sábado, 4 de março de 2017

Imagine ChaMel 4ª Temporada (Filhos) - Capítulo 354 [Parte 2]: Relacionamento de Vinícius e Marina é abalado


Sentindo os pés doerem por causa do sapato, Anelise gira a maçaneta da porta de seu apartamento.
   — Oi, Bernardo — cumprimenta o esposo fechando a porta. — Por que você já chegou? Fiquei surpresa quando vi seu carro na garagem. Falando nisso, quando você vai conversar com a vizinha? — questiona deixando a bolsa na mesinha de centro e sentando em um pequeno sofá. — Ela continua deixando praticamente metade do carro dela na minha vaga! Desse jeito eu tenho que fazer milagre. Ela tem sorte que eu sou uma ótima motorista, senão já teria quebrado todo o carro dela. Queria saber qual é dificuldade de estacionar certo na vaga, o carro dela nem é enorme assim, não sei por... você está bem? — pergunta quando percebe que Bernardo continua imóvel no sofá ao lado.
   — Eu fui demitido, Ane — conta o médico.
Anelise olha com incredulidade para ele.
   — Você está falando sério?
   — Estou.
   — Nossa! Como foi isso?
   — O hospital vai fechar. Todos foram demitidos.
   — Caramba! Na verdade nem sei por que estou surpresa, já era de se esperar, né? Mas... nossa! 
   — É, nossa.
A jornalista senta ao lado dele no sofá e beija seu ombro e braço.
   — Não fica assim, meu amorzinho.
   — Como eu não vou ficar, Ane? Que merda de vida, cara! — ele esbraveja e deita a cabeça no encosto do sofá.
   — Não fala assim. Você vai ter seus direitos trabalhistas ainda, né?
   — Claro! Era só o que faltava eles tirarem isso da gente. Ia rolar um processo nervoso na justiça.
   — Pois é, mas não vai precisar chegar nesse ponto. Vamos pensar racionalmente, a gente vai ter condições para se virar durante alguns meses. Você vai ter o seguro-desemprego, eu ganho um ótimo salário na MelPhia, vai dar tudo certo.
   — Estou muito p*to com tudo isso. Muito mesmo!
   — Calma. Sente isso, vive esse momento, aos poucos você vai se acalmando. 
Bernardo assente e retribui com força o abraço que recebe de Anelise.

