domingo, 28 de agosto de 2016

Imagine ChaMel 4ª Temporada (Filhos) - Capítulo 323: Jovens têm madrugada intensa e manhã surpreendente



Em cima da tampa do vaso sanitário encontra-se a regata de Bernardo, deixada por Anelise antes de entrar no chuveiro. A irmã caçula de Chay toma um banho gelado, tentando relaxar tanto o corpo quanto a mente. A porta do banheiro é aberta e seu esposo passa por ela.
   — Ane — chama encostando na pia.
Anelise passa a mão pelo cabelo e se vira para ele.
   — Bernardo, por favor, me deixa sozinha.
   — Eu não quero ser a pessoa que estraga as coisas — ele diz fazendo círculos no chão com o dedão do pé.
   — O que eu disse foi da boca pra fora — ela fala ainda sob a água.
   — Mas é o que você sente, não é?
Anelise desliga o chuveiro e tira o excesso de água do cabelo.
   — Bernardo, esse não é o melhor momento pra gente conversar sobre isso. Você não acha?
Ele estica a toalha para ela enquanto diz:
   — A questão é que a gente nunca conversa sobre isso. E quando eu tento... olha o que acontece.
   — Você acha mesmo que depois de um sexo tão bom quanto o que a gente fez é o melhor momento pra falar sobre ter filhos? — questiona Anelise enrolada na toalha.
Bernardo dá de ombros.
   — Coisas boas antecedem coisas boas — ele sorri.
   — Fala sério, Bê!
Ela tenta sair do banheiro, mas Bernardo coloca uma mão sobre a porta.
   — Ei — fala se aproximando dela. — Eu te amo.
Anelise acaricia o pescoço dele.
   — Eu também te amo. 
Eles dão um beijo apaixonado e Anelise apoia a testa no ombro dele.
   — Eu te amo mesmo, tá?
Bernardo ri e passa os braços pela cintura dela.
   — Tá bom.
O casal se abraça com força e ele a tira do chão.
   — Para, minha toalha vai cair! — ri Anelise.
   — Essa é a intenção — brinca Bernardo e ela dá um tapa no peito dele.
   — Babaca. — Ainda sorrindo, Anelise abre a porta do banheiro e sai.

Ao som de uma música latina, Samuel e Maísa dançam. A loira gargalha e segura no braço dele, trazendo-o para mais perto.
   — Você dança muito mal, Sam!
   — Conta outra! — ele ri. — O meu rebolado está te deixando desconcentrada?
   — Acho que foram as tequilas.
Os dois riem e Samuel envolve a cintura dela e debruça seu corpo sobre o dela, fazendo as pontas do cabelo de Maísa encostarem no chão.
   — Você vai me derrubar! — ela gargalha e Samuel endireita o corpo dela.
   — Eu não ia te deixar cair.
   — Eu não duvido.
   — Acho que foram as tequilas — ele repete aleatoriamente e os dois gargalham. 
Eles voltam a dançar juntos e em certo momento Maísa volta a pegar no braço de Samuel e falar em seu ouvido.
   — Por que a Maria Luíza não veio?
   — Eu não sei quem é Maria Luíza — ele ri.
   — Eu estou falando da Malu, seu idiota!
   — Desde quando você chama ela assim?
   — Acho que é a convivência com o Jonas — responde Maísa sorrindo.
   — Ou foram as tequilas! — zoa Samuel e eles gargalham. — A Malu foi pra outra festa — conta.
   — A da Mayara?
   — Sim.
   — Fiquei sabendo que ela ia fazer essa festinha, mas não fui convidada.
Samuel ri.
   — Bem vinda ao clube! — Eles riem. — Mas eu acho que ela queria algo menor mesmo... Só para os mais íntimos.
Maísa não entende o duplo sentido da frase dele, pois não sabe que Malu e Mayara já tiveram um envolvimento.
   — É! Mas se eu tivesse sido convidada e fosse... olha o que eu estaria perdendo! — ri Maísa gesticulando para os dois na pista.
   — Pois é, olha que fora.
   — Acho que é tudo culpa das tequilas! — Maísa exclama.
   — Acho que foram elas mesmo.
Eles se abraçam e riem juntos. 
   — Hey, perdedores! — exclama Jaqueline pulando nas costas de Samuel. Com o impacto repentino ele se desequilibra pra frente e Maísa tem que virar o rosto para que suas bocas não se encostem.
   — Está maluca, Jaque? — ri Samuel.
   — Só se for por você — ela responde mordendo a orelha dele. Em seguida, dá uma gargalhada e pula no chão, quase derrubando Gabriel e Luciana que chegam logo atrás.
   — O que está pegando? — indaga a morena sorrindo para o trio.
Maísa repara nos braços de Gabriel ao redor de Luciana e comenta:
   — O que ou quem?
Jaqueline nota o olhar dela e puxa Gabriel para longe de sua amiga, esclarecendo:
   — Eles não estão se pegando! — exclama rindo. — Você acha que eu deixaria?
   — Você não tem que deixar nada — fala Gabriel sorrindo.
   — Nossa, vai ser assim? — ela o empurra com força e Gabriel esbarra em Samuel. O melhor amigo de Jonas faz uma careta e se aproxima de Maísa, que não consegue esconder que está se divertindo com a situação.
Gabriel volta a abraçar Jaqueline e beija a testa dela.
   — Vamos dançar, loirona.
   — Não me chama de loirona!
   — Loira, loirinha?
Ela vira o rosto na direção dele, falando bem próximo de seus lábios:
   — Pra você eu sou Jaqueline.
   — Nem Jaque? — ele provoca e tenta beijá-la, mas Jaqueline desvia.
   — Para com isso!
   — Ok — interrompe Luciana. — Se peguem mais tarde, ok? Vamos curtir!
Todos voltam a dançar alucinadamente, exceto Samuel.
   — Não consigo ficar no mesmo espaço que o Gabriel — diz no ouvido de Maísa.
   — Quer ir atrás do Jonas? — ela propõem.
   — Ele está conversando com o pessoal da Clara, né?
   — Sim.
   — Então vamos lá! — ele pega na mão de Maísa e tenta se afastar, mas Jaqueline grita acima da música:
   — Aonde vocês estão indo?
   — A gente vai conversar com o Jonas — responde Samuel.
   — Vocês não vão se pegar de novo, né? — ela brinca.
   — Fala sério, Jaqueline! — Maísa não gosta da piada e sai arrastando Samuel.
Jaqueline ri com Luciana.
   — Ela ficou p*ta mesmo? — pergunta à amiga.
   — Acho que sim — responde Luciana e elas riem ainda mais.

