quinta-feira, 27 de agosto de 2015

Imagine ChaMel 4ª Temporada (Filhos) - Capítulo 246 [Parte 1]: Malu convida colegas para festa de Samuel



Após saírem do colégio, Isabela e Vinícius foram visitar Hérica para saber pessoalmente o estado de saúde da senhora. O resto da segunda-feira e a terça-feira passaram rapidíssimo, não para Yasmin que não saiu de casa para nada além de ir para o colégio. Na manhã de quarta-feira, Malu saltita entre as carteiras da sala antes do sinal tocar. Ela se aproxima de Yasmin, Felipe, Victor, Marina, Vinícius e Isabela e informa:
   — Hoje tem uma reunião para comemorar o aniversário do Samuel, hein? Quero ver vocês lá.
   — Que história é essa, Malu? — Felipe pergunta sorrindo.
   — Amanhã é aniversário do Samuel e eu resolvi fechar um barzinho para fazer uma festinha para ele. Bem, não é bem uma festinha, é mais uma reunião para os colegas dele. Por isso, eu estou chamando geral!
   — Só vai o pessoal daqui da sala? — indaga Marina.
   — Não! Eu já chamei outras pessoas do colégio e uns amigos dele.
Victor também indaga:
   — É surpresa?
Malu ri.
   — Não, ele está sabendo, mas como sou eu a organizadora, achei melhor eu convidar as pessoas.
Eles riem.
   — Pena que não vai dar para a Yasmin ir, né? — zomba Felipe.
   — Ah, não! — pronuncia-se Yasmin. — Eu vou de qualquer jeito.
   — Acho bom, né Yas? — comenta Malu rindo. — Uma festa sem você não é uma festa.
Yasmin sorri.
   — Ai, que bonitinha! — Ela dá um abraço propositalmente desconsertado em Malu, que acrescenta em tom de brincadeira:
   — Toda festa precisa de uma piriguete que faz vexame. 
Eles gargalham e Yasmin empurra Malu.
   — Sai daqui também, sua cocozenta.
Malu ri e afasta-se do grupo, indo em direção a Laís, Maísa, Aline, Lorenzo e Iago, que estão próximos à porta.
   — Bom dia, gente! — diz sorrindo para todos, exceto para Maísa, para quem nem olha.
   — Bom dia! — eles respondem.
   — Eu vim chamar vocês para a festinha do Samuel mais tarde. — Ela conta todos os detalhes da festa para o grupo e emenda: — Olha, eu quero que vocês vão, hein? Vai ser bem legal!
   — Você sabe que embora sejamos nerds, não perdemos nenhuma festa, né? — brinca Laís.
Malu ri e pede:
   — Chama o Alexandre e o Danilo também, tá?
   — Pode deixar.
A morena sorri e caminha para o fundo da sala. Ao ficar sozinha novamente com os amigos, Maísa comenta:
   — Não sei até quando a Malu vai ficar me dando um gelo.
   — Deixa — pede Aline. — Daqui a pouco isso passa.
Maísa cruza os braços e sacode a cabeça com leveza. 
   Após reunir toda a sua paciência e tolerância, Malu dirige-se a Jaqueline e Luciana, que conversam em seus lugares no fundo da sala.
   — Eu vim fazer um convite para vocês — diz sem rodeios ao chegar perto delas. Luciana olha com desconfiança para ela enquanto Jaqueline pergunta:
   — Que convite?
   — Mais tarde vai ter uma festinha para o Samuel em um barzinho e como eu sei que ele gosta de vocês, gostaria que vocês aparecessem. 
   — É pro aniversário dele, né? — indaga Luciana.
   — Óbvio — Malu responde de má vontade. — Enfim — fala retomando à educação —, eu mando os detalhes por Whats pra vocês. — Ela gira e caminha até o grupinho mais próximo: Daniela, Pedro e Jonas.
   — Oi, Malu! — cumprimenta Daniela sorrindo quando ela se aproxima, o que faz Malu perguntar-se o que a garota faz com Pedro. Sacudindo levemente a cabeça para afastar a indagação de sua mente, ela convida: — Eu vim chamar vocês para a festinha de aniversário do Samuel hoje a noite.
   — Mas o aniversário dele é só amanhã — observa Jonas sem demonstrar qualquer reação.
   — Só a gente vai comemorar hoje.
   — Dizem que comemorar antes da azar — comenta Daniela.
   — A gente não acredita nisso.
   — Mais azar do que estar com ela, o Samuel não pode ter — brinca Pedro e recebe um beliscão de Daniela.
   — Pedro?
   — Foi mal — ele se desculpa dando de ombros.
Jonas ri com leveza e pergunta em seu tom habitual de dissimulação:
   — Eu também estou convidado?
   — Se não fosse para você ir, eu já teria deixado isso bem claro — corta Malu. — O convite já foi feito! — Ela força um sorriso e sai.

