sábado, 15 de julho de 2017

Imagine ChaMel 4ª Temporada (Filhos) - Capítulo 361 [Parte 1]: Jantar de aniversário de Felipe



A sala de estar da mansão dos Abrahão-Borges está mais cheia do que de costume em decorrência do jantar de comemoração dos dezessete anos do filho mais velho do casal. Além de seus amigos, Felipe também conta com a presença de seus avós paternos e sua avó materna. Felipe, Vinícius e Graziele conversam em um canto, um pouco atrás de Marina, que come um quiche de cogumelo sentada em uma poltrona.
   Com um copo de suco de laranja nas mãos, Yasmin aproxima-se da cunhada e se apoia no braço da poltrona.
   — E aí, Marina, tudo pronto para a viagem?
A morena sorri.
   — Tudo pronto.
   — Você vai quando?
   — Está louca para se ver livre de mim, né? — brinca Marina e elas riem. Suas risadas chamam a atenção de Vinícius, que olha de relance para as duas.
   —  Você é mesmo esperta — responde Yasmin rindo. — Mas sério, quando você vai?
   — Amanhã de manhã.
   — Já?
   — Sim, mas eu só vou ficar lá uma semana.
   — Poxa, que pena!
   — Idiota! — ri Marina e limpa os farelos de quiche da saia longa que veste. — Eu estou muito empolgada para voltar, sabe?
   — Posso imaginar. De volta ao lar, né?
   — Homecoming — Marina sorri consigo mesma.
Vinícius, que escutou o final da conversa, tentar depositar toda a sua atenção em Graziele novamente, porém não consegue.

Em um barzinho de uma rua movimentada de Porto Alegre, Malu e Samuel conversam regados à cerveja e batata-frita.
   — Eu estou gostando bastante de Porto Alegre — comenta a garota. — Tem um ritmo diferente do Rio. As pessoas, os lugares, tudo.
   — É, nem um lugar é igual ao outro, né?
   — Eu sei disso, idiota. Você entendeu o que eu quis dizer.
Samuel ri e pega uma batata palito.
   — Eu também estou gostando daqui. Vai ser legal me mudar para cá.
   — Me traz com você.
   — Olha que eu trago, hein?
Eles se olham e sorriem.
   — Eu não deveria estar me preocupando com mudança ainda, né? — pergunta Samuel e Malu franze a testa enquanto toma um gole de cerveja.
   — Claro que não — responde —, você nem passou ainda.
   — Nossa, obrigado pelo choque de realidade.
Malu ri e pega na mão dele.
   — Fica tranquilo, você vai passar. Daí, depois de passar você começa a pensar em mudança, ok?
   — Ok.
   — E qualquer coisa, você pode ficar hospedado um tempo no Hotel Hamid, aposto que você teria desconto lá — brinca a jovem e Samuel revira os olhos.
   — Nem de graça.
   — Já que a gente tocou nesse assunto...
   — Você tocou.
   — Já que eu toquei nesse assunto, como está o Elias?
   — Internado.
   — Nem uma melhora?
   — Ele não morreu ainda, então é para se comemorar.
   — Tão doce você — ironiza Malu e ele apenas dá de ombros. — Ok, vamos voltar a falar de coisas empolgantes. O seu apartamento aqui vai ter quantos quartos?
Samuel ri.
   — Isso faz diferença? Basta ter um, né?
   — Não vai ter quarto de hóspedes? E quando eu vier para cá te visitar, vou ter que dormir no sofá?
   — Você vai dormir no meu quarto. Na minha cama, junto comigo.
   — E se a sua cama estiver ocupada?
   — O que você está insinuando? — indaga Samuel dando um leve sorriso.
   — Vai que até lá você já tem outra pessoa ao seu lado?
   — Isso não vai acontecer.
   — E se acontecer?
   — Mas não vai acontecer.
   — Como você pode ter certeza?
   — Porque a única pessoa que eu quero ao meu lado é você — ele responde olhando intensamente para Malu, que sorri.
   — Você pode repetir isso mais tarde quando estivermos sozinhos no quarto? 
   — Por quê?
   — Pra eu poder te agarrar todinho, tirar sua roupa e o resto você sabe.
Samuel ri e beija o ombro dela.
   — Com certeza eu vou repetir.