Sozinhas na sala de estar, Isabela e Marina conversam aos risos.
   — Espero que eles não demorem com essa comida — diz a gêmea de Victor. — Eu estou morrendo de fome.
   — A pizza que o Vinícius fez na casa da tia Ane não te saciou? 
   — Na hora, né querida? Agora já estou com fome de novo. 
As duas riem.
   — Eu só quero comer alguma coisa pra tirar esse gosto de uísque da boca — fala Isabela.
   — Não é o meu gosto favorito também — concorda Marina coçando as costas.
Isabela endireita-se no sofá e abaixa o tom de voz.
   — Você acha que vai dar certo?
Sua cunhada olha por sobre o ombro para o corredor e volta a encará-la.
   — Acho que vai. O jeito é torcer pra...
   — Voltamos! — exclama Yasmin surgindo do corredor à frente de Vinícius, Felipe e Victor. 
Os quatro carregam bandejas com sanduíches, salgados, refrigerantes e sucos.
   — Até que enfim! — Marina comemora enquanto Isabela alcança com o namorado um copo de suco de melancia e o entorna.
   — Caramba, que sede em, Isa? — brinca Felipe sentando-se com os amigos no tapete ao redor da mesinha de centro.
Marina olha para Yasmin, que apoia uma das bandejas na mesinha e se prepara para sentar entre Victor e Vinícius.
   — Isso na sua blusa é... sangue? — pergunta com a voz séria.
Todos os outros olham para Yasmin, que não entendeu direito o que Marina disse.
   — Oi?
   — Yasmin, você está sangrando! — fala Felipe assustado. Ao seu lado, Victor encara a mancha de sangue na altura da costela de Yasmin com perplexidade.
   — C-como assim? — Yasmin toca a blusa com as mãos trêmulas.
   — Deve ser a cicatriz da cirurgia — analisa Isabela tão assustada quanto os demais.
Yasmin não consegue se mover de medo.
   — O que... o que eu faço?
   — Deixa eu dar uma olhada — pede Vinícius esticando as mãos até ela.
   — Não! — Yasmin recua quase caindo sobre uma poltrona. — Não, eu não quero ver.
   — A gente precisa ver o que está acontecendo, Yas — ele fala com tranquilidade.
A loirinha começa a andar pela sala, curvada com as mãos sobre a barriga.
   — Ai, meu Deus, por que isso foi acontecer?
   — Para de se mexer — pede Marina com urgência. — Pode piorar.
   — Será que os pontos se abriram? — Felipe cogita.
   — Vocês estão me assustando! — grita Yasmin visivelmente apavorada.
Victor levanta e caminha até ela.
   — Tenta ficar calma.
   — Como eu vou ficar calma? Minha cicatriz está sangrando! Como isso é possível?
Vinícius também fica em pé.
   — A gente tem que ir para o hospital.
   — Eu vou chamar o Evaldo — diz Felipe correndo para a garagem.
   — Espera aí, espera aí — pede Yasmin.
   — O que foi? — Seu irmão para e olha para ela, assim como todos os outros.
   — Eu queria te pedir uma coisa.
   — Isso não é hora pra pedir nada, Yas — corta Felipe.
   — Mas eu preciso dizer isso para o Victor e pra você!
   — Fala de uma vez — pede Vinícius.
Yasmin tira as mãos de sua barriga e se endireita.
   — Eu queria pedir pra vocês olharem bem ali — diz apontando para um ponto na estante.
   — Do que você está falando? — questiona Victor.

As mãos de Douglas seguram com firmeza o guidão de sua moto e só relaxam quando ele para o veículo em um ponto deserto da orla da praia de Copacabana. 

