sábado, 19 de agosto de 2017

Imagine ChaMel 4ª Temporada (Filhos) - Capítulo 362: Marina chega a Nova York


Na manhã de domingo, Jonas e Maísa aguardam Michael, o motorista da jovem, chegar para levá-los de volta à capital carioca. Maísa está acomodada em uma poltrona e Jonas sentado no tapete em sua frente de pernas cruzadas. Eles estão de mãos dadas e a loira encara os dedos do namorado.
   — Você vai para casa ou para a Laís? — pergunta Jonas.
   — Para a Laís — Maísa responde olhando para ele. — Minha mãe está lá. Ainda é muito cedo para a gente voltar para casa, sabe?
   — Sei. Vocês pretendem continuar morando no casarão?
   — Não sei. — Ela dá de ombros. — Eu e a minha mãe não conversamos sobre isso, mas eu não quero me mudar. Passei toda a minha infância lá, todas as minhas recordações são de lá, eu não quero me mudar. Vai ser difícil, muito difícil, mas seria pior se mudar.
   — É. Se a coisa apertar demais, saiba que as portas da minha casa estão abertas pra você, tá? 
Maísa dá um leve sorriso.
   — Obrigada. — Eles ficam em silêncio por alguns minutos até que Maísa escorrega da poltrona e senta no colo de Jonas com as pernas rodeando o quadril dele. — Eu te amo — fala passando a mão pelo rosto dele.
Jonas encara os olhos azuis dela com intensidade e quando fala, seus sentimentos ficam evidentes em seu tom de voz.
   — Eu também te amo.
Os braços de Maísa apertam os ombros dele em um abraço terno. 

Sentado com seu notebook na mesa ao lado da cama, onde Malu repousa, Samuel procura sites de aluguel para carros.
   — Vem cá me ajudar a escolher um carro pra gente — chama o jovem. Malu se arrasta pela cama e o abraça por trás, apoiando seu queixo no ombro dele. — Achei esse site aqui. Qual categoria você quer olhar?
   — Ah, sei lá, quero um carro diferentão.
Samuel ri.
   — Vamos ver se a gente encontra alguma coisa.
   — Entra ali no premium. 
   — Premium vai ser caro, Malu — diz Samuel clicando na categoria de carro. 
   — Larga de ser mão de vaca. A gente vai alugar por um dia só.
Samuel vai rolando pela página e eles vão analisando as opções.
   — Não gostei de nenhum — diz Malu. — Olha outra categoria.
   — Intermediário? — pergunta Samuel entrando para dar uma olhada. — Só tem carro normal aqui.
   — Procura em outro site — sugere Malu.
   — Vamos ver carros fabricados em outros países. 
   — Olha no dos Estados Unidos. Lá a gente acha carros diferentes. Tem a França também, para a gente ver depois.
   — Olha, Aruba! Vamos ver que carros tem lá? — fala Samuel clicando no país.
   — O que é full-size? — questiona Malu com curiosidade e Samuel entra na opção. Os dois começam a rir ao ver o único carro que aparece. — Claro, vamos andar por aí em uma van — ironiza a jovem e Samuel vai para a aba dos Estados Unidos. — Entra em especiais — pede Malu.
   — Achei! — exclama o rapaz passando o cursor sobre um Jeep Wrangler
   — Ah, não! Muito esportivo, Samuel. — Ela rodeia a cadeira e senta em uma das coxas dele.
   — Mas eu quero — retorque o jovem descansando uma das mãos na cintura dela.
   — Mas eu não — devolve Malu assumindo o controle do notebook. Ela desce mais um pouco a página e se anima com o que encontra. — Um mini cooper conversível! E vermelho — acrescenta sorridente e olha para Samuel. — Vamos escolher esse?
   — Mas e o Jeep?
   — O mini cooper combina muito mais com a gente.
Samuel olha para a tela do micro computador e suspira.
   — Tudo bem.
Malu sorri e pergunta:
   — Como a gente faz para pegar?
   — Temos que ir lá no local. Tem uma locadora aqui perto.
   — Então vamos logo, né?
Samuel beija a parte de trás do ombro dela.
   — Você não prefere tomar café antes?
   — Estava pensando na gente comer alguma coisa lá para o lado do Centro Histórico mesmo.
   — Mas o café da manhã está incluso já.
Ela gargalha.
   — Você está muito muquirana, hein? Vamos comer logo aqui então. 
Os dois trocam de roupa, pegam seus pertences e descem para tomar café da manhã.