   — Felipe! Felipe! Felipe! — todos cantarolam após o Parabéns Para Você e o Com Quem Será. 
   — Para quem vai ser o primeiro pedaço? — pergunta Yasmin.
   — Pra você que não vai ser — responde seu irmão e eles riem.
   — Quanto mais velho, mais ignorante ele fica.
   — Guardem o amor de vocês para mais tarde — Victor pede.
   — Parte o bolo, filho — fala Sophia.
   — Bom, o meu primeiro pedaço — diz Felipe com o pratinho na mão — é para uma das minhas mães. — Ele sorri e olha para sua avó materna. — Por sempre estar me ouvindo, me ensinando coisas e tendo paciência comigo quando eu erro piano. — Todos riem e Felipe entrega o pedaço de bolo à Branca. 
   Enquanto ele parte e entrega os outros pedaços, Graziele sai discretamente para atender ao celular.
   — Oi, Douglas — fala baixinho na sala de estar, que agora está completamente vazia.
   — Oi, minha ruiva mais linda!
   — Está tudo bem? — questiona Graziele identificando a voz dele alterada.
   — Está tudo ótimo! — exclama Douglas dando uma gargalhada alta. — Você está em casa? Eu quero passar aí para te ver.
   — Douglas, tem certeza que está tudo bem?
   — Tenho, ruivinha!
   — Onde você está?
   — Longe de você.
Graziele respira fundo.
   — Eu não estou podendo conversar agora.
   — Por quê? Eu quero tanto ouvir sua voz.
   — Você já ouviu.
   — Mas ainda foi pouco pra saudade que eu estou de você. Poxa, ruivinha, faz um tempão que a gente não se vê. Posso passar na sua casa?
   — Eu não estou em casa.
   — Onde você está?
   — Não estou em casa — ela se limita a dizer.
   — Eu sei onde você está! — exclama Douglas e Graziele gela por dentro. Ela caminha até uma das janelas e espia o jardim por entre as cortinas.
   — Como assim?
   — Você está na casa da Yasmin.
A jovem arregala os olhos e estica o pescoço tentando enxergar a calçada, porém não encontra ninguém na rua.
   — Como você sabe? — questiona assustada.
   — Vi uma foto que a Yasmin postou com todos vocês. Hoje é aniversário do irmão dela, né? Vou passar aí para dar parabéns para ele.
   — Douglas, para com isso! 
   — Qual é o problema? Eu já mato saudades suas e dou parabéns para o menino.
   — Para com isso! — repete Graziele nervosa. — Você está bêbado. Eu espero que seja apenas álcool — acrescenta.
   — Poxa, ruivinha. Eu só quero te ver. Sinto falta das nossas conversas, dos nossos momentos juntos.
O coração de Graziele fica amolecido.
   — Ai, Douglas.
   — Eu só quero te ver.
   — Outro dia a gente se vê — ela promete.
   — Não pode ser hoje?
   — Não.
   — É rapidinho.
   — Douglas, não.
   — Ok, vou tentar me controlar.
   — Você vai se controlar. Não aparece aqui — ordena Graziele.
   — Tchau, ruivinha.
   — Tchau, Douglas. — Ela desliga, espia mais uma vez a rua do condomínio e solta um suspiro. — Eu também sinto a sua falta. — Depois de se recompor, ela retorna para a sala de jantar.