A aula tem início e logo nos primeiros tempos os jovens começam a conversar sem parar, a caminhar pela sala e a sentarem em duplas ou trio. Durante a aula de matemática, o professor corrige os exercícios que tinha deixado, porém poucos alunos prestam realmente atenção à explicação. Na primeira fileira, Maísa conversa baixinho com Jonas, que está sentado ao seu lado; Iago tenta prestar a atenção enquanto Aline tagarela em seu ouvido; e Victor e Yasmin aproveitam o tempo para conversarem pessoalmente pois não têm podido fazer isso fora do colégio. Na fileira ao lado, Isabela acompanha concentradamente a explicação do professor, Felipe dorme, Graziele tenta ouvir o professor em meio ao burburinho, Malu cochila e Samuel olha para o quadro de braços cruzados. Na terceira fileira, Vinícius observa o desenvolvimento das contas com a cabeça apoiada na mão, Marina responde aos questionamentos do professor com entusiasmo, Thiago dorme enquanto Pedro e Jonas conversa com Jaqueline. Na fileira oposta à porta, Danilo e Alexandre riem e fazem piadas um com o outro na companhia de Laís, que repreende os dois uma hora ou outra; Daniela lê um livro; Mayara dorme; Lorenzo presta a atenção na aula, tentando não ouvir o falatório de Luciana, Amanda e Talita às suas costas. As duas últimas saíram de seus lugares na frente da sala para conversar com a melhor amiga de Jaqueline no fundo. 
   Em um determinado momento, quando percebe que está gritando para ser ouvido pelo alunos que estão ligados na aula, o professor bate na lousa para chamar a atenção de todos e quando consegue isto, diz com seriedade:
   — Poxa, pessoal! Em pleno terceiro ano eu vou ter que interromper a aula para mandar aluno ficar de boca fechada? Não percebe que eu estou dando aula? — Ele diz olhando para aqueles alunos que não estavam colaborando positivamente para o decorrer da aula. — Não quer prestar atenção? Já sabe o que eu estou explicando aqui e não quer mesmo acompanhar, dorme, vai ler um livro, qualquer coisa, o que não pode é ficar conversando e me atrapalhando. Caramba, será que é pedir demais? 
Após a reclamação, a sala mergulha em um silêncio profundo e o professor volta a dar aula. 

Depois da aula, Vinícius e Isabela vão com os namorados até o apartamento de Hérica e João Paulo para almoçarem com a avó e o avô de consideração. Enquanto a refeição não é servida, eles conversam na sala de visitas. Hérica ainda se recupera do acidente doméstico, mas já se sente bem mais disposta. Ela está sentada em uma poltrona diante dos netos e seus namorados, que estão espalhados por um sofá. 
   — Eu sempre acho graça quando te vejo, Marina — conta Hérica sorrindo.
Marina franze levemente a testa, olha de relance para Vinícius e pergunta:
   — Por quê?
   — Porque eu sempre lembro do Chay quando vocês eram mais novos. Você sabia que ele queria por que queria que você e o Vinícius se tornassem namorados? — Eles riem. — A vontade dele se tornou realidade, né?
Marina sorri, bastante envergonhada pois não tem a mínima intimidade com Hérica.
   — É, os meus pais comentam essa história.
   — E vocês fazem um casal bem bonito de se ver — elogia Hérica. 
   — Obrigada — responde a adolescente.
Hérica passa a conversar com Isabela e Felipe e Marina e Vinícius se olham. Ele sorri carinhosamente para ela e dá um beijo em sua bochecha enquanto Marina aperta sua mão. 