A atenção de Marina está toda depositada em um livro de Mark Twain e ela não nota quando Vinícius cruza o jardim e chega à varanda, onde ela se encontra.
   — Marina? — ele chama com a voz suave para não assustá-la.
   — Ah, oi, Vini! — exclama a jovem abaixando o livro. — Nem te vi chegar.
   — Percebi. — Mesmo sorrindo, Vinícius transparece nervosismo e isso não passa despercebido por Marina.
   — Aconteceu alguma coisa? — indaga ela se endireitando na poltrona.
   — Vem acontecendo, né Mari.
A garota respira fundo e assente.
   — Eu sei do que você está falando. Ultimamente eu tenho estado esquisita, né?
   — Sim, mas não é somente isso.
Marina olha mais intensamente para ele.
   — Como assim?
   — A gente — ele morde o lábio e desvia o olhar —, precisa ter uma conversa.
Os pelos da nuca de Marina ficam arrepiados instantaneamente. 
   — Tá bom. Hum... você quer entrar?
   — Por mim aqui está bom. Você acha que alguém vai aparecer?
   — Meus pais estão trabalhando e o Victor está jogando lá em cima, então eu acho que não.
   — Ok. — Vinícius caminha até a poltrona ao lado da dela e senta. — Antes de qualquer coisa, eu queria saber por que você está agindo assim, amor.
   — Pensei que todo mundo soubesse o porquê.
   — Eu sei que é por causa do ENEM, mas quero saber exatamente por que. Você foi muito mal?
Marina engole em seco e confirma levemente com a cabeça.
   — Acho que sim. Não sei. Eu fiquei muito nervosa na hora, sabe? Daí conforme eu não ia conseguindo fazer as coisas, foi dando um pânico. Sem contar que eu chutei as últimas de linguagens, porque não deu tempo. 
   — Você não começou por linguagens? — surpreende-se Vinícius, pois é o que ele costuma fazer.
   — Não, quer dizer, eu tentei, mas conforme eu não ia conseguindo fazer, parti para matemática para dar uma aliviada.
   — Dar uma aliviada — Vinícius repete sorrindo. — A última coisa que eu sinto em matemática é alívio.
Marina dá um leve sorriso.
   — Somos diferentes nisso.
   — Sim. Mas enfim, você anda se isolando por conta disso?
   — É que eu estou chateada, Vinícius. Frustrada, triste, de tudo. Eu me esforcei tanto, sabe? Eu já imaginava que não iria bem, mas também não pensei que fosse ser o fracasso que foi. 
   — Vamos com calma, você só vai saber se foi esse fracasso todo mesmo quando sair o resultado.
   — Ai, Vini, a gente sabe quando foi mal, né?
   — Mas a gente tem que ter esperanças.
   — É. Mas eu estou cansada. Cansada de ter esperanças, cansada de ficar torcendo por algo que... não vai rolar. Está doendo, Vinícius.
   — Marina. — Ele passa de sua poltrona para a dela. Eles ficam espremidos no espaço e Marina deita a cabeça no ombro dele enquanto Vinícius a acalenta. 
   — Desculpa — pede Marina escondendo o rosto na camisa dele. — Eu queria tanto, tanto ter me saído melhor.
   — Você não tem por que me pedir desculpas.
   — É que você se esforçou tanto, sempre me ajudava a estudar. Mesmo cansado ficava explicando até eu entender e tudo isso pra nada.
   — Não foi pra nada. A gente estava dando o nosso melhor. Caso... caso você não passe — as palavras deixam a boca dele com um gosto amargo —, pelo menos vai estar com a consciência tranquila de que deu o seu melhor.
   — E mesmo assim não foi o suficiente.
   — Tem coisas que não estão nas nossas mãos, Marina. A gente tem que aceitar e tentar aprender com elas.
   — Eu sei. — Eles ficam abraçados com força e fecham os olhos, apenas sentindo a energia um do outro. — Qual é a outra coisa que está acontecendo? — A pergunta de Marina faz o clima mudar de forma brusca. O olhar de Vinícius fica inquieto e ele retorna para sua poltrona.
   — Eu tenho que te contar uma coisa.
   — Que coisa?
O jovem passa a mão no cabelo cacheado e respira fundo antes de começar a falar.
   — Um tempo atrás, um amigo da minha mãe me falou que ia ter uma prova de uma escola francesa de gastronomia aqui no Rio. Perguntou se eu não tinha interesse de participar. Eu fiquei meio hesitante, porque eram poucas vagas e seria muito difícil, porque é uma das melhores escolas do mundo.
   — Qual é o nome? — indaga Marina.
   — Ferrandi.
   — Hum — é o máximo que diz, pois nunca ouviu falar da escola.
   — Pois é, eu resolvi fazer, mais por critério de aprendizado do que qualquer coisa. Fui sem a menor pretensão de passar, porque sabia que ia ter muita gente melhor do que eu lá.
Marina assente, já imaginando o rumo que essa história tomará.
   — E aí? — pergunta sentindo o coração começar a bater mais forte.
   — Eu fiz a prova e não contei pra ninguém. Só para o meu pai, ninguém mais.
   — Nem pra Mel?
   — Nem pra ela.
Sentindo as mãos molhadas de suor, Marina esfrega os dedos no shorts, questionando:
   — Por quê?
   — Porque eu sabia que isso ia dar o que falar. Alguns criariam expectativas, outros — ele olha mais intensamente para ela — poderiam ficar magoados e eu não queria que isso acontecesse, porque era só uma prova pra mim, sabe?
   — Sei — Marina responde com a garganta apertada. — Hum... só pra confirmar, essa escola fica na França, né?