As mãos de Jonas ainda estão úmidas quando ele passa pela porta do chalé, vindo do banheiro que fica na área externa da propriedade. Sua namorada está imóvel no sofá como quando ele saiu minutos antes.
   — Eu vou fazer alguma coisa para comer — diz o rapaz caminhando até a cozinha americana. — Você quer?
   — Não — responde Maísa com a voz rouca. 
   — Você quase não comeu nada o dia inteiro — observa Jonas com sutileza.
   — Eu comi um sanduíche.
   — E nada mais.
Maísa continua em silêncio e Jonas enche uma panela com a água da torneira.
   — Eu não estou com vontade de comer — fala Maísa quando ele está colocando a panela no fogão. Jonas ergue a cabeça e fita a nuca da namorada, que continua sentada no sofá abraçando os joelhos. 
   O jovem pega um pacote de macarrão linguine, deixa sobre a pia, ao lado da panela com água, e caminha até o sofá.
   — Você precisa se alimentar, amor — diz sentando ao lado dela.
   — Eu não tenho vontade — repete a loira. — Não dá, Jonas. Não desce.
Ele assente e entrelaça seus dedos nos dela.
   — Tudo bem. — Eles ficam em silêncio por longos minutos. Jonas fica girando o anel que deu a Maísa no dia que a pediu em namoro até ouvir borbulhas na água, que ferve ao fogo. Ele levanta e vai para a cozinha, deixando Maísa sozinha no sofá. O silêncio permanece durante todo o preparo do jantar. 
   A ausência de palavras dominou boa parte do dia do casal no chalé da família dele. Maísa ficou presa em seus pensamentos e no luto pela morte de seu pai e Jonas deu espaço para que ela absorvesse seus sentimentos. 
   Com um prato branco nas mãos, Jonas senta na única poltrona do chalé e começa a comer silenciosamente o macarrão feito por ele.
   — Pode ligar a televisão se você quiser — diz Maísa olhando para o aparelho televisor, que se manteve desligado desde a hora em que eles pisaram no chalé.
   — Está bom assim — responde Jonas e ela volta a encarar a mesinha de centro a sua frente. Ele termina de comer em silêncio e é desse modo que lava o prato antes de sentar mais uma vez na poltrona. 
   Jonas pega seu celular e responde algumas mensagens de Samuel e tranquiliza Laís com relação ao estado de Maísa, perguntando também como está Lorena, sua sogra. Enquanto ele digita para a prima de sua namorada, ela levanta e se arrasta até a cama. 
   — Jonas — chama Maísa após alguns minutos, debaixo do cobertor.
   — Hum? — ele ergue a cabeça.
   — Fica aqui comigo.
   — Claro — responde Jonas largando o celular e indo até a cama. Ele deita e abraça a namorada, que encosta a cabeça em seu peito.
   — Não sei se eu vou conseguir sair daqui — sussurra Maísa.
   — Como assim?
   — Não sei se eu consigo sair daqui e enfrentar tudo o que está acontecendo. É tão bom ficar aqui, longe de tudo e de todos, com você. 

Enquanto os amigos brincam de mímica no térreo, Felipe e Isabela trocam carinhos no corredor do primeiro andar. 
   — Você está muito linda hoje, sabia? — ele comenta passando a mão pelo tecido do vestido dela.
   — Eu caprichei — responde Isabela. — Não poderia estar de qualquer jeito no aniversário do meu namorado, né?
Felipe sorri e dá um beijo na bochecha dela, seguido por uma mordida em seu queixo.
   — Você vai dormir aqui, né?
   — Claro que sim — ela sorri e acaricia o rosto dele com delicadeza. — Eu quero passar até o último minuto desse dia com você.
   — Mas não vai embora depois da meia-noite. — Eles riem e Isabela estica os braços ao redor dos ombros dele.
   — Eu não vou — promete com o rosto encostado na camisa dele.
   — Eu te amo — sussurra Felipe e segura o rosto dela entre as mãos.
   — Eu também te amo — sorri Isabela e eles fecham os olhos, unindo seus lábios de maneira intensa e apaixonada.

domingo, 18 de junho de 2017

Imagine ChaMel 4ª Temporada (Filhos) - Capítulo 360: Isabela escreve carta de aniversário para Felipe


Logo nas primeiras horas de sexta-feira, Malu tem um espasmo e desperta de seu sonho no momento que iria cair de um precipício. Ela olha para o lado e enxerga Samuel sentado na cama com os olhos grudados em si.
   — Estava sonhando que ia cair — conta tirando alguns fios de cabelo do rosto. — Por que você já está acordado?
   — Não sei, acordei agora há pouco e não consegui dormir mais — ele responde ainda com os olhos inchados de sono.
   — Deve ser ansiedade por causa da prova — comenta Malu sem pensar. — Mas você não deve ficar assim — acrescenta com delicadeza. 
   — Eu sei, mas é difícil controlar.
   — Uhum. — Ela também senta na cama e se aproxima dele, deitando sua cabeça no peito do rapaz. — Se você vai ficar acordado, também vou ficar com você.
Samuel sorri e passa os braços ao redor do corpo dela.
   — Obrigado pela intenção, mas sei que daqui a pouco você já vai estar roncando de novo.
Malu coça a ponta do nariz na camisa dele e ri.
   — Você me conhece tão bem.