   — Por que a gente parou? — questiona Graziele com os braços ainda ao redor do corpo dele.
   — A gente precisa conversar, ruivinha. — Ele dá duas batidinhas no joelho dela, sinalizando para ela descer.
Com a testa franzida, Graziele desce da moto e tira o capacete.
   — O que foi, Douglas? — pergunta depois que ele sobe a calçada e para em sua frente.
   — Vamos sentar ali.
Os dois caminham e se sentam em um banco.
   — O que foi? — Ela volta a perguntar.
O rapaz coloca seu capacete do outro lado, puxa o ar com força e olha para ela.
   — Eu preciso saber exatamente o que você sentiu ao ver o Thiago esta noite.
   — Como assim, Douglas? — ela estranha.
Ele coloca as mãos entre as pernas enquanto fala:
   — Eu preciso saber o que você sentiu quando viu o Thiago hoje.
   — Por que isso?
   — Você ainda ama ele, né?
   — Douglas.
   — Só me responde.
Graziele desvia o olhar.
   — É complicado — sussurra.
   — Eu sei que você ama o Thiago, não te julgo por isso.
   — Então por que a gente está tendo essa conversa? — questiona ela.
   — Porque eu não sei se vou conseguir lidar com essa situação.
   Você não vai conseguir lidar com essa situação? Não foi você quem disse uma hora atrás que isso não era a coisa mais absurda do mundo?
   — Isso foi antes de eu ver como você e o Thiago se olham.
Ela se arrepia.
   — O que você quer dizer com isso?
   — Ruivinha, eu tô gostando muito dessa parada que a gente está tendo, mas não sei se é justo com nós três.
   — Não existe nós três — ela discorda e pega no braço dele. — Douglas, somos apenas eu e você.
   — Não vamos nos enganar. O Thiago ainda gosta de você, você ainda gosta dele... por que eu estou no meio disso?
   — Porque a gente se gosta! 
   — Eu não quero que ninguém se machuque. O Thiago fala que por ele está tudo bem, mas eu não acho que realmente esteja. E você... você sofre por não estar com ele, Grazi.
   — Não! Eu sofro por essa situação estar acontecendo. Eu não queria que fosse assim. Por mim, eu e o Thiago seríamos amigos novamente assim como eu e você.
   — O quê? — Douglas franze a testa.
   — Eu queria estar ao lado do Thiago nesse momento complicado, como a amiga que eu sempre fui pra ele.
   — E quanto a mim?
   — Eu preferiria que a gente nunca tivesse se envolvido, pra que não ficasse esse clima entre nós três. — Ela aperta o braço dele e completa: — Mas aconteceu! Eu sei que você duvida dos meus sentimentos por você, mas...
   — Eu não duvido — ele interrompe.
   — Não mente, Douglas. Você e todo mundo pensa que eu só estou com você pra esquecer o Thiago, ou pior, porque o Thiago prefere me manter longe. Só que eu gosto de você de verdade. — Ela chega mais perto dele. — Eu não consigo explicar a atração que eu sinto por você.
Douglas pega nas mãos dela.
   — Ruiva, talvez seja melhor a gente...
   — Não, não fala isso — pede Graziele. — Você gosta de mim? — pergunta de repente.
   — Eu não preciso responder.
   — Você gosta de mim? — a garota insiste.
Douglas olha diretamente pra ela.
   — Claro que eu gosto. Cada partezinha sua me encanta de uma maneira que eu não sei definir.
   — Então não vamos acabar com isso. — Ela beija o ombro dele. — F*da-se o Thiago.
   — Você sabe que não é bem assim.
   — É sim. Eu cansei de viver em um luto por ele. Não quero mais sentir o que eu senti hoje.
   — E o que você sentiu?
   — Agonia. Como se eu estivesse errada. Mas foi ele que mentiu pra mim, ele que me enganou dizendo que tinha parado de fumar. Eu só quis o melhor pra ele e continuo querendo. Eu não vou ficar me punindo. Eu não estou errada — sussurra.
Douglas segura o queixo dela e beija lentamente os seus lábios.
   — A gente vai ficar junto até quando for bom pra nós dois.
   — Sim — ela afirma olhando intensamente nos olhos dele.

Felipe e Victor continuam olhando com espanto para Yasmin, que fala:

   — Olhem ali para a estante, entre os livros e o vasinho de flor.
   — O... o que é aquilo? — pergunta o moreno sem acreditar no que está vendo.
   — É uma câmera? — Victor questiona.
   — Exatamente! — exclama Isabela sorrindo. — E sabe o que aquela câmera está fazendo?
   — Ela está gravando — responde Yasmin sorrindo. — Está gravando a cara de pamonha de vocês dois!
Felipe continua confuso.
   — O que é isso, Yasmin?
Marina explica pela loirinha:
   — Vocês ficaram fazendo pegadinhas em todo mundo lá na fazenda e acharam mesmo que elas não iam se vingar?
Victor sacode a cabeça.
   — Não acredito que vocês fizeram isso.
   — A vingança é um prato que se come frio — fala Isabela sorrindo.
   — Nossa, cara! Não estou acreditando que vocês fizeram mesmo isso — fala Felipe.
   — Então você não está sangrando? — indaga Victor olhando para a barriga da namorada.
   — Isso é sangue falso que a Marina fez — esclarece a loirinha rindo.
Felipe olha para Vinícius, que também sorri, e indaga:
   — Você também sabia disso?
   — Sim — responde o irmão de Isabela.
   — Não seria justo ele cair na pegadinha também — diz Isabela. — Ele não fez nada contra a gente.
   — O problema era só você e eu, cara — Felipe fala para Victor.
   — Nossa, mas as nossas pegadinhas foram super leves — indigna-se o loiro.
   — Leves? — Yasmin repete incrédula. — Vocês assustaram a gente com máscara ensanguentada.
   — Colocaram corante na pasta de dente pra eu achar que minha boca estava sangrando — lista Isabela.
   — Você, Victor, fingiu cortar o dedo só pra me assustar — continua Yasmin.
   — Vocês dois assustaram a gente de madrugada.
   — O que fez com que eu machucasse o meu braço — acrescenta Marina acariciando a região como se sentisse a dor que sentiu.
   — E ainda fizeram chapinha no meu cabelo! — encerra Vinícius e Yasmin sorri.
   — Isso foi até engraçado.
   — Engraçado foi o soco que o Victor levou — Marina diz rindo.
   — Ok, mas isso não chega perto de brincar com a cirurgia da Yasmin — devolve o loiro.
   — Aceita que vocês foram pegos e ponto final — ri Yasmin.

Samuel abre espaço entre as pessoas para chegar no local onde Maísa disse ter visto Jonas pela última vez.