No começo da noite, Anelise e Bernardo recebem Nícolas em seu apartamento. Depois de se despedirem de Luíza e Daniel, que saíram para jantar fora, os dois se jogam no sofá com o garotinho.
   — O que você quer fazer, Nícolas? — pergunta Bernardo disposta a aceitar qualquer pedido dele.
   — Assistir filme.
   — Excelente ideia! — vibra Anelise. — E que tal se a gente fizer uma pipoca antes do filme?
   — Eba! — sorri o garotinho.
   — Vamos apostar quem chega primeiro na cozinha? — desafia Bernardo. — No três. Um, dois, três!
Os dois três pulam do sofá e correm em disparada à cozinha. 

Em seu quarto, Malu arruma-se para a festinha de Samuel com Graziela. Enquanto se maquiam, elas conversam sobre Thiago.
   — Ele não vai mesmo? — pergunta Malu com pesar na voz.
   — Não, não vai — confirma Graziele. — Ele começou o tratamento, né? E não é um tratamento apenas contra o tabaco, é qualquer tipo de droga, e bebida alcoólica é uma droga também.
   — É verdade.
   — Por isso não vai dar para ele ir hoje — conclui Graziele. — Mas ele está bem. Graças a Deus está concentrado em sair dessa vida de vícios. 
   — Ainda bem, né? Pior seria se ele estivesse naquela de negação.
Graziele assente.
   — Sim, mas ainda não é fácil para mim.
   — Posso imaginar, mas você está se saindo bem, Grazi.
A ruiva dá um sorriso entristecido e prefere não falar mais no assunto. 

Com uma mochila nas costas com sua roupa, seus acessórios e maquiagem, Yasmin desce as escadas de sua casa na companhia do irmão, que está com uma mochila igualmente a sua. Eles encontram Sophia e Micael na sala e Felipe informa:
   — Nós estamos saindo. 
   — Peraí! Peraí! — diz Sophia e olha diretamente para Yasmin. — A senhorita acha que vai com ele? 
   — É para um trabalho, mãe — fala Yasmin que desde que ficou de castigo não fala com os pais.
   — Trabalho do quê? — questiona Micael.
   — De literatura, nós temos que pesquisar sobre a Semana de Arte Moderna.
   — Vai ser na casa de quem? 
   — Do Lorenzo. 
   — Quem é esse? — pergunta Sophia.
   — É um garoto da minha sala. 
   — Por que tem que ser na casa dele, não pode ser aqui? — Sophia questiona com os olhos estreitos.
   — Porque o motorista dele está com um problema e não pôde trazer ele aqui — mente Yasmin com a voz arrastada. — É só um trabalho, mãe. Eu tenho que ir!
Sophia e Micael trocam um olhar e ele diz:
   — Tudo bem, pode ir.
   — Mas é direto da casa dele para cá, ok? — Sophia olha para o filho. — Fica de olho nela, Felipe.
Yasmin revira os olhos enquanto o moreno assente.
   — Pode deixar, mãe. 
Os dois, vestidos com roupa casual, caminham até o hall e saem da mansão. Ao mergulharem na noite, eles trocam um olhar cúmplice e sorriem.
   — Deu certo — comemora Yasmin.
   — Deu certo! — Felipe repete. — Você tem certeza que quer mentir para eles assim?
   — Eu não vou perder uma festa, Felipe! — Ela passa a mão pelo cabelo, desfazendo o coque. — Agora vamos logo antes que eles mudem de ideia. 
Eles correm até o carro e entram, partindo rumo à casa de Isabela para poderem se arrumar. 


Imagine ChaMel 4ª Temporada (Filhos) - Capítulo 245: Mel e Chay têm discussão



Após libertar todas as angústias que infligiam seu coração, Marina finalmente se afasta de Yasmin.
   — Obrigada — diz com sinceridade.
   — Eu jamais negaria um ombro pra chorar, pra ninguém. 
Marina dá um leve sorriso e abre a torneira para lavar o seu rosto.
   — De qualquer forma — fala após o ato —, o que você fez foi muito bacana. 
Yasmin dá um leve sorriso a afaga o ombro de Marina.
   — Agora eu preciso fazer xixi — diz indo em direção aos box.
   — Yasmin! — chama Marina e ela olha por sobre o ombro para a morena.
   — O que foi?
   — Não conta para ninguém sobre isso, nem pro meu irmão nem para o Vini.
A loirinha assente.
   — Tudo bem. Eu ficarei de bico calado. — Yasmin entra no box e Marina fica olhando para o seu reflexo no espelho antes de sair do banheiro. 