   — Isso.
   — Ok — responde a garota começando a sentir falta de ar.
   — Então, eu recebi isso algumas semanas atrás — diz ele tirando a carta da Ferrandi do bolso.
Com o coração martelando em seu peito, Marina pergunta:
   — O que é isso?
   — O resultado da prova. — O olhar que sua namorada lança em sua direção é tão forte que Vinícius sente um calor tomar conta de seu rosto. A intensidade é tanta que ele não consegue retribuir e olha para o envelope ao dizer: — Eu fui aceito.
   Um ruído seco escapa da garganta de Marina e Vinícius ergue o olhar até o rosto dela. A pele de Marina está pálida, sua boca entreaberta e em seus olhos há algo tão profundo que Vinícius não consegue encarar por muito tempo. Um silêncio pesado domina a varanda e dura longos minutos. 
   Mesmo já tendo passado horas em silêncio ao lado da namorada, fosse em filmes, em momentos de leitura, tardes de Sol no jardim ou madrugadas reflexivas, a ausência de palavras agonia Vinícius.
   — O que você está pensando? — pergunta para Marina, que não se mexeu em nenhum instante. Finalmente, ela move o olhar e focaliza a mesinha de flores perto deles.
   — Eu não sei — responde em um sussurro rouco. Seus olhos estão bastante vermelhos, embora permaneçam secos. — Eu estou muito feliz por você, de verdade. Mas... uau.
Vinícius abaixa a cabeça e lágrimas escorrem por seu rosto, pingando no piso da varanda. 
   — Eu não estava mais aguentando guardar isso pra mim.
Marina endireita-se na cadeira, parecendo recobrar a normalidade.
   — Entendo você não ter me contado quando fez a prova, mas por que só foi contar agora? — indaga tentando entender a situação. — Por que não me contou assim que saiu o resultado?
   — Porque eu recebi poucos dias antes do ENEM, não queria que isso te desestabilizasse. — Vendo como se encontra, Marina tem certeza que a informação a abalaria para a prova. Vinícius continua: — Depois, quando passou o ENEM, você começou a se isolar, a gente não passava tanto tempo junto. Eu não sabia o momento certo pra dizer e também estava preocupado com o seu estado.
Marina assente e fica pensativa na poltrona enquanto Vinícius chora silenciosamente de cabeça baixa e olhos fechados.
   — A Isabela e o Victor estavam desconfiados disso? — indaga a jovem e ele confirma com a cabeça, sem saber que Isabela já sabe de sua aprovação. — E o que aquele pen drive tinha a ver com isso tudo? — questiona Marina.
   — Lá estava todos os documentos que eu usei para me inscrever e também documentos da escola.
   — Entendi. — Eles voltam a se calar. Com os cotovelos apoiados nos joelhos, Vinícius coloca as mãos no rosto e chora ainda mais. Vendo-o chorar de soluçar, Marina sente seu coração apertado e lágrimas se formam em seus olhos. — Você já fez sua matrícula?
   Vinícius ergue a cabeça repentinamente.
   — O quê?
   — Você já se matriculou?
   — Não, claro que não, Marina. Eu não vou para a França.
   — Como assim?
   — Eu não vou para a França assim como você não vai para os Estados Unidos.
Marina fecha os olhos e lágrimas gotejam por seu rosto instantaneamente.
   — Para de se iludir — pede com a voz embargada.
   — Eu tenho fé que tudo vai dar certo.
   — Eu também! Mas uma coisa é ter fé, outra é acreditar em algo que está na cara que não vai acontecer — ela fala entre soluços. — Você tem que se matricular, você não pode perder a sua melhor oportunidade.
   — Você está abrindo mão da sua melhor oportunidade — rebate Vinícius ainda chorando.
   — Você não tem que agir como eu! — Marina levanta e caminha com as pernas bambas até os degraus da varanda, onde se agacha. Os dois choram ininterruptos minutos, até que Marina levanta, enxuga as lágrimas e retorna para perto do namorado. Ela se aperta na poltrona dele e passa a mão por seu rosto e cabelo. — Eu quero que você vá.
   — Marina... — Vinícius tosse, engasgando-se com o próprio choro.
   — Eu quero que você aproveite essa grande chance da sua vida. Você merece, você fez por merecer isso, Vinícius. Você tem talento e lá nessa escola você será lapidado pelas melhores pessoas. Eu sei que você ama a sua família, sei o que a gente sente um pelo outro, mas você tem que pensar primeiro em você, no que é melhor pra você. E o melhor pra você é ir para a Ferrandi ano que vem.
   — Você não estava pensando no que era melhor pra você quando passou madrugadas estudando, quando resolveu fazer faculdade no Brasil.
   — Não — assume Marina. — Só que a vida está começando a me obrigar a fazer isso. Eu não vou passar aqui e vou ter que decidir entre ficar aqui e fazer faculdade em um lugar que eu não queria ou então voltar pra casa e realizar meu sonho de estudar no MIT. E se eu tinha alguma dúvida do que eu iria escolher, depois dessa conversa eu não tenho mais.
   — Como assim?
Marina morde o lábio e aproxima o rosto do dele, apoiando sua testa na bochecha de Vinícius. Ele fecha os olhos e faz um carinho discreto no joelho dela. A garota ergue o rosto e olha para ele, dizendo:
   — Você vai para Paris e eu vou para New York.