Mesmo estando cansada e ainda muito abalada, Laís esforça-se para escolher uma roupa para Maísa usar no velório de Edson que ocorrerá horas mais tarde. Sua prima está sentada na própria cama com o olhar distante e as bochechas pálidas.
   — Não pensei que fosse ser tão difícil voltar para cá — diz Maísa enquanto Laís corre os olhos pelo closet dela. — Eu vejo o meu pai em cada canto dessa casa.
   — Não vai ser fácil afastar as memórias dele — responde Laís chegando perto dela com um vestido de mangas preto.
   — Eu não quero afastar as memórias, elas são as únicas coisas que restaram. — A loira arranca o vestido das mãos da prima e o joga sobre a cama. — Eu não vou usar isso.
   — Tudo bem. — Laís retorna pacientemente para o closet. 
Instantes depois, Maísa deita por cima do vestido e começa a chorar silenciosamente, sentindo a garganta apertada e o peito inchado de dor.

As pernas de Marina permanecem doloridas após horas sentadas no assento do voo que a trouxe dos Estados Unidos de volta ao Brasil. Ela recolhe sua bagagem e vai de encontro ao grupo que a espera ansiosamente no saguão do aeroporto.
   — Que saudades, amiga! — exclama Isabela dando um abraço apertado nela.
   — Você fez falta nesses anos, Marina — Felipe sorri por de trás da namorada. 
Marina sorri para o casal e seu olhar passa pelos rostos tão conhecidos de Victor, Yasmin, Malu, Graziele, Thiago e Fred até parar em Vinícius. Ela e o ex-namorado encaram-se por uma fração de segundos e ela volta a depositar sua atenção em Isabela, que diz:
   — Nós preparamos uma surpresa para você lá na casa dos seus pais.
Marina sorri ao lembrar da mansão de Arthur e Lua no condomínio e pergunta:
   — Como estão as coisas por lá?
   — Do mesmo jeito de quando você foi embora — responde Yasmin sorrindo. — Nada mudou.
   — Mas ao mesmo tempo muita coisa mudou — Victor fala.
   — Nós já não moramos lá, né? — ri Graziele e Marina ao descer os olhos até a mão dela enxerga uma pequena aliança em seu dedo anelar direito idêntica à que está no mesmo dedo de Thiago.
   — Não iríamos morar com os nossos pais para sempre, né? — retorque Malu rindo.
   — E o Samuel, como vai? — questiona Marina.
   — Não sei, faz algumas semanas que a gente não se fala.
As sobrancelhas de Marina arqueiam-se de espanto.
   — Sério?
   — Sim, mas pode ficar tranquila que nós não terminamos. É só um tempo mesmo.
   — Mais um — comenta Yasmin com acidez. — Desde que eles começaram a namorar é assim.
   — Eu lembro — Marina responde. — Acompanhei um pouco desse namoro antes... antes de ir embora — fala olhando de relance para Vinícius. — É tão bom ter todos vocês aqui! — exclama em seguida abrindo um sorriso de orelha a orelha.
   — Estamos aqui para você saber o quanto é amada por todos nós — Fred fala antes de abraçá-la. 
   — Que saudades, meu amigo!
   — Eu também senti muito sua falta.
Depois de receber abraços e beijos da maioria, Marina para em frente a Vinícius.
   — Seja bem-vinda de volta ao Brasil — fala o rapaz olhando intensamente para ela.
   — Obrigada. — Eles se olham em silêncio. — Não pensei que você viesse.
   — Não poderia faltar, nem se quisesse. A Isabela não deixaria — completa olhando para a irmã, que ri para eles.
   — Que bom. — Marina força um sorriso e se afasta do homem que anos atrás tinha certeza de que seria a pessoa que estaria ao seu lado para o resto de sua vida. 
   Com o coração acelerado e mechas de cabelo presa no suor de sua nuca, Marina acorda instantes antes do despertador tocar. Ela olha atordoada para os lados até a ficha de que está em seu quarto e tudo não passou de um sonho cair.