Juntos em um degrau da escada entre o térreo e o primeiro andar, Malu conversa com Samuel. Ao contrário do que ocorreu logo cedo, em que ela acalmou ele, é Samuel quem tenta deixá-la tranquila dessa vez.
   — Foi só uma piada — ele diz com a voz serena. — É o jeito do Jonas fazer graça.
   — Não foi só uma piada, Samuel. Ele quis ser cruel mesmo, provocar o Thiago.
   — É o jeito dele, Malu.
   — Eu não sou obrigada a engolir o jeito dele!
Samuel coloca uma mão no joelho dela. 
   — Ei, fica calma. 
   — Eu estou farta desse moleque. 
   — Pensa pelo lado positivo, ano que vem você não vai ter que aturar ele. 
Malu lança um olhar de tédio para ele.
   — É mais positivo pensar que eu posso matar ele. 
Samuel ri e dá um beijo no ombro dela.
   — Não quero ver você presa.
   — Eu sou rica e menor de idade, não vou ser presa.
O rapaz dá um leve sorriso.
   — Pensa em coisas boas, tipo, quinta é o meu aniversário.  
Malu olha espantada para ele. 
   — Sério?
   — Sim!
   — Vai ter festa? — questiona Malu com interesse.
   — Não, nem pensar.
   — Por quê? Não é todo dia que se faz dezessete anos.
   — Você não me conhece mesmo, né?
   — É porque a maioria faz pelo menos uma reunião pra comemorar o aniversário.
Ele sorri.
   — Eu não estava me referindo a isso.
Malu fica com testa franzida.
   — Hã?
   — Eu não vou fazer dezessete, vou fazer dezoito, lembra?
Ela dá um tapa na própria testa.
   — É claro, como eu fui esquecer? Você e o Ben têm a mesma idade.
Samuel fica visualmente mais sério e Malu constata que ele não gostou da comparação.
   — Foi mal — ela pede. — É que é a verdade.
   — Eu sei.
   — Então — Malu diz com excesso de animação —, vamos fazer uma festinha?
   — Não, eu não quero. Já basta que eu terei que jantar com o meu pai.
   — Sério? 
   — Muito, minha mãe me obrigou a aceitar.
   — Nossa, que merda, hein? 
   — Pois é. O pior é que vai ser um jantar só entre nós dois, porque a minha mãe não quer ver o meu pai nem pitado de ouro e a minha avó muito menos. A não ser que... — Ele olha intensamente para Malu e sorri levemente. — A não ser que você vá comigo.
Malu ri.
   — Como é? 
   — É, é uma ótima ideia! 
   — Você ficou maluco? O seu pai me odeia e o mais importante: eu odeio ele.
   — Você vai e ponto final.
   — Você não pode me obrigar!
   — Malu, por favor — ele pede.
Ela tem uma ideia e sorri.
   — Eu vou com uma condição: Se você almoçar comigo e com o Ben na sexta. 
Samuel revira os olhos e fica em pé.
   — Dispenso. — Ele começa a descer a escada e Malu percebe que deu bola fora ao tentar convencê-lo. Ela levanta e corre até ele, segurando em seu braço.
   — Ok — diz com o rosto perto do dele. — Ok, eu vou no jantar.
   — Eu não vou almoçar com o Ben.
   — Não precisa. Eu vou de qualquer modo. 
Samuel sorri com os olhos e eles dão um selinho.

De braços cruzados e encostado em uma cômoda, Chay acompanha a visita de Mel a Hérica. A morena está sentada na cama ao lado de Hérica e não percebe quando o seu celular começa a vibrar atrás do móvel em que Chay está. O cantor lê "Reinaldo" no identificador de chamada e com certa inocência, atende o celular e caminha para fora do quarto.
   — Alô.
   — Alô — responde Reinaldo. — Quem está falando?
   — Reinaldo, esse é o celular da Mel, não é?
   — Sim. Ela não pode atender no momento, está ocupada.
   — Ah, certo! Você pode falar que o Reinaldo ligou para ela? — indaga o empresário do ramo de marketing.
   — Tudo bem, eu aviso. 
   — Obrigada. Tchau!
   — Tchau! — Chay desliga e vira para voltar ao quarto quando Mel sai e encontra com ele.
   — É o meu celular? — indaga olhando para as mãos dele.
   — Sim.
   — E o que está fazendo com você?
   — Te ligaram e eu achei melhor atender, vai que era alguma coisa importante.
Mel não gosta da atitude dele, mas mantêm a calma.
   — O que era? — indaga.
   — Um homem chamado Reinaldo. — Os olhos de Mel ficam ligeiramente arregalados e Chay percebe, o que desperta a sua curiosidade. — Quem é Reinaldo, Mel? 