   — Espera aí — diz a loira puxando a mão dele. 
   — Hã? — Samuel olha para trás, mas não entende o que Maísa diz em seguida, apenas vê ela gesticulando para a esquerda. — O quê? — grita acima da música.
A garota aproxima o rosto do dele e fala em seu ouvido:
   — O Jonas está ali! — Ela toma a frente e começa a pedir licença às pessoas.
Em certo momento, enquanto está olhando para o chão para evitar pisar no pé de alguém, sente uma mão em sua cintura e ergue a cabeça.
   — Estava procurando vocês — fala Jonas.
   — A gente também estava atrás de você — fala Samuel atrás de Maísa.
   — Vamos sair daqui — pede a garota. — Eu estou ficando sufocada.
   — Você trouxe sua bombinha? — Jonas pergunta ficando preocupado.
Samuel fica espantado.
   — Você é asmática?
   — Você está se sentindo bem?
   — A gente pode ir embora se você quiser.
   — Gente, calma! — ri Maísa. — Aqui só está apertado mesmo. Eu estou bem.
   — Vamos sentar em algum lugar pra comer — diz Jonas pegando na mão dela.
Quando o trio encontra uma mesa desocupada, sentam-se nela com pratinhos de salgadinhos e docinhos.
   — Por que vocês estavam me procurando? — pergunta Jonas distraidamente. — Sentiram a minha falta?
Samuel ri e Maísa responde enquanto bebe um gole de suco.
   — Na verdade, o Samuel tava fugindo do Gabriel.
   — Hã? — Jonas ri sem compreender.
Depois de comer uma empadinha de palmito, Samuel explica:
   — A Jaque e a Luciana chegaram bêbadas com o Gabriel e eu não quis ficar perto.
   — Daí você resolveu deixar elas sozinhas com ele?
   — Qual é o problema? Elas já são crescidinhas.
   — E o Gabriel não ia fazer mal à elas — opina Maísa. — Não conheço ele direito, mas ele parece ser tranquilo.
   — É que a Jaque e o Gabriel já têm uma história, né? — continua Jonas. — Vai que ela faz alguma coisa e se arrepende depois.
   — Isso é ciúmes? — provoca seu amigo.
   — Não fui eu que fiquei com a Jaqueline aqui.
   — O brigadeiro está uma delícia! — exclama Maísa enfiando um docinho na boca de Jonas e outro na de Samuel. — Eles estão bêbados, mas estão curtindo. Deixem eles!

Passam das três e meia da manhã quando o último convidado da festa de Mayara vai embora.

   — Agora somos só você e eu! — ela sorri para Malu ao trancar a porta.
A morena está sentada em um dos tapetes que foram usados como base para as bebidas.
   — Eu só não fui embora, porque acho que você não se encontra em estado de ficar sozinha.
   — Por quê? — gargalha Mayara. — Eu só estou feliz! — exclama, girando de braços abertos.
   — Feliz vulgo bêbada. — Malu levanta e caminha até a amiga. — Vem, vou te levar até o quarto.
   — Que quarto? Está tudo vazio, Malu! — fala Mayara aos risos.
   — Ah é. — A morena observa ao redor. — Então nós vamos dormir aqui na sala mesmo. — Ela solta Mayara e começa a organizar os tapetes para que elas possam deitar com mais conforto. — Esse povo nem para colocar as garrafas vazias na cozinha, hein? — reclama deixando algumas garrafas de vidro perto da porta da sacada. Ela sente dois braços se fechando em sua cintura e vira para trás.
   — Você está linda hoje — elogia Mayara.
O cheiro de álcool e a aproximação súbita incomodam Malu, que desvencilha-se dos braços da loira com facilidade.
   — Vamos dormir, Mayara.
   — Só dormir? — provoca a loira rindo.
   — Só dormir. — Ela ajuda a amiga a deitar no tapete e retira os seus sapatos. 

Depois que Isabela, Vinícius e Marina foram embora, Yasmin e Victor subiram para o quarto dela para assistirem um filme. Quando o filme acaba, a loirinha encaminha-se ao banheiro para escovar os dentes e passar seus cremes noturnos.