Minutos antes do sinal que indica o início das aulas tocar, Yasmin e Felipe chegam ao colégio. O rapaz aproxima-se da carteira da namorada e se inclina para falar com ela.
   — Bom dia, meu amor — fala ao beijar a lateral de sua testa.
   — Bom dia — sorri Isabela.
   — Sonhei com você hoje — conta Felipe sentando na mesa dela. Isabela começa a fazer carinho na coxa dele e pergunta:
   — Como foi?
Felipe abre um sorriso malicioso, dizendo:
   — Aqui não é o melhor lugar para falar sobre isso.
Isabela ri e se remexe em sua cadeira.
   — Por que você não me conta sobre isso mais tarde? — propõe em um sussurro. — Seu aniversário está chegando, talvez eu faça seus sonhos se tornarem realidade.
Felipe ri e coloca a mão na nuca dela, aproximando seus rostos.
   — Já estou ansioso para o meu aniversário. — Eles riem e trocam um beijo curto.

Usando blazer e camisa preta, Jonas chega junto com seu pai ao velório de Edson. Como já era de se esperar, o clima no local é pesado e melancólico. A maioria das pessoas usam óculos escuros para esconder seus olhos vermelhos e inchados. O caixão de seu sogro está aberto ao centro rodeado por flores e luzes. Do outro lado do espaço, próximo às cadeiras, está Maísa. Jonas observa a namorada sendo amparada por Laís e Alexandre. O cabelo do affair de Laís está preso em um rabo de cavalo baixo e sua postura demonstra um espírito de zelo com relação às duas jovens. 
   — Nossa, coitada da Lorena — comenta Heitor. Jonas segue o olhar de seu pai e encontra a mãe de sua namorada sentada em uma das cadeiras. Sua aparência fragilizada e o olhar confuso contrasta com seu vestido de alta costura preto aveludado. 
   — Ela está em choque até agora — fala o adolescente. — Até agora não consegue acreditar no que aconteceu.
   — Você não comentou nada sobre aquilo que nós conversamos, né filho?
Jonas finge que não conversou com Maísa a respeito de sua dúvida com relação ao suicídio de Edson e responde:
   — Não.
   — Que bom, porque elas estão muito abaladas para lidar com uma teoria dessas.
   — Eu sei.
   — E também não é o momento para levantar uma questão dessas. As pessoas que fizeram o que fizeram com o Edson ainda estão com os olhos bem atentos nessa família.
Jonas sente um arrepio na nuca e assente.

Malu e Samuel despedem-se um do outro após almoçarem, em Porto Alegre. 
   — Fica tranquilo, tá bom? — ela deseja dando um abraço nele.
   — Estou tranquilo — responde Samuel dando um beijo no pescoço dela. — Tava mais nervoso de manhã mesmo.
   — Percebi — sorri Malu. — Enfim, vai lá e arrasa.
   — Sem pressão — ri Samuel.
   — Não estou te pressionando, estou apenas te incentivando através de meios psicológicos. 
Os dois riem e começam a se beijar. Aos poucos o beijo ganha intensidade e eles têm que se controlar por estarem no saguão do hotel.
   — O que você vai fazer durante a tarde? — pergunta Samuel após espiar a localizando de seu carro no aplicativo.
   — Vou dar uma volta pela cidade, quero ir num parque que chama Moinhos de Ventos. Vi umas imagens legais na internet.
   — Legal! Vai dando uma pesquisada em algum lugar legal para a gente ir amanhã.
   — Ih, querido, tenho uma lista para você escolher. — Ela ri e dá uma mordida no queixo dele. — Meu Uber chegou. Tchau! Boa prova.
   — Obrigado. Bom passeio! — Eles dão mais um beijo e Malu corre para entrar no carro.