Os olhos de Bernardo estão mais fundos e cansados e os seus ombros estão um pouco caídos. Ele aproveita o intervalo entre uma consulta e outra para tomar um cafézinho na lanchonete do hospital comunitário. Maristela, sua colega de trabalho, aproxima-se dele e senta na banqueta ao seu lado.
   — Pelo visto a noite foi boa, né? — Ela sorri. — Você está um trapinho.
   — A minha noite foi bem longe de ser boa — conta Bernardo.
Maristela franze a testa.
   — O que aconteceu? Brigou com a sua esposa?
   — Não. A minha sogra caiu em casa e foi parar no hospital, daí eu passei a noite com a Anelise lá.
   — Nossa! Você nem dormiu?
   — Dormi, claro, senão não teria condições para atender hoje.
   — É. — Ela pega na mão dele. — Pelo menos amanhã é a sua folga, você vai poder descansar. 
Bernardo deita a cabeça no balcão.
   — Assim espero. 
Maristela assente e passa a mão pelo cabelo dele.

A empresária demora alguns segundos para responder, o que deixa Chay ainda mais desconfiado.
   — Reinaldo é o dono da agência de marketing contratada pela MelPhia — conta Mel tentando deixar a voz o mais natural possível.
   — Apenas isso?
Mel toma o celular das mãos de Chay.
   — A minha vida não te diz respeito, Chay. — Ela começa a caminhar pelo corredor até a sala.
   — Foi apenas uma pergunta.
Mel pega sua bolsa sobre o sofá e se vira para Chay, o que faz com que o seu cabelo gire no ar.
   — Eu não gostei do fato de você ter atendido o meu celular. 
   — Eu só quis ajudar.
   — Bastava me avisar que o meu celular estava tocando.
   — Essa reação é por causa da minha pergunta? Porque se for é a prova de que esse Reinaldo não é apenas o cara do marketing. 
   — Estou assim porque você não tem o direito de se meter na minha vida. Onde já se viu desconfiar de um parceiro comercial da grife? A gente não tem mais nada, Chay!
   — Não é bem assim — ele discorda dando um passo em direção à ela. — Não faz três dias que a gente esteve juntos.
   — Eu falei para você esquecer aquilo.
   — É fácil entrar na minha casa de madrugada, dormir comigo e fingir que nada aconteceu depois, né Mel? Pode ser pra você, mas pra mim não é. 
   — Percebi — ela diz em tom amargo. — Se eu soubesse, nem teria ido.
   — Está arrependida? 
Mel demora para responder.
   — Eu nem sei porque nós estamos discutindo. Não somos mais nada! — Ela praticamente corre até a porta do apartamento e sai batendo a porta. 