   — Victor? — chama ao sair do banheiro e encontrar o quarto vazio. Uma rajada de vento passa por ela, que olha para a porta que leva à sacada, constatando que esta está aberta. A loirinha caminha até lá e enxerga Victor debruçado na sacada. — O que você está fazendo aí? — pergunta indo até ele.
   — Só estou pegando um ar — responde Victor olhando para o gramado metros abaixo.
   — Hum. — Yasmin para ao seu lado e fica observando o céu estrelado por alguns minutos. — Você não está com sono? — questiona rompendo o silêncio da madrugada.
   — Não muito.
Ela passa a mão pelas costas dele por cima da regata preta.
   — Eu estou com um pouco. — Após analisar bem o rosto dele, pergunta: — Está tudo bem?
   — Sim.
   — Você está diferente da hora que a gente estava assistindo filme.
Ele dá de ombros.
   — Não é nada demais.
Mesmo Victor sendo um exímio mentiroso, sua namorada sente que ele não foi totalmente sincero.
   — Você sabe que pode me contar qualquer coisa, né? — comenta Yasmin passando a ponta do nariz pelo braço dele.
   — Sei.
Ela apoia o queixo no ombro dele e olha intensamente para o seu rosto.
   — E mesmo assim você não quer me falar o que está pegando?
   — Não tem nada pegando.
   — Ok. — Yasmin afasta-se dele. — Se você não quer falar, não sou eu quem vai ficar insistindo.
Ela se vira para retornar ao quarto, mas para quando Victor diz:
   — É sobre a pegadinha que vocês fizeram.
Yasmin ri com incredulidade.
   — Não vai me dizer que você ficou bolado?
   — Não, não é isso. É que eu lembrei do que aconteceu com você mês passado.
A herdeira de Micael e Sophia fica encarando as costas do namorado por alguns segundos, até que se aproxima dele novamente.
   — Esquece isso — pede falando mais baixo.
   — Não é tão fácil. Você mais do que ninguém deve saber disso.
   — Eu sei. Mas eu sei também que quanto mais eu penso sobre o que aconteceu, mais isso volta para me assombrar.
   — Acho que eu nunca senti tanto medo na minha vida. Por você, pela minha irmã, por todo mundo.
Yasmin aperta o braço dele.
   — Acabou. A Marina está bem, eu estou bem, todos estão. O pai do Daniel teve o fim que ele mereceu, não vamos deixar que ele continue nos atormentando.
Victor assente, parecendo mais relaxado.
   — Sabe, às vezes eu fico pensando em uma coisa.
   — No quê?
   — E a mulher dele, Marisa né? O que aconteceu com ela?
Yasmin demora para responder.
   — Ninguém sabe.
   — Pois é. E se ela...
   — Ela não vai fazer nada — corta Yasmin. — Eu tenho certeza que o Daniel saberá se ela retornar para o Rio e vai impedir ela de se aproximar de qualquer um de nós.
   — Assim como ele impediu o Augusto de ir atrás do Nícolas lá na fazenda?
Yasmin engole em seco.
   — A gente não tem que ficar pensando nisso — diz depois de um tempo.
Victor sacode a cabeça com força.
   — Você tem razão. — Ele entrelaça seus dedos nos dela. — Vamos dormir.
Yasmin permanece onde está e puxa o loiro para perto de si.
   — Você não vai pensar nessas bobeiras de novo, né?
   — Vou tentar me controlar — promete ele encarando os olhos dela.

Nem os grilos, nem os demais insetos que perambulam pelo gramado incomodam Graziele, que está sentada entre os arbustos do jardim da mansão de sua família. Os pensamentos dela navegam por um caminho sinuoso e muito distante da realidade, deixando a jovem em estado de torpor.

   Depois da praia, Douglas e ela ficaram um tempo no apartamento dele e em seguida ele a levou para o condomínio onde ela mora. Graziele sequer chegou a passar pela porta da mansão, assim que Douglas partiu em sua moto ela se acomodou no ponto mais escuro do jardim.
   A madrugada está tão silenciosa que a ruiva é capaz de ouvir o vento soprar e o seu próprio coração bater em ritmo acelerado, reflexo de sua inquietação interna.
   Somente quando o barulho de passos na rua chegam aos seus ouvidos é que ela desperta do entorpecimento. Em poucos segundos o corpo de Graziele passa de letárgico à alerta. Ela se aproxima ainda mais de uma planta para se esconder na escuridão e fica observando a calçada em frente à residência.
   Sua frequência cardíaca dispara ao ver um rapaz parar diante do portão.
   — Thiago — pronuncia sem produzir nenhum som.
Com os olhos fixos nele, Graziele observa o jovem colocar as mãos nos bolsos e encarar um ponto específico da fachada da mansão. Ela segue o olhar de Thiago e constata que a sacada de seu quarto é o objeto de interesse dele.
   Quinze minutos se passam e tanto Thiago quanto Graziele permanecem imóveis.
De repente, o rapaz desvia o olhar para o jardim e a ruiva prender o ar. Thiago sussurra alguma coisa para si mesmo e sai caminhando com as mãos nos bolsos.
   Graziele solta um suspiro aliviado e permanece estática por mais dez minutos apenas para ter certeza de que seu ex-namorado não voltará. Em seguida, estica os joelhos e sai em disparado para dentro da mansão.

Com as pontas dos dedos frias, Maísa gira lentamente a maçaneta da porta principal do casarão onde vive com seus pais. Ela espia o interior e estica a outra mão para trás, recebendo o celular de Jonas com a lanterna ativada. Ao checar que o hall e a sala estão vazios, ela faz um sinal para ele e os dois entram e vão direto para a escada. Ao chegarem ao primeiro andar, Maísa faz mais uma verificação e eles partem para o quarto dela. Somente quando estão lá dentro é que trocam um olhar e então começam a rir.

   — Shiu! — ela pede silêncio e tranca a porta. — Meus pais nem podem desconfiar que você vai passar a noite aqui.
   — Já é quase dia — observa Jonas olhando entre a cortina.
   — Mas a gente ainda tem algumas horas para aproveitar — a loira fala chegando perto dele. O rapaz abraça a cintura dela e diz:
   — Não sei se as suas ideias são iguais às minhas, se for eu super apoio.
   — Vamos colocar logo essas ideias em prática!
O casal começa a se beijar voluptuosamente e caminha aos tropeços até a confortável cama de Maísa. Eles deitam um sobre o outro e continuam trocando carícias. A mão de Jonas percorre a perna esquerda de Maísa e vai erguendo aos poucos o vestido que ela usa. A garota, por sua vez, coloca as mãos por baixo da camisa dele e acaricia suas costas. 
   Eles se beijam com muita intensidade e suas mãos buscam lugares cada vez mais íntimos. Jonas mordisca o lábio de Maísa e ela solta um suspiro seco. Ele morde o queixo dela e vai traçando uma linha de beijos pelo corpo da loira. Em certo instante, Maísa tem que se controlar para que seus gemidos não sejam tão audíveis. Seu corpo se contorce sob o toque de Jonas e suas energias misturando-se. 
   Quando suas bocas encontram-se novamente, eles estão ainda mais fervorosos. A jovem aperta e apalpa todo corpo dele e Jonas vibra de prazer. Eles estão entregues ao presente e ao outro, a paixão existente entre eles pulsando em cada instante. O casal troca olhares tão íntimos e intensos quanto o momento e também fecham os olhos para eternizar a sensação cinestésica provocada pelo contato com o outro.
Maísa busca a mão de Jonas e entrelaça seus dedos nos dele, fincando suas unhas na pele do rapaz. Jonas ergue suas mãos acima da cabeça dela e aperta seus dedos, olhando intensamente nos olhos dela. A loira procura a boca dele com desejo e eles trocam um beijo quente carinhoso.