As pontas dos dedos de Malu estão brancas quando ela alcança o celular em sua bolsa. Com agilidade, busca o número de Samuel e liga para ele.
   — Samuel? Você já está sabendo? — pergunta assim que o rapaz atende.
   — Pelo jeito você já está.
Ainda agachada na frente de sua bolsa, Malu arregala os olhos.
   — Foi você? — Samuel ri e ela se irrita. — Eu estou falando sério!
   — Você acha que foi ele? — Ben pergunta às costas dela, ainda sentado no sofá. A morena ignora a pergunta dele e ouve a resposta de Samuel:
   — Infelizmente não fui eu, mas quero cumprimentar o responsável por isso.
   — Samuel.
   — O quê, Malu? O que eu queria aconteceu, né? O Elias sumiu!
   — Mas ninguém sabe o que aconteceu com ele.
   — Eu não faço questão de saber.
   — Você só pode estar louco.
   — Não estou.
Malu umedece os lábios, pensando freneticamente.
   — Me encontra daqui a pouco no quiosque de sempre na praia.
   — É um convite ou uma intimação?
   — Se eu fosse você não me deixaria esperando. — Malu desliga o celular e se vira para Ben. — Vamos voltar para a praia?

Os olhos de Vinícius estão vermelhos e inchados quando ele chega em casa. Isabela não disfarça o espanto ao vê-lo nem o comentário que vem em sequência:
   — Nossa! — Vinícius olha de relance para ela e sobe os degraus da escada com rapidez. Com sagacidade, Isabela deduz o que se passou: — Ele contou para a Marina que passou na Ferrandi. Será que eu tenho que fazer alguma coisa? — ela indaga para Nina, que está deitada em seu colo. — Ele parecia tão triste, né. Vou lá conversar com ele — diz, colocando sua cadelinha no chão. 
   Com os pés descalços, a garota sobe os mesmo degraus que Vinícius e segue em direção ao quarto dele.
   — Vini? — chama colocando a cabeça para dentro do quarto. Seu irmão está deitado na cama, encolhido entre os travesseiros. — Vinícius, o que aconteceu?
   — Eu quero ficar sozinho, Isa — pede o jovem olhando para ela.
   — Eu estou preocupada com você.
   — Não precisa se preocupar, eu vou ficar bem.
   — Nunca te vi assim — comenta a jovem sentando nos pés da cama. — Você e a Marina brigaram?
   — Não, foi pior que isso.
Percebendo que o irmão não lhe contará sobre a Ferrandi, Isabela decide abrir o jogo com ele para poder ajudá-lo.
   — Você contou para ela que passou na escola de gastronomia da França, não foi?
Vinícius sobressalta-se e encara a irmã com surpresa.
   — Como você sabe disso? O pai te contou?
   — O pai sabia? — rebate Isabela.
   — Como você soube? — Vinícius questiona.
   — Eu estava olhando as correspondências quando encontrei a carta da Ferrandi — conta a jovem —, pesquisando no Twitter fiquei sabendo que as pessoas estavam recebendo o resultado de uma prova de admissão.
   — E como você sabe que eu passei?
   — Foi só um palpite. — Ela abre um sorriso meigo e acrescenta: — Você já é um ótimo cozinheiro.
Vinícius não retribui o sorriso e fecha os olhos, dizendo:
   — Eu contei para a Marina hoje.
   — E aí?
   — Ela acha que eu devo ir para a França. — Isabela não fala nada e olha ao redor. — Você concorda com ela, né?
   — Eu não sei o que pensar. De verdade. Eu sou sua irmã e quero o seu bem, então ir para a França seria incrível e uma oportunidade única que com certeza mudaria sua vida. Só que eu sei o quanto você ama a Marina e como vocês querem ficar juntos. Mas mesmo assim... ai, é difícil.
   — É, é muito difícil — concorda Vinícius ajeitando o travesseiro sob sua cabeça. — Dói tanto, Isa.
   — Não fica assim — pede Isabela. Ela se aproxima do irmão e deita ao lado dele, envolvendo seu corpo. — Eu sei que é difícil, mas você tem que pensar em si, no que é melhor pra você.

Ainda com trajes de banho, Malu e Ben descem do carro dele e caminham lado a lado até o quiosque que ela marcou com Samuel. O jovem está sentado em uma mesa, de frente para o mar e não vê a aproximação deles.
   — Você resolveu seguir meu conselho — diz Malu rodeando a mesa e parando diante dele. O olhar de Samuel cruza com o de Ben e ele diz para a morena:
   — Você não disse que viria acompanhada.
   — Pensei que já tivéssemos superado essa fase — Ben fala.
   — Não é por que eu não te odeio mais que eu quero ter algum tipo de relação com você — rebate Samuel.
   — Ninguém está falando em ter relação, eu só vim porque a Malu me chamou e porque quero saber o que aconteceu com o Elias.
   — Está preocupado com o papai? Que eu me lembre, e eu me lembro, naquele dia que você me agrediu disse que tinha nojo dele e que, como foi mesmo?, você acabaria com ele caso ele chegasse perto da sua mãe. Então o que me garante que você não está envolvido no sumiço daquele verme?
   Ben ri. 
   — Ele está brincando, né? — indaga para Malu.
   — Assim espero — responde a jovem puxando uma cadeira e sentando ao lado de Samuel. Ben faz o mesmo e fica na frente do meio-irmão. — Você não tem nenhuma notícia dele?
   — Não. Eu não tenho contato com o Elias, Malu.
   — Como você ficou sabendo?
   — Pela internet. Eu tinha lido um pouco antes de você me ligar.
   — Sua mãe já sabe?
   — Sim, ela me ligou preocupada. — Ele ri. — Não sei como ela ainda se preocupa com ele.
   — Você não está pelo menos curioso pra saber o que aconteceu?
   — Sinceramente? — Samuel crava seu olhar nela. — Nem um pouco. Eu não me importo com ele, Malu. 
   — Mas ele é seu pai.
   — Com um pai daquele seria melhor ser órfão.
   — Você não sabe o que é ser órfão.
   — Nem você. — Os dois se encaram e Malu revira os olhos antes de depositar sua atenção em Ben. — O que você acha disso tudo?
   — Pode ter acontecido N coisas, né. Não sei o que achar.
Malu começa a morder a parte interna de seus lábios e observa a maré.
   — Mesmo odiando o Elias por tudo o que ele fez a vocês dois, não consigo não pensar no que ele possa estar sofrendo. 
   — Talvez ele mereça esse sofrimento — comenta Samuel e Malu olha para ele com sangue nos olhos.
   — Você já parou para pensar que ele possa estar passando por algo parecido com o que a gente passou na fazenda?
Samuel desvia o olhar e não responde de imediato. Ben observa o casal com atenção.
   — Eu não vou ficar perdendo meu tempo pensando no que possa estar acontecendo com ele — Samuel responde por fim Isso é trabalho da polícia. — Ele levanta, falando: — Agora eu vou para casa, tentar acalmar minha mãe. Mais alguma coisa?
   — Eu vou com você — diz Malu ficando em pé.
   — Você não está afim de fazer perguntas hoje, né? 
   — Se você não quer, eu não vou.
   — Eu sempre quero.
Ben coça a ponta do nariz, ficando desconfortável com a situação.
   — Essa sua mudança de humor está me irritando e me preocupando — Malu retorque.
   — Desculpa.
A garota pega sua bolsa saco e fala:
   — Podemos apenas ir?
   — Claro. — Ele olha para Ben e diz: — Não fica preocupadinho com o Elias não, você sabe que ele não vale a pena.
   — Tá — é o máximo que o surfista responde.
   — Me espera no carro — Malu diz para Samuel —, já estou indo. — Quando o jovem distancia-se, Malu fala para Ben: — Eu te mantenho informado, ok?
   — Ok. Você acha mesmo que ele pode ter envolvimento nisso?
   — Sinceramente? Não sei. Espero que não. Estou tentando acreditar quando ele diz que não foi ele.
   — Tá bom.
   — Tchau. — A morena se inclina e dá um abraço no rapaz.
   — Se cuida — sorri Ben tirando os fios de cabelo do rosto.