Ao som de Cage The Elephant, Marina organiza algumas peças de roupa em uma grande mala colocada sobre sua cama. Victor passa pela porta no instante em que ela guarda uma calça jeans dentro da mala.
   — Já está fazendo a mala? — questiona o loiro se jogando na cama sobre algumas regatas.
   — Não quero deixar nada para cima da hora.
   — Você está contando os dias para ir, né?
Marina olha de soslaio para ele.
   — Estou mesmo — confessa. — Acho que vai me fazer muito bem passar uns dias longe daqui.
   — Longe daqui e em New York, junção perfeita.
   — Exatamente — sorri Marina sentando ao lado dele. — Nem acredito que vou rever todo o pessoal!
Victor dá um leve sorriso e transparece um leve tom de inveja.
   — Dá um abraço para todo mundo por mim.
   — Pode deixar, principalmente no Brian. — Victor revira os olhos e ela gargalha. — Quero muito reencontrar a Aria. A gente conversa quase todos os dias, mas pessoalmente é outro nível, né?
   — Sim. Também gostaria de reencontrar a Aria — ele sorri com malícia. — Pelo o que eu vejo no Instagram ela mudou bastante, né? Está com um corpão de brasileira.
   — Cala a boca, Victor. Ela é minha amiga!
   — E só porque é sua amiga, não pode ser gostosa?
   — Vou contar para a Yasmin que você está achando minhas amigas gostosas — ameaça a jovem sorrindo.
   — Melhor não! — responde Victor e eles continuam se provocando.

Pouquíssimas pessoas permanecem no velório de Edson. A família do falecido começa a se retirar para uma sala na lateral. Antes de sair, Lorena aproxima-se mais uma vez do caixão do esposo e chora sobre o corpo. Maísa esconde o rosto no ombro de Laís e recebe o amparo da prima e de Alexandre.
   — Vamos sair daqui — sugere o rapaz.
   — Você quer se despedir do tio Edson? — indaga Laís tentando controlar as lágrimas que correm por suas bochechas.
   — Eu não consigo, não consigo — soluça Maísa. 
   — Então vamos sair daqui. — Laís dá um passo para o lado, mas nota que Maísa parece não conseguir se mover. — Me ajuda aqui, Alê.
Com cuidado, os dois guiam Maísa até a sala na lateral. No espaço não há ninguém, exceto os três jovens. Assim que senta no sofá, Maísa tira o casaquinho que estava por cima do macacão preto que usa. Ela cobre o rosto com as mãos e chora interruptamente por longos minutos. Laís abraça Alexandre e permite que suas emoções libertem-se.
   — O Jonas veio? — pergunta Maísa de repente, erguendo o olhar até o casal.
   — Não sei — responde Laís ao mesmo tempo que Alexandre diz:
   — Ele está lá fora.
   — Chama ele, por favor — pede a loira enxugando o nariz com um lenço.
Alexandre sai da sala e momentos depois retorna com o namorado de Maísa. Assim que o vê, a jovem estica os braços em sua direção. Jonas senta ao lado dela e a envolve em um abraço protetor.
   — Chora tudo o que você tiver que chorar — fala com a voz abafada pelo cabelo dela. Maísa aperta o braço dele e soluça contra seu peito.
   — Isso dói tanto! — diz aos prantos. — Por que, Jonas? Por quê?
   Minutos depois, Lorena também adentra na sala sendo seguida de perto por amigos da família e pelos pais de Laís. Ela senta em uma cadeira e recebe água de um funcionário. Sua mão está pálida e trêmula quando ela pega o copo.
   — Mãe — chama Maísa instantes depois se aproximando dela com Jonas. — Eu queria avisar a senhora que eu vou passar o resto do dia no chalé da família do Jonas, tá?
   — Tudo bem, filha — responde Lorena e Jonas fica espantado com fraqueza de sua voz, que geralmente é forte e firme. — Só que o seu motorista vai levar vocês.
   — Eu prefiro ir de táxi, mãe.
   — Não, filha, o Michael leva vocês. Seu pai contratou ele para proteger você e ele vai continuar fazendo isso mesmo agora... que o Edson nos deixou.
   — Me proteger? — surpreende-se Maísa. 
   — Sim, por causa das ligações que a gente estava recebendo.
   — Que ligações, mãe? 
Lorena olha espantada para a filha, como se não acreditasse no que acabou de revelar. 
   — Eu... eu não... — gagueja sem conseguir formular uma frase coerente.
   — Nós vamos com o motorista de vocês — responde Jonas passando um braço pelas costas de Maísa com firmeza. — Vamos, amor?
   — Mas eu... — Maísa não esconde sua perplexidade e confusão.
   — Maísa, vamos — diz Jonas olhando intensamente para ela. — Esse não é o melhor momento — sussurra em seu ouvido.
Maísa apoia as mãos nos ombros do namorado e abaixa a cabeça, respirando fundo. Lorena devolve o copo de água vazio para a funcionária.
   — Até que horas nós temos que ficar aqui? — pergunta para Tales, pai de Laís.
   — Se você quiser, nós podemos ir embora agora. Acho que a Viviana também não aguenta ficar nesse ambiente por mais tempo — fala observando a esposa, que chora abraçada em Laís.
   Maísa ergue a cabeça e fala para Jonas:
   — Vamos embora.
   — Vamos — responde o jovem pegando na mão dela.
Já no carro dirigido por Michael, o motorista que foi apresentado a ela na última semana do mês de novembro, Maísa questiona:
   — Você foi contratado para o quê?
Michael olha de relance para ela pelo retrovisor.
   — Para levar você aos lugares.
   — Essa não é a verdade — acusa Maísa. — Você já pode dizer a verdade. Meu pai morreu, sabia? — diz com agressividade e Jonas apenas a observa.
   — Eu lamento muito pelo o que aconteceu — diz Michael dando partida no veículo.
   — Se você se lamenta mesmo, me conta a verdade. Por favor — pede voltando a chorar. — Eu só quero entender o que aconteceu com o meu pai.
Michael e Jonas trocam um breve olhar pelo retrovisor e o motorista fala:
   — Eu não sei se estou autorizado a dizer qualquer coisa.
   — Por favor — Maísa implora aos prantos. 
   — Amor — diz Jonas pegando no joelho dela —, agora não é hora para a gente ter essa conversa.
   — Eu preciso entender o que aconteceu com o meu pai. Você ouviu o que a minha mãe disse, Jonas, ele estava recebendo ligações. Estava ameaçando o meu pai!
   — Eu sei, mas você está muito nervosa. Tenta se acalmar e depois a gente tenta descobrir alguma coisa.
   — Eu não vou conseguir me acalmar enquanto não souber o que fizeram com o meu pai.
   — A gente vai descobrir, eu te dou a minha palavra — promete Jonas.
Maísa assente e deita a cabeça no banco.
   — Por que isso está acontecendo, meu Deus?