Logo que o dia amanhece, Mel sai com roupa de ginástica e tênis para correr pelo condomínio. Cerca de uma hora e meia depois, ela volta para casa cansada e suada. Na cozinha, enche um copo com água e fica aguardando uma das empregadas preparar uma vitamina e uma tapioca para ela, atualizando suas redes sociais.
   Os olhos de Vinícius estão miúdos de sono e seus cachos amassados quando ele passa pela porta da cozinha.
   — Bom dia! — deseja caminhando até a mãe.
   — Bom dia, meu amor! — Ela ergue as mãos entre eles quando Vinícius prepara-se para abraçá-la. — Estou suada.
   — Não me importo. — O jovem estica os braços e eles dão um abraço apertado, ele ganhando dois beijos de Mel.
   — Por que você acordou tão cedo? — indaga a empresária acompanhando o filho com os olhos. Vinícius contorna a bancada, cumprimenta carinhosamente as empregadas e abre a geladeira, respondendo:
   — Hoje eu vou começar a aprender piano.
   — Com o seu pai?
   — Não, com a Branca.
Mel fica surpresa.
   — A mãe da Sophia?
   — Ou a avó do Felipe — ele ri mordendo uma maçã. — Ele vai me levar com ele.
   — Então agora a Branca tem dois alunos de piano? — comenta Mel sorridente.
   — Sim. — Vinícius senta em uma cadeira e cruza os tornozelos. — Estou com vontade de aprender algo novo.
Mel dá um sorriso orgulhoso.
   — Você gosta de estudar música, né?
   — Amo!
Ela bloqueia a tela do celular e olha diretamente para o filho.
   — Então por que você não faz faculdade de música?
   — Não! — exclama Vinícius de imediato. — Música é uma paixão caseira, é um hobbie. Não pretendo trabalhar com isso. 
   — Nem tocando no seu restaurante? — ela sugere sorrindo.
   — Mãe — ele olha para Mel com descrença. — Nem sei se eu vou ter um restaurante.
   — Por que não? Pensei que esse fosse o seu sonho.
   — O meu sonho é cozinhar pelo mundo afora — diz Vinícius com os olhos brilhando. — Conhecer novas culturas, novas gastronomias. 
   — E ficar longe da sua família?
   — Não, vocês podem ir comigo. — Ele ri. — A senhora lançando coleções em cada continente, a Isabela escrevendo crônicas sobre os países, o meu pai cantando com músicos de cada país e a Marina... deixa eu pensar o que a Marina pode fazer... Ah! — ele exclama sorrindo. — Ela pode desenvolver um aplicativo que conte todas as aventuras da nossa família. Olha que demais!
Mel ri junto com o filho da brincadeira.
   — É uma ótima ideia, hein?
   — Sim. E eu esqueci de mais uma pessoa! O Reinaldo pode usar de todo o marketing para divulgar o app da Marina.
A empresária fica espantada e feliz por Vinícius já estar contando Reinaldo como um membro da família.
   — O Reinaldo iria com a gente?
   — Claro, mãe — responde Vinícius com obviedade. — Ele não é seu namorado? Tem que participar da aventura também! — Ele ri com simplicidade e joga o que sobrou de sua maçã na lixeira.