Com uma toalha enrolada no cabelo, Anelise sai do quarto após tomar banho.
   — Está se sentindo melhor? — pergunta para Bernardo ao chegar à cozinha.
   — Um pouco — responde o médico cortando alguns legumes.
   — O que você vai fazer? — indaga Anelise rodeando a cintura dele por trás.
   — Um refogado.
   — Hum, gosto muito — sorri, dando um beijo na nuca dele. — Quer ajuda?
   — Não, obrigado. Quero só ficar um pouco sozinho, refletindo comigo mesmo.
   — Ok, vou aproveitar pra dar uma secada no meu cabelo.
   — Ane? 
   — Hum?
   — Eu te amo, tá? 
   — Tá. — Eles sorriem um para o outro e a jornalista sai da cozinha.

Usando um moletom comprido, Maísa chega na sala de visita com um sanduíche de brócolis e molho branco.
   — Ué, por que o telefone está fora do gancho? — pergunta à sua mãe, que está lendo um livro no sofá.
   — Porque... porque estava dando problema — Lorena responde. — Por isso a gente resolveu tirar um pouco pra ver se volta.
   — Ah tá. — A loira senta em uma poltrona e coloca os pés para cima. — Posso ligar a tv?
   — Pode.
A jovem começa a assistir uma série de um canal à cabo enquanto sua mãe retoma a sua leitura.