A primeira aula após o intervalo é de matemática para os alunos do 3º ano A. O professor passa exercícios do livro para os alunos, que espalham-se pela sala para resolverem com amigos. 
Isabela está sentada com Vinícius e Marina enquanto Felipe ajuda Mayara na lateral da sala. Ela resolve uma questão e olha disfarçadamente para eles, analisando a proximidade dos dois. Mesmo sabendo que Mayara não apresenta nenhuma ameaça real ao seu namoro, ela não consegue controlar o sentimento de ciúmes que toma conta de seu peito. Na tentativa de suprimir esse sentimento, volta a prestar atenção nos exercícios e fica espantada ao constatar que Marina e Vinícius não trocaram uma só palavra. Ela olha para a cunhada e vê que ela está concentrada na resolução de uma questão bem a frente da que ela está enquanto Vinícius faz cálculos lentamente com o olhar distante. 
   Depois de ter escutado duas vezes a explicação de Victor e continuar sem entender uma certa questão, Yasmin resolve ir até a mesa do professor, onde Lorenzo está. Ela para atrás do garoto e fica esperando sua vez de tirar dúvida. Então percebe que mesmo depois de ouvir o professor explicar três vezes a conta, Lorenzo continua parecendo não entender, mesmo assim ele fala "Aham" quando o professor indaga se ele entendeu. 
   Lorenzo vira-se, dando de encontro com Yasmin e vai de cabeça baixa até o seu lugar. Yasmin olha de relance para ele e se aproxima do professor para tirar a sua dúvida. Após compreender o que o enunciado quer, ela se encaminha até a carteira de Lorenzo ao invés de ir para a sua. 
   — Lorenzo — chama parando ao lado dele.
   — Hum?
   — Vamos lá fazer comigo. 
   — Como?
   — Senta lá comigo para fazer.
Lorenzo olha rapidamente para o lugar dela e Yasmin vê que ele se encolhe ao ver Victor.
   — Obrigada, mas eu estou bem e o Victor está lá, então eu acho melhor... — Ele diz baixinho, mas é interrompido por Yasmin.
   — O Victor pode te explicar. — Embora sabendo que o seu namorado não gosta nem um pouco de Lorenzo e das desavenças que eles já tiveram, Yasmin acrescenta: — Você vai sim! Vamos.
   — Não, Yasmin — ele pede em um sussurro e Yasmin inclina o tronco para ficar com o rosto na altura do dele.
   — Eu não estou perguntando se você quer ou não, estou falando que você vai. — Ela sabe que esse não é o melhor jeito de tratar qualquer pessoa, mas acredita ser o melhor pra conseguir que Lorenzo vá com ela. O garoto solta um suspiro e pega o seu caderno, sua lapiseira e sua cadeira. Os dois atravessam a sala e chegam ao lugar de Yasmin.
   Victor ergue lentamente o olhar e estreita os olhos ao ver Yasmin na companhia de Lorenzo.
   — O que ele está fazendo? — pergunta sem a menor cordialidade. 
A loirinha lança um olhar cortante para ele enquanto senta em sua cadeira.
   — O Lorenzo está com dificuldades, então eu pensei que você poderia ajudar ele como está fazendo comigo. — Ela praticamente lê nos olhos de Victor a frase "Você é a minha namorada, o Lorenzo não."
   — Eu não sou professor — Victor diz sem ao menos olhar para Lorenzo.
Yasmin ri e olha para o garoto de cabelos pretos.
   — Ele está brincando. — Ela olha intensamente para Victor. — Ajuda dele, Victor.
O loiro respira fundo e encara Lorenzo.
   — Você está com dificuldade em qual questão?
Lorenzo sussurra o número da questão que não está conseguindo fazer, mas Victor não ouve.
   — O quê? — pergunta o gêmeo de Marina. — Fala mais alto, eu não vou te engolir. 
Yasmin chuta o namorado por baixo da mesa enquanto ri, pedindo:
   — Para de brincar, amor.
Lorenzo fica entristecido ao ouvir o modo como Yasmin chama Victor, mas não demonstra.
   — Ok, deixa eu ver o que você está errando — fala Victor puxando o caderno de Lorenzo das mãos dele. Yasmin fica observando os dois e só volta a fazer os próprios exercícios quando vê que Victor não será mais grosseiro com Lorenzo.
   Antes de partir para a última questão, Marina espia o caderno do namorado, que está ao seu lado e vê que ele está praticamente no começo da lista de exercícios. 
   — Quer ajuda, Vini? — pergunta, acostumada a ajudar ele em exatas e receber ajuda em humanas. 
   — Não, não estou a fim de fazer — Vinícius responde com a voz baixa. Isabela ergue levemente o olhar do próprio caderno para acompanhar a conversa dos dois.
   — Você tem que tentar, esse conteúdo vai cair na prova.
   — Eu sei, mas não estou conseguindo me concentrar.
   — Eu posso te ajudar. — Marina dá um beijinho no braço dele. — Vamos lá, essa daí é fácil — diz olhando para o caderno dele.
   — Marina — diz Vinícius soltando o lápis no caderno. — Eu disse que não estou a fim de fazer. Caramba!
Marina fica de queixo caído e assente após alguns segundos.
   — Tudo bem. Desculpa. 
Vinícius respira fundo e abaixa a cabeça enquanto Marina volta-se novamente para as suas questões. Ela olha de relance para Isabela para saber se a outra está tão espantada quanto ela e Isabela abaixa o olhar com rapidez, fingindo não ter ouvido e visto nada.