No fim da tarde, Malu está tomando banho no hotel quando ouve um barulho às suas costas. Ela se vira rapidamente, ainda com shampoo no cabelo, e visualiza Samuel entrando no banheiro.
   — Quer me matar do coração? — questiona se enfiando novamente sob o chuveiro.
   — Não é disso que você vai morrer — responde Samuel tirando o tênis e a meia. Ele também tira a camisa xadrez e a camiseta que estava por baixo.
   — Como foi a prova? — pergunta Malu com curiosidade vendo o jovem desabotoar e tirar a calça jeans. — Como foi, Samuel? — insiste enquanto ele retira a cueca, ficando completamente nu.
   Samuel abre a porta do box e se coloca embaixo do chuveiro também. Malu fica surpresa e ri. Antes que ela possa falar ou fazer mais uma pergunta, ele a beija intensamente.
   — Nossa senhora! — exclama Malu passando a mão pelo cabelo dele, jogando os fios molhados para trás. — Me conta como foi a prova, quero muito saber. — Samuel empurra Malu contra a parede e aperta seu corpo em todos os pontos. — Você não está muito afim de conversar, né? — ela percebe após receber uma série de beijo no pescoço, ombro e colo. — Ok, então não vamos conversar. — Ela sorri, empurra ele de volta e sai do box. Em uma das gavetas da pia do banheiro, encontra preservativos que foram deixados lá pelo próprio Samuel e retorna para dentro do box. 
   Quase uma hora mais tarde, os dois deitam na cama com roupões, peles coradas e cabelos molhados.
   — Foi incrível — diz Samuel.
   — Foi mesmo — concorda Malu. Ele sorri e dá um beijo demorado nela.
   — Estava falando da prova — diz em seguida e eles riem.
   — Foi boa, é?
   — Foi. Caiu tudo o que eu esperava, fiquei emocionado até — ele ri. — Mas também caíram coisas que eu não estudei muito, mas acho que o primeiro dia foi positivo.
   — Que bom, por isso que você chegou tão animado, né?
   — Precisava comemorar. — Eles sorriem e dão mais um beijo. — Mas também não posso estar cansado amanhã, então se controla.
   — Acho difícil com você do meu lado — ri Malu. Samuel levanta da cama e se aproxima da própria mala. 
   — Vou até colocar uma roupa para não cair em tentação.
   — Mas e se eu não colocar uma roupa? — provoca Malu abrindo seu roupão.
   — Sossega, Malu. Lembre-se que eu vim aqui para fazer um vestibular.
Malu imediatamente fecha o roupão e diz:
   — É verdade. Foco, força e fé.— Eles gargalham.