Acomodada na cama de Arthur e Lua, Marina conversa com sua mãe.
   — Como é possível estar feliz e triste ao mesmo tempo, mãe? — ela pergunta sentindo as carícias de Lua em seu couro cabeludo.
   — É porque o que você está vivendo é muito complexo. Você está feliz porque o Vinícius foi aceito na Ferrandi e triste porque vocês vão ter que se afastar.
   — É exatamente isso. Se bem que ele não quer ir.
   — Não? — surpreende-se a produtora musical.
   — Não, por minha causa. Ele acha que eu vou passar aqui no Brasil e nós dois ficaremos juntos aqui.
   — E o que você acha?
   — Eu acho que eu fui mal no ENEM — lamenta-se Marina.
Como a porta do quarto está entreaberta, Victor ouve as vozes da irmã e da mãe ao passar pelo corredor.
   — Está tendo uma reuniãozinha aqui e ninguém me chamou? — diz escancarando a porta.
   — Ai, Victor, vai embora — pede Marina escondendo o rosto no colo da mãe.
   — O que eu fiz agora?
   — Não foi nada com você, filho — Lua responde.
   — Então o que foi? — questiona o loiro fechando a porta atrás de si.
   — Eu não disse pra você ir embora? — retorque Marina vendo o irmão se aproximar da cama.
   — Por que você está brava comigo se eu não te fiz nada? — ele pergunta franzindo a testa.
   — Hoje eu fiquei sabendo o que você e a Isabela tentaram me fazer descobrir.
Victor arregala os olhos.
   — O lance do pen drive? — Marina confirma com a cabeça, ainda recebendo carinhos de Lua. — O que era? — questiona seu irmão gêmeo.
   — O Vinícius foi aceito em uma escola de gastronomia.
Os ombros de Victor caem de desapontamento.
   — Todo aquele mistério era por causa disso?
   — A escola fica na França.
   — Eita! Isso sim é chocante.
   — Pois é, no pen drive tinha os documentos dele e coisas da escola, por isso que ele não queria que ninguém visse.
   — Mas por que todo esse mistério? Se ele fez a prova, é porque tinha interesse. Uma hora ou outra ele ia ter que contar pra todo mundo.
   — Ele fez a prova só por experiência. Não tinha pretensão, nem achava que iria passar.
Victor ri.
   — Conta outra!
   — Eu acredito nele.
   — Eu não.
Os irmãos trocam um olhar raivoso e Lua intervém:
   — Não é o momento pra vocês ficarem discutindo, não acham?
   — É, eu já estou triste o suficiente — fala Marina fechando os olhos.
   — Fica feliz pelo Vinícius, ué — sugere Victor com naturalidade. — Ele vai estudar em uma escola super f*da de gastronomia.
   — Olha a boca — censura Lua e Marina conta:
   — Ele não quer ir, porque acha que eu vou conseguir passar aqui e não seria justo ele ir, sendo que eu fiz o maior esforço para ficar e também porque ele não quer ir, sendo que eu vou ficar.
   — Hum, confuso. Mas isso é bem simples de ser resolvido, você vai para New York e ele vai para a cidade aí dessa escola na França.
   — Isso não é simples, Victor.
   — Claro que é. Marina, vamos ser francos, nós vamos voltar para os Estados Unidos. Isso é fato. Então, por que o Vinícius recusaria uma oportunidade dessas se vocês não vão ficar juntos de qualquer jeito?
   — Porque ele acha que vou passar.
   — Porque ele está sendo burro.
   — Burra fui eu, que fui um fracasso no ENEM.
   — Você não é burra, filha — consola Lua.
   — Eu sei que não, mas é como eu me sinto aqui no Brasil.
   — Sei bem como é isso — concorda Victor.
Marina senta na cama, ficando entre a mãe e o irmão.
   — Sabe o que é pior? Eu quero que o Vinícius vá, mesmo que isso implique a gente se separar, porque ele vai aprender tanto, vai ser uma experiência única pra ele.
   — Isso só prova que você ama ele de verdade — diz Lua. — Você quer o bem dele acima de tudo, mesmo que isso signifique ele não vai ficar com você.
   — É. Mas acontece que ele não quer fazer a matrícula. Se o resultado do ENEM saísse antes do término da matrícula, ele viria que não tem como eu ficar no Brasil e assim ele faria a matrícula.
   — Quando terminam as matrículas? — questiona Lua.
   — No começo de dezembro.
   — É, realmente não saiu o resultado do ENEM até lá.
   — Pois é. — Marina passa a mão pelo rosto, que está inchado de chorar, e diz com convicção: — Eu vou dar um jeito de fazer o Vinícius se matricular.

domingo, 26 de fevereiro de 2017

Imagine ChaMel 4ª Temporada (Filhos) - Capítulo 354 [Parte 1]: Vinícius decide contar a verdade para Marina


   — É — Victor concorda com Yasmin e aperta com mais força a mão dela. — Desculpa, Yas — pede em um sussurro.
   — Não tem por que você me pedir desculpas, Victor — a loirinha responde.
   — Queria ter me saído melhor, mas eu não consegui. — Ele suspira e apoia a cabeça na estante atrás de si, fechando os olhos. Yasmin fica observando-o em silêncio. Sua expressão demonstra cansaço, arrependimento e melancolia. 
   — Victor — ela chama suavemente.
   — Hum?
   — Olha pra mim.
O loiro abre os olhos e crava seu olhar nela.
   — O que foi?
   — Tenta pensar o lado positivo. Pelo menos você vai voltar pra casa, vai fazer faculdade em um idioma que você domina. 
   — Não é tão fácil assim.
   — Eu sei, mas a gente também não pode ficar só pensando nas coisas que vamos perder, porque senão vamos enlouquecer.
   — Você tem razão — concorda Victor. Em seguida ele passa a mão no rosto e chama: — Vamos voltar lá para a lanchonete?
   — Não — Yasmin segura no braço dele, impedindo-o de se levantar —, vamos ficar por aqui mesmo.
O rapaz sorri e passa um braço ao redor dos ombros dela, que vira o rosto na direção dele e beija os seus lábios.

Quase duas semanas se passam do final de semana em que ocorreu o ENEM. Após a última aula de sexta-feira, os jovens saem e ficam aguardando suas conduções para ir para casa. Reunidos em um banco no pátio central do colégio, os filhos dos ex-rebeldes conversam sobre o burburinho dos outros estudantes. 
   Com a mochila no colo, Victor ouve a explicação de Vinícius referente à prova de história que eles fizeram logo após o intervalo e Marina observa com a cabeça apoiada no ombro do namorado. Ao lado deles, Isabela fala freneticamente sobre suas ideias para o aniversário de Vinícius para os irmãos Abrahão-Borges.
   — Mas ele falou que não quer nada, Isa — lembra Felipe.
   — Eu sei, mas pelo menos uma reuniãozinha lá em casa tem que ter — argumenta Isabela e Yasmin dá um leve sorriso.
   — Chama a Jaqueline pra te ajudar a organizar a festa — provoca a loirinha antes de espirrar.
   — Nossa! — exclama Victor olhando para ela. — Obrigado por ter espirrado em mim.
   — Nem vem, eu virei para o outro lado — ela rebate.
   — Mas chegou saliva aqui.
   — Que diferença faz? — Felipe pergunta. — Vocês trocam saliva mesmo.
A maioria deles ri. Enquanto o restante do grupo conversa, Vinícius e Marina sussurram um para o outro:
   — Quer fazer alguma coisa mais tarde? — ele pergunta.
   — Não. 
Vinícius morde o lábio. Desde que fez o ENEM, Marina passou a ficar mais tempo sozinha e quando está com os amigos fala pouco.
   — Eu estava pensando em ir ao apartamento do meu pai, não quer ir comigo? — propõe o rapaz.
   — Não, amor. Obrigada — Marina agradece e dá um beijo no pescoço dele. Por causa do comportamento dela, Vinícius não teve coragem de contar sobre sua aceitação na escola de gastronomia francesa.
   — Eu não estou gripada! — exclama Yasmin e o casal olha para ela. — É só um mal-estar.
   — Mal-estar de gripe — provoca Victor.
   — Cala a boca.
   — Cuidado com as palavras, virulenta — brinca Felipe e Yasmin revira os olhos.
   — Vocês são muito idiotas.

