negociar, conseguiu que Arthur passasse a noite na casa da mãe dele. É a primeira vez desde que Ricardo precisou ser hospitalizado que o cantor dorme fora do hospital.
Embora os olhos reflitam o cansaço mental e físico, Lua não consegue ir para o quarto oferecido à família para dormir. Com os pensamentos conturbados, acredita ouvir a voz de Marina chamá-la. Ela se mexe no sofá e então sente que não está mais sozinha no espaço. Ao olhar para a porta de entrada, enxerga os filhos gêmeos.
— Mas o quê… — balbucia confusa.
— Mãe! — repete Marina, caminhando até ela. — Oi, mãe! — A jovem se lança contra o corpo de Lua e as duas se abraçam com força. Victor se junta às duas em um abraço compartilhado.
— Como a senhora está? — pergunta Victor quando eles se afastam. Lua ignora o questionamento, analisando os dois dos pés à cabeça, ainda sem acreditar na presença deles.
— O que vocês estão fazendo aqui?
— Viemos ficar com vocês — responde Marina.
— Mas e a faculdade? E as…
— Está tudo bem, mãe — tranquiliza Victor. — Está tudo bem — repete passando um braço pelos ombros dela. — A senhora parece não estar bem.
— Estou cansada — responde Lua após um longo suspiro. — Estamos muito preocupados com o seu avô.
— Ele não teve nenhuma melhora? — indaga Marina e Lua apenas balança a cabeça negativamente.
— Cadê o pai? — quer saber Victor.
— Finalmente foi pra casa. Na verdade, ele está no apartamento da sua avó com ela. E vocês, vieram sozinhos? Cadê o Vinícius?
— Ele foi para o condomínio com as nossas malas — explica Marina. — Nós dois viemos direto do aeroporto.
— Meu Deus, vocês são loucos. Têm certeza que vai ficar tudo bem na facul…
— Mãe — interrompe Victor —, nossa prioridade são vocês.
Em casa, Isabela assiste a um reality show de relacionamentos na sala de televisão, com sua cachorra de estimação, Nina, deitada em seu colo. O som da campainha a assusta.
— Ué — estranha, pausando o que assistia. Ao som da campainha, Nina pulou rapidamente de seu colo e correu para a sala principal. Isabela segue a cachorra e vai até o hall. Ela olha o painel das câmeras de segurança e toma um susto. — Meu Deus! — exclama abrindo a porta.
— Agora que eu reparei que vocês excluíram o meu rosto do reconhecimento facial — comenta Vinícius com um leve sorriso. Isabela observa o irmão parado do lado de fora da mansão com enormes malas ao seu redor.
— O sistema mudou — responde rapidamente e avança em sua direção. — Vini, você voltou?
— Vim com a Marina e o Victor por causa do Seu Ricardo.
— E cadê eles?
— Foram direto pro hospital. — Vinícius olha para baixo, finalmente dando atenção para Nina, que pulava incansavelmente em suas pernas. — Oi, senhorinha! — cumprimenta o rapaz pegando a cachorra de Isabela no colo. — Ela continua com a mesma animação, né?
— Sim.
Ainda com Nina no colo, Vinícius ergue as sobrancelhas e indaga:
— E aí, não vai me convidar pra entrar?
Isabela pisca rapidamente.
— Claro… acho que a minha ficha ainda não caiu que você tá aqui.
— Voltei, Isa — sorri Vinícius dando um abraço na irmã com Nina entre eles.
— Você faz tanta falta — desabafa Isabela.
— Não faz nem cinco dias que eu fui embora da sua formatura — observa Vinícius.
— Por isso o meu choque de te ver aqui de novo. — Isabela ajuda o irmão a levar as malas para dentro da mansão.
— Meu Deus! — grita Chay ao chegar na cozinha na manhã seguinte e se deparar com Vinícius sentado à mesa com Isabela.
— Estou de volta — responde o rapaz, ficando em pé. Pai e filho se abraçam e Vinícius explica o motivo de seu retorno tão precoce.
— Entendo — fala Chay sentando na cadeira ao lado do filho. — A Marina e o Victor estão na casa do Arthur?
— Não, eles foram direto do aeroporto pro hospital, ontem. Eu só vou terminar de comer e estou indo levar algumas peças de roupas pra eles tomarem banho.
— Eu te levo — se oferece Chay. — É bom que eu dou um abraço na Lua e no Arthur.
Na fazenda da família de Renan em São José dos Campos, Yasmin cavalga ao lado do companheiro.
— Eu duvido você me alcançar! — grita por cima do ombro, aumentando o ritmo dos galopes.
— Você esquece que quem é do campo aqui sou eu, né? — ri Renan controlando sua velocidade apenas para a loirinha achar que está ganhando dele. O sorriso do produtor rural desaparece quando ele vê Yasmin fazer um movimento brusco com a rédea. O cavalo guiado por ela para abruptamente e a jovem escorrega, caindo com um baque seco no gramado.
— Yasmin! — Renan salta do próprio cavalo e corre até ela.
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