Por volta das nove horas da manhã do sábado, Isabela abre a porta do quarto de Felipe e entra com Nina. A cachorrinha rapidamente pula na cama do jovem e começa a lamber seu rosto.
   — Oi, Nina — ele sorri afastando o rosto dela do seu. — Oi, pequenina.
   — Está falando com qual das duas? — sorri Isabela parando ao lado da cama com um pequeno bolo de chocolate e um envelope nas mãos.
   — Oi, meu amor — o sorriso de Felipe aumenta ao vê-la. — Você também está aqui.
   — Você não pensou que a Nina ia vir sozinha, né? — ri Isabela. — Nós viemos te fazer uma surpresa de aniversário.
   — Que lindo! — exclama Felipe olhando para o bolo nas mãos dela.
   — Eu preparei uma coisa para você — diz Isabela deixando o bolo sobre a mesinha de cabeceira. Felipe tem que segurar Nina para ela não ir farejar o doce.
   — O quê?
   — Você está bem acordado?
   — Mais ou menos — ele ri.
Isabela senta na cama ao seu lado e Nina corre até ela, deitando a cabeça em seu colo. Felipe sorri com a visão e acompanha a namorada tirar um pedaço de papel de dentro do envelope.
   — Primeiramente eu gostaria de te agradecer — Isabela começa lendo o que está no papel. — Agradecer por ser meu amigo desde sempre. Por sempre estar do meu lado nos momentos que eu mais precisei. Pode ser que um dia você venha deixar de ser meu namorado, e eu espero que isso nunca venha a acontecer, mas torço para que você nunca deixe de ser meu amigo. Lembro que um dia cheguei a pensar que seria melhor que você não estivesse na minha vida, porque eu já te via como meu amor e você só me via como amiga. Depois eu comecei a me relacionar com outras pessoas, comecei a namorar, e você sempre esteve ali. 
   "Acredito que você não me viu como mulher antes, porque era o que tinha que acontecer. Eu precisava viver tudo o que vive antes de me tornar a Isabela que veio a ser sua namorada e você precisou pegar todas que queria antes de perceber que queria pegar só uma. Só a mim. Me sinto extremamente feliz por pensar que você é meu namorado, porque você é uma pessoa diferente de todas as outras que eu já conheci. Um menino alegre, animado, de bem com a vida, que não perde uma oportunidade para zoar com os outros. Mas também é um homem responsável, parceiro, meu companheiro para todas horas.
   "Se um dia eu disser que não te amo, não acredite. O que eu sinto por você é tão grande que não desaparecerá em uma única vida. Aliás, acho que o meu amor é tão grande que eu precisaria de outras vidas para te amar. Obrigada por ter me apoiado e dado todo o suporte que eu precisava quando o Jonas acabou comigo. E eu uso a expressão "acabou comigo", porque é a mais sensata, já que ele não acabou apenas com o nosso relacionamento. Mas eu tenho que agradecer a ele também por ter acabado com aquela Isabela dependente, fraca e submissa. Hoje eu sei que se eu estou com alguém é porque essa pessoa me acrescenta. Não preciso de ninguém para me completar, porque já sou completa. E você me acrescenta, Felipe. 
   "Sei que nós vamos viver muitos outros momentos bons, e também os ruins. Só que eu quero viver cada um deles ao lado do meu melhor amigo, do meu melhor companheiro, do meu melhor amante, do meu melhor namorado. Te amo e feliz aniversário!"
   Felipe morde o lábio e aos poucos abre um sorriso de adoração.
   — Eu te amo muito — fala antes de beijar Isabela.