Do lado de foram, Thiago, Graziele e Malu esperam Lucas buscá-los. 
   — Compra lá uma pipoca pra mim — pede Malu ao amigo.
   — Me dá o dinheiro que eu vou — Thiago responde.
   — Não tenho dinheiro — ela diz segurando um sorriso.
   — Larga de ser muquirana, Malu.
   — Eu não tenho mesmo — mente a jovem.
Thiago pega uma cédula de dez reais do bolso, dizendo:
   — Só vou pagar, porque você me deu cola na prova.
Malu gargalha e assente. Quando o jovem se afasta para comprar a tal pipoca, ela se vira para Graziele e pergunta:
   — Vocês estão ficando de novo?
   — O quê? — Graziele questiona visivelmente surpresa e sua amiga exclama:
   — Meu Deus, vocês estão ficando! Por que você não me contou?
   — Eu não estou ficando com o Thiago, sua louca — responde a ruiva sorrindo.
   — Está sim, para de mentir pra mim. Eu tenho observado vocês dois. Estão sempre juntos, conversando ali, rindo lá.
   — E daí? A gente está tentando retomar a nossa amizade.
   — Conta outra, Grazi. Vocês ficaram no Halloween.
   — Só aquela vez, o que foi um erro ainda. 
   — Uhum, vou fingir que acredito — ironiza a morena.
   — Malu — diz Graziele ficando séria —, está sendo difícil pra mim essa reaproximação com o Thiago. Eu o amo muito, mas ainda dói pensar em tudo o que aconteceu, em tudo o que ele deixou de me contar. Então, quando eu digo que a gente está tentando retomar a nossa amizade e que nós não estamos ficando, é verdade. Eu não quero, nem sei se conseguiria ter um relacionamento com o Thiago agora. 
Malu perde o ar brincalhão e responde:
   — Tudo bem. Eu acredito em você.

Durante a tarde, deitado ao redor da piscina, Vinícius liga para seu pai.
   — Oi, Vini. Tudo bem? — Chay pergunta ao atender.
   — Oi, pai. Na verdade, as coisas estão complicadas.
   — O que foi?
   — Lembra que eu comentei que a Marina estava estranha?
   — Lembro.
   — Pois é, as coisas continuam na mesma.
   — Você já experimentou conversar abertamente com ela?
   — Não — confessa Vinícius. 
   — Então faz isso, filho.
   — Eu não conversei com ela ainda, porque eu não vou conseguir esconder dela sobre a Ferrandi durante um papo sério assim, pai. Está muito difícil pra mim guardar isso.
   — E você ainda não contou por que ela está estranha, né?
   — Exatamente.
   — Então pensa comigo, Vinícius — Chay pede. — Você está andando em círculos, desse jeito não vai chegar a lugar algum.
   — Como assim?
   — Você não conversou com a Marina sobre o comportamento dela porque vai revelar sobre a Ferrandi, mas também não contou sobre a Ferrandi por causa do comportamento dela.
Vinícius suspira e assente.
   — O senhor tem razão. Estou tão cansado por tudo isso, sabe pai? Acho que eu vou conversar logo com a Marina, porque não aguento mais essa situação.
   — Sim, faz isso. Não vai ser fácil, mas vocês vão ter que passar por essa conversa mais cedo ou mais tarde.
   — É. Então tá, pai, depois a gente se fala. Ok?
   — Ok. Boa sorte com a Marina — deseja Chay. — Pode me ligar qualquer hora.
   — Tá bom.
   — Manda um beijo pra sua irmã.
   — Ok.
   — Tchau, te amo — despede-se Chay.
   — Também te amo. Tchau! — Vinícius desliga, deixa o celular de lado e fecha os olhos, refletindo sobre sua situação.