A claridade solar torna-se tão intensa que Jaqueline não vê outra opção a não ser abrir os olhos e ao fazer isso leva um susto. Ela se senta com rapidez na cama em que dormiu e olha ao redor sobressaltada.
   — Meu Deus do céu — sussurra, reconhecendo o espaço. Ela coloca os pés para fora da cama e só então se dá conta de que está completamente nua. Rapidamente alcança sua lingerie no chão e a coloca, enrolando-se em seguida em um dos lençóis. 
   Sem saber o que deve fazer, fica imóvel ao lado da cama por alguns minutos, até que decide ir ao banheiro. Logo que chega na porta, volta a se assustar.
   Gabriel está parado como uma estátua diante da pia, as mãos firmes na pedra clara e os olhos fixos na torneira. 
   — Gabriel — chama Jaqueline ainda falando muito baixo. 
O rapaz vira a cabeça na direção dela, mas não fala nada.
   — Como isso foi acontecer? — pergunta a loira se apoiando na pia. 
Gabriel suspira e responde:
   — Não sei. 
   — A gente não deveria ter bebido tanto! — Jaqueline reclama consigo mesma, passando a mão no cabelo loiro.
   — Não coloca a culpa na bebida — Gabriel pede. 
   — A gente transou, Gabriel! E eu não sei você, mas eu não me lembro de completamente nada.
   — Eu também não me lembro.
Eles se calam e permanecem assim durante um bom tempo. Nesse silêncio, Jaqueline pensa sobre algo.
   — Gabriel — chama novamente.
   — Hum? — Ele olha para ela.
Com os olhos intensos nele, Jaqueline pergunta:
   — A gente se protegeu? 
   — Sim — ele responde, mas ela não se convence. 
   — Como você pode ter certeza?
   — Eu encontrei um pacote aberto do lado da minha cama.
   — Um pacote aberto não significa que a gente usou.
Gabriel caminha para fora do banheiro enquanto responde:
   — A camisinha também tava no chão. Usada, se você quer mais especificamente. 
Finalmente Jaqueline suspira de alívio.
   — Menos mal — sussurra e vai atrás dele.
Gabriel está sentado do outro lado da cama com os cotovelos apoiados nas coxas. Jaqueline observa as costas nuas dele e caminha até a cama.
   — O que aconteceu, aconteceu — ele fala sem se virar pra ela. — Não adianta a gente ficar chorando pelo leite derramado. 
   — Eu sei. — Ela se arrasta até ele e senta ao seu lado, praticamente despida do lençol. — Tenho certeza que foi bom e que a gente gostou — fala entrelaçando seus dedos nos dele. Gabriel não retribui o aperto, mas também não se afasta. — Eu só não queria que tivesse acontecido desse jeito. Ainda mais nesse momento da minha vida.
   — Não fica agindo como uma viúva — Gabriel pede em tom de conselho.
   — Não estou agindo como uma — discorda Jaqueline ressentida. — Eu só estou triste. É normal e compreensível. 
   — Aham. — Ele continua olhando para o chão e não fala mais nada.
Jaqueline também permanece em silêncio, pensando se deve ou não dizer o que está em sua mente.
   — Gabriel — ela decide que sim —, eu fico muito aliviada, mas ao mesmo tempo muito chateada por isso ter acontecido justamente com você.
   — O que você quer dizer com isso?
   — Eu fico aliviada porque não transei com qualquer um, sabe-se lá o que poderia ter acontecido?
Gabriel sente ela se arrepiar e aperta seus dedos.
   — Está tudo bem, Jaque.
   — Porque foi com você. E é justamente isso que também me deixa chateada. Você, Gabriel? Eu tenho um carinho tão grande por você, por tudo o que a gente já viveu e agora isso acontece?
O rapaz olha diretamente para Jaqueline ao dizer:
   — Por mim nada mudou. Quer dizer... — Ele solta a mão dela e suspira, passando as mãos pelo rosto. — Você sabe que eu ainda me sinto muito atraído por você. Só que eu não me lembro de nada, então... é como se não tivesse acontecido. Entende?
   — Sim — Jaqueline sussurra. Eles ficam novamente em silêncio até que ela se lança nos braços dele, dizendo: — Você é muito, muito especial pra mim.
Gabriel encaixa seu rosto no pescoço dela.
   — Você também. 
A loira passa os dedos pelo cabelo dele e se afasta.
   — Acho melhor eu ir.
   — Quer que eu chame um táxi? — indaga Gabriel olhando para ela, que levanta e começa a se vestir.
   — Não — responde a jovem passando um dos braços pela manga de sua blusa. — Eu vou chamar pelo aplicativo.
   — Ok. — Ele levanta e pega uma regata em seu armário.
Depois de calçar os sapatos, Jaqueline questiona:
   — Será que os seus pais estão em casa? — Ela coça o cabelo, envergonhada. — Eu não quero encontrar com nenhum deles. Seria estranho demais.
   — Com certeza — concorda Gabriel. — Eles achariam que a gente voltou.
   — Sim.
Os dois se encaram intensamente e começam a rir juntos.
   — Até agora eu não acredito que isso foi acontecer! — exclama Jaqueline sorrindo.
Ele assente e caminha até a porta.
   — Vou ver se eles estão em casa.
Jaqueline assente e fica onde está. Instantes depois, Gabriel retorna.
   — Eles ainda estão dormindo.
   — Ufa! — Ela pega sua bolsa e se aproxima da porta. — Então é isso... Tchau.
   — Não quer que eu te leve até a porta?
   — Não precisa, conheço bem o caminho. — Eles sorriem um para o outro e Gabriel dá um abraço nela.
   — Se cuida.
   — Pode deixar — responde Jaqueline e dá um beijo na bochecha dele antes de sair do quarto. 