Horas mais tarde o sinal toca. Na calçada do colégio, Yasmin e Victor despedem-se.
   — Você quer que eu ajude o Lorenzo a fazer tarefa também? — indaga o loiro parado na frente dela.
   — Menos, Victor! Você viu como ele estava perdido.
   — O que eu tenho a ver com o fato dele ser burro?
   — Ei! — censura Yasmin. — Ele não é burro, só tem dificuldades. 
   — Que seja, eu não sou obrigado a ajudar ninguém, ainda mais ele.
Yasmin revira os olhos.
   — Eu só queria ajudar. Não vai ficar chateadinho, tá? — Ela sorri e dá um leve chute na perna dele. 
   — Eu não ficou chateadinho, agora você sabe que comigo é tudo no aumentativo.
Yasmin gargalha.
   — Para de falar merda, Victor!
O loiro também ri, mas logo fica sério.
   — Vamos falar de coisas mais importantes do que o merdinha do Lorenzo.
   — Não fala assim dele.
Victor ignora o comentário dela.
   — Como a gente vai se ver?
   — É simples, nós não vamos nos ver. Eu estou de castigo, lembra?
   — Lembro, mas eu não quero ficar sem te ver. 
   — Nem eu, por sorte eu tenho espelho no meu quarto, assim vou poder me ver.
Victor da´um empurrãozinho nela.
   — Cala a boca, Yasmin!
Ela ri.
   — Eu não sei, não foi você quem disse que não é para eu ficar batendo de frente com os meus pais? Agora quer que eu fuja do castigo para te ver?
Victor dá um leve sorriso e sussurra no ouvido dela.
   — Pra mim eu abro uma exceção. 
   Próximos a eles, Isabela e Felipe conversam abraçados.
   — Eu fiquei com ciúmes de você com a Mayara — ela confessa com o rosto apoiado no peito dele.
   — O quê? — Felipe sorri levemente.
   — É, vocês estão tão juntinhos.
Felipe ri e segura o rosto da namorada entre as mãos.
   — Não tem motivos para você sentir ciúmes de mim, toda a minha atenção é só para você. — Ele lembra que Victor e Mayara já ficaram no passado e acrescenta: — Se eu fosse o Victor, você até poderia sentir ciúmes da Mayara.
Isabela, que não tem conhecimento do fato ocorrido no final do ano anterior, indaga:
   — O que você quis dizer com isso, Fê? 
   Com um saco de pipoca nas mãos, Marina observa a rua ao lado de Vinícius, que está parado com fones de ouvido. Ela olha para ele, que permanece olhando para o horizonte, e puxa um de seus fones.
   — O que foi? — pergunta Vinícius.
   — Eu não entendi porque você foi grosso comigo aquela hora — Marina confessa.
   — Hã?
   — Por que você foi grosso comigo na aula de matemática e depois nem falou comigo? 
Vinícius solta um suspiro e apoia a cabeça na parede.
   — Não foi nada com você. 
   — "O problema não é você, sou eu"?
   — Exatamente isso. 
Vendo o cansaço e preocupação nos olhos do namorado, Marina indaga:
   — O que está acontecendo, Vini? Tudo isso é por causa da sua avó? Você já sabe que ela está bem!
   — Tem a ver com a minha avó, mas não é diretamente sobre ela.
   — Do que você está falando?
Vinícius respira fundo e conta:
   — Eu estou preocupado comigo. Eu não estou entendendo o que acontece comigo. 
   — Hã?
   — Mari, essa noite eu sonhei com a minha avó.
   — O quê? — Marina não esconde o espanto.
   — Não acontecia nada demais no sonho, mas eu ouvia a voz dela cantando uma música de ninar pra mim. Durante todo o sono a voz dela me acalmou, até que teve uma hora que tudo ficou quieto e eu acordei. 
Mesmo assustado com o relato, Marina tenta atenuar a tensão.
   — Foi só um sonho, amor. 
   — Você mais do que ninguém sabe que não foi — diz Vinícius. — Eu só queria saber porque eu sou assim.
   — Você sabe o que eu acho sobre isso. Você precisa procurar explicações no espiritismo.
   — Não! Eu não acredito nisso, eu sou católico. 
   — Eu sei, mas talvez seja a única forma.
Ele fecha os olhos e sussurra:
   — Eu só queria ser normal e não ficar sentindo essas coisas.
Marina fica mais perto dele e beija seu côncavo direito.
   — Você é a pessoa mais iluminada que eu já conheci, não fica se torturando assim. — Ela passa os braços pelos ombros dele. — E eu te amo, não precisa se fechar para mim.