Entre gargalhadas, Malu e Ben sujam de areia o sofá da república de amigos dele após chegarem da praia, no final da tarde. A bolsa saco dela e a prancha e mochila dele estão largados próximos a porta e eles conversam largados no sofá enquanto amigos dele administram o bar que fica na varanda do sobrado onde reside a república. 
   — Mas me diz — pede Malu —, como você faz para ficar com esse bronze?
Ben ri.
   — Como muita cenoura.
   — Eu estou falando sério! Eu tento, tento ficar bronzeada, mas o máximo que eu consigo é ficar igual a um camarão.
   — Igual você está agora? — provoca Ben puxando a alça do biquíni dela que está sob uma regata larga que pertence a Samuel.
   — Tipo isso — responde Malu zapeando os canais de TV. Após dar uma olhada rápida na programação e não achar nada de interessante, deixa no mesmo programa de fofoca que estava anteriormente. 
   — Ah, eu não faço nada — Ben responde à pergunta inicial. — Acho que eu fico assim porque passo todas as manhãs surfando mesmo. 
   — E é assim que você mantém esses músculos também, né? — ela indaga e dá uma batidinha no abdômen dele. Na televisão, um dos apresentadores é focalizado e diz com a voz grave que eles tratarão no momento de um assunto sério que acabou de chegar para a produção, no entanto os amigos continuam conversando com leveza, ignorando o televisor.
   — Ossos do ofício, né? — brinca Ben colocando os pés sobre a mesinha de centro feita com caixotes de feira.
   — Vou começar a surfar pra ver se entro em forma.
   — Como se você já não estivesse em forma, né? 
   — Para os padrões da sociedade, não.
   — E você se importa com os padrões da sociedade?
   — Não.
   — Então não entendi sua lógica.
   — Nem eu — responde Malu e eles caem na gargalhada. A morena deita a cabeça no encosto do sofá e olha para a televisão. Ela sequer repara no que a repórter está dizendo aos apresentadores do programa de fofoca, pois sua risada e a de Ben ecoam mais alto que a voz da moça. No entanto, quando seu olhar lê as palavras que estão na tela seu sorriso cessa de imediato e ela se endireita no sofá.
   — Ben, olha aquilo! — exclama apertando a coxa dele. O surfista enxuga as lágrimas que se formaram em seus olhos de tanto rir e olha para a televisão.
   A sala da república, onde segundos atrás risadas ecoavam pelas paredes, agora mergulha em um silêncio pesado. A repórter e um dos apresentadores conversam:
   — A nossa equipe não tem muitas informações ainda — diz a repórter. — Estamos na frente da delegacia, mas o delegado não aceitou conversar com a gente.
   — A notícia é muito recente, né Ana? — indaga o apresentar à repórter.
   — Exatamente, Márcio. A gente recebeu a informação pouco tempo atrás e estamos buscando apurar os fatos.
   — Ok, assim que você tiver mais informações entra em contato com a gente, Ana.
   — Pode deixar.
A janela com a repórter é fechada e os apresentadores voltam a ficar em tela cheia.
   — Recebemos agora a pouco a informação a respeito do desaparecimento do empresário do ramo hoteleiro Elias Hamid — diz a apresentadora com seriedade. — Segundo a nossa fonte, o empresário está desaparecido há mais de vinte e quatro horas e sua equipe não consegue entrar em contato com ele. Vamos torcer pra tudo estar bem com o Elias, né Márcio?
   — Com certeza — responde o outro apresentar. — Assim que a gente tiver mais informações, passamos pra vocês. Agora — ele fala com mais animação na voz —, nós vamos revelar pra vocês quem foi a atriz que foi vista...
   — O Elias está desaparecido — Ben fala atônito. 
Malu assente e lembra de uma conversa que teve com Samuel semanas antes:
   — São nesses momentos que eu acho que seria muito melhor pra todo mundo se ele morresse — fala Samuel.
   — Você não quis dizer isso.
   — Quis sim.
   — Morrer é algo muito sério, Samuel. Você pode odiar o Elias, mas jamais desejaria a morte dele.
   — Não fale por mim — retorque o jovem e Malu revira os olhos. Eles ficam quietos por alguns minutos e ela percebe que mesmo com o silêncio Samuel não parece acalmar-se. Por essa razão, resolve falar algo que acredita ser engraçado para tentar descontrair o clima.
   — Você tem noção que se alguma coisa acontecer com o Elias eu vou ter que depor e te colocar como um suspeito? — ela sorri.
   — Eu me entregaria antes que você precisasse procurar a polícia — responde Samuel ainda sério e Malu nota que ele realmente considerou a ideia.
   — Sempre pensei que você fizesse o tipo que iria fugir — diz ela ainda tentando distraí-lo.
   — Eu ia fazer questão que todo mundo soubesse que eu fui o responsável pela morte daquele filho da pu...
   — Você está delirando — interrompe Malu.
   — Se você acha.Malu levanta rapidamente do sofá da república e caminha até sua bolsa.
   — Eu preciso falar com o Samuel.

Com o cabelo ainda molhado do banho, Vinícius calça uma alpargata e pega a carta da Ferrandi de seu esconderijo. Após respirar fundo, ele sai do quarto decidido a contar toda a verdade para sua namorada.
   — Seja o que Deus quiser — sussurra para si.