Sentindo as costas e os ombros doerem, Malu senta-se no tapete e a sala do apartamento de Mayara entra em foco. A morena permanece sentada durante alguns minutos, despertando aos poucos. Ela coça a cabeça e passa os dedos pelos fios negros tentando desembaraçá-los minimamente. 
   A maçaneta gira e Mayara entra usando as mesmas roupas da noite anterior, com o cabelo preso em um coque e um enorme óculos cobrindo seus olhos e parte das bochechas.
   — Oi — diz dando um leve sorriso para Malu enquanto bate a porta com o pé. — Fui comprar o nosso café da manhã — conta e ergue duas sacolas de plástico.
   — Você saiu que eu nem percebi — comenta Malu vendo Mayara tirar os itens da sacola e colocá-los no chão. Entre eles, há queijo, pão, requeijão, iogurtes e duas ameixas.
   — Eu reparei. Eu que encho a cara e você que desmaia — brinca a loira.
   — Falando nisso, você está melhor?
Mayara ergue os olhos até ela.
   — Melhor? Eu passei mal, ontem?
   — Não! Você só ficou bem alterada mesmo.
   — Ah tá. Estou de boa. Só com os clássicos sintomas de ressaca.
Malu ri e engatinha até os alimentos, sentando de frente para Mayara.
   — Pode se servir — diz a loira passando requeijão em um pão. — Não é um banquete, mas é o que temos pra hoje.
   — Pra mim está ótimo — opina Malu pegando uma ameixa e limpando na própria roupa. — Mayara — diz após morder um pedaço da fruta. — Ontem eu pensei que fosse encontrar uma pessoa aqui, mas ela nem deu as caras.
A loira olha demoradamente para a amiga, fazendo ideia de quem ela se refere. Mesmo assim, pergunta:
   — Quem?
   — A Vanessa. Vocês terminaram?
   — Não, mas a gente está brigada — conta Mayara.
   — Por quê?
A outra suspira e tira uma mordida do pão.
   — Você sabe que os planos era ela vir morar comigo, né? — Malu assente e ela prossegue: — Pois então, quando a mãe dela ficou sabendo, criou o maior caso e ela desistiu.
   — Sério? — Malu não faz questão de esconder o espanto.
   — Sim. E eu já estava contando com ela, sabe? — Ela beberica o iogurte. — Fiquei muito brava.
   — Mas isso comprometeu seu orçamento?
   — Não! — exclama Mayara de imediato. — Os meus pais estão me dando todo o suporte e eu também descolei um trampo como DJ em uma boate aqui perto — ela sorri. — Você está convidada para ir lá me ver!
   — Claro, é só você avisar quando vai tocar que eu e o Samuel pintamos por lá.
   — Pode deixar. — Ela termina o pão e sacode os farelos da roupa. — Mas então, foi isso o que aconteceu. Agora a gente está dando um tempo. Pra ser sincera, ela nem sabe que eu dei essa festa.
Malu ri.
   — Então isso explica algumas coisas.
   — Que coisas? — Mayara franze a testa e tira os óculos para passar a mão no rosto.
   — Algumas coisas no seu comportamento ontem — sorri Malu deixando o caroço da ameixa de lado.
A loira arregala os olhos.
   — Ai meu Deus! O que foi que eu fiz ontem?
   — Adivinha.
   — Ah, não! — Mayara deita de braços abertos no chão. — Eu dei em cima de você? — pergunta olhando de esguelha para Malu, que confirma com a cabeça.
   — Deu.
   — Arght! — A loira rola pelo chão e para de barriga para baixo. — Viu, é por essas e outras que eu tenho que parar de beber.
Malu ri.
   — Relaxa, não aconteceu nada.
   — É claro, né? Você não gostou da fruta que provou. — Mayara volta a ficar sentada. — Mas imagina se eu dou em cima de uma outra amiga minha, uma que realmente gosta de fruta. Pronto, eu ia trair da Vanessa!
   — Mas vocês não estão dando um tempo?
   — Tempo para a gente pensar, não pra sair pegando outras minas, né?
A morena ri e pega um pão.
   — Entendi. 
O celular de Malu começa a tocar e como está mais perto do aparelho Mayara o alcança e entrega à dona.
   — Oi, Samuel! — diz Malu ao atender.
   — Oi! Eu não te acordei, né?
Ela sorri.
   — Não, acordei faz alguns minutos.
   — Ah tá. Eu estou indo comprar umas cordas novas para o meu violão e pensei em passar no condomínio depois pra gente fazer alguma coisa. O que você acha?
   — Acho ótimo, mas você vai ter que passar aqui no prédio da Mayara primeiro pra me pegar.
   — Hã?
   — Lembra que eu vim na festa no apartamento novo da Mayara?
   — Lembro, mas isso não foi ontem?
   — Foi, Samuel — ela ri. — Acontece que a Mayara bebeu muito e eu resolvi dormir aqui pra ela não ficar sozinha.
Mayara ri e tira sarro:
   — Que meiga. 
Malu chuta a amiga e ouve a resposta de Samuel:
   — Então vocês dormiram juntas?
A morena fica séria, não gostando do tom de voz dele.
   — Não no sentido que você com certeza está atribuindo a esse verbo. — Ele demora para dizer alguma coisa e Malu chega a acreditar que ele desligou. — Samuel?
   — Me passa o endereço por Whatsapp, que eu passo aí depois da loja — ele fala.
   — Ok. Beijo!
   — Tchau.
Eles desligam e Malu fica encarando a tela do celular.
   — Pelo visto ele não gostou de você ter dormido aqui, né? — analisa Mayara pela expressão dela.
   — Pelo visto não.
   — Qual é o problema com ele? Por acaso, ele não pensa que você vai trocar ele por mim, né? — ela ri, mas Malu não a acompanha.
   — Quem dera fosse isso.

Na companhia de Nina, Isabela lê um livro indicado por sua professora de literatura na sala da mansão de Mel. Vinícius desce as escadas, saltitando de empolgação.
   — Estou indo — diz para a irmã.
   — Ok, manda um beijo pro Felipe e pra Branca!
   — Tá bom! 
A porta de acesso à garagem é aberta e Mel surge.
   — Oi, filho! Ainda bem que eu te encontrei ainda em casa.
   — Mas eu já estava saindo — diz ele consultando as horas.
   — Ok. É que eu tenho um convite pra você e pra Isabela, mas é rapidinho.
Isabela ergue a cabeça com interesse.
   — Que convite?
   — O Reinaldo chamou nós três para um jantar hoje, mas eu falei que ia ver com vocês primeiro. Vocês topariam? — ela pergunta olhando de um filho para o outro. Os dois não têm nenhuma reação imediata e Mel desanda a falar: — Claro que é uma coisa simples, só pra vocês conhecerem um pouco ele e vice-versa. Mas se vocês não quiserem — ela fala gesticulando com as chaves do carro —, ele vai entender. Não tem problema nenhum, eu não quero que vocês se sintam pressionados ou algo do tipo, é só um momen...
   — Por mim tudo bem — interrompe Vinícius e o rosto de Mel fica iluminado.
    Sério?
   — Claro, sem problema algum.
Mãe e filho se voltam para Isabela, que permanece quieta. A jovem não se sente totalmente confortável com a ideia, mas não quer ver o brilho do olhar de Mel se apagar, por isso reúne todo o seu entusiasmo e responde:
   — Claro que eu topo. — Ela dá um sorriso sincero e acrescenta: — Aliás, é a oportunidade da gente começar do zero.