Por volta das nove horas da manhã, Felipe recebe Vinícius e Victor em casa para ensaiar um trabalho que terão que apresentar no dia seguinte juntamente com Isabela, que nem chegou a ir embora.
   — Felipe, você está falando demais — observa Vinícius largado em um sofá.
   — É, amor — Isabela concorda. — Fala só aquilo que é a sua parte.
   — Desculpa, é que eu me empolgo — justifica-se Felipe e Victor corta:
   — Desempolga. — Ele suspira e encosta na mesa de estudos. — A Marina viajando e eu aqui fazendo trabalho.
   — Ah é, ela já embarcou? — pergunta Isabela e Vinícius umedece os lábios.
   — Sim, foi bem cedo pra São Paulo — Victor responde.
   — O voo dela vai fazer escalas em quais lugares? — Felipe indaga.
   — Em São Paulo — ri Victor. — Depois daí vai direto para Nova York.
   — Sério? Que massa!
   — Sim, daí é só desembarcar no Queens e ir para Manhattan.
   — Detectei um tom de inveja, hein — brinca Felipe e eles gargalham.

Após tomar café da manhã e escolher o prato para o almoço, Marina inclina sua poltrona na classe executiva e fica pensativa. Ela dispensa o livro que colocou na bagagem de mão, os filmes e séries disponíveis no voo para imaginar como será sua próxima semana. Imagens das ruas de Manhattan e de seus amigos passam por seus olhos e ela sorri sem perceber. Depois de um tempo, inclina ainda mais a poltrona e pega sua máscara de dormir.
   — Acordar cedo no domingo não é para mim mesmo — fala colocando a máscara e se acomodando na poltrona com os cobertores e travesseiro da companhia aérea.

   — Te acho tão sexy de óculos de grau — comenta Malu enquanto Samuel manobra o carro para entrar em uma vaga nos arredores da Praça da Alfândega, em Porto Alegre. Ele ri e responde:
   — Você me assusta.
   — Ué, só fui sincera.
   — Obrigado. — Ele aperta o comando para fechar o teto do veículo enquanto Malu alcança seus óculos de Sol dentro de sua inseparável bolsa saco preta. — Vamos? — chama Samuel pegando a carteira e o celular.
   — Vamos — responde a jovem e eles descem do veículo. — Não sei por que nós demoramos tanto para alugar esse carro.
   — Porque foi muito mais prático eu ir de Uber fazer o vestibular. Então para que alugar o carro? Pra ele ficar estacionado esse tempo todo?
   — Você só saiu pra ir pra PUC, mas eu fui para outros lugares.
   — E por acaso você ia dirigir o carro?
   — Não.
   — Então, maluca — ri Samuel pegando na mão dela.
   — Sei lá, só queria ter alugado antes.
Samuel continua rindo e entrega sua carteira para ela, dizendo:
   — Guarda na sua bolsa, estou com medo de perder.
Malu atende ao pedido dele e sorri ao ver uma série de quadros encostados em uma parede na praça, que é bastante arborizada. 
   — Olha que massa! — exclama e arrasta Samuel para olhar as caricaturas.
   — Bom dia — deseja o artista responsável pelos desenhos.
   — Bom dia — responde o casal e Malu questiona: — Você faz na hora?
   — Faço sim.
   — Quanto é?
   — Vinte reais. 
   — A gente vai querer fazer.
   — A gente? — sorri Samuel quando o homem se vira para pegar seus instrumentos.
   — Sim, para marcar a nossa viagem — responde Malu dando um beijo curto nele.
   — Vocês querem que eu desenhe vocês se beijando? — brinca o desenhista, sentando em um banco e indicando outros dois em sua frente para os jovens se sentarem.
   — A gente teria que ficar se beijando durante todo o desenho, né? — pergunta Samuel.
   — Sim — ri o homem.
   — Cruz credo — fala Malu. — Acho que eu não conseguiria, iria vomitar na metade.
O desenhista ri e diz para Samuel:
   — Ácida a sua namorada.
   — Nós não somos namorados — sorri o jovem e olha para Malu.
   — Não somos — concorda a garota também sorrindo.
Ambos tiram os óculos e o homem começa a desenhá-los.
   — Vocês não são daqui, né?
   — Não, somos do Rio — responde Samuel.
   — Percebi pelo sotaque. — Eles riem. — O que trazem vocês a POA?
   — Eu vim prestar o vestibular pra PUC daqui.
   — Ah, que bacana. Você quer fazer o quê?
   — Ciências aeronáuticas.
   — Que massa. E você? — pergunta para Malu.
   — Eu quero cursar ciências biológicas, mas lá no Rio mesmo.
   — Ah sim, e você resolveu fazer aqui para testar?
   — Não, eu só vim acompanhando ele mesmo — Malu responde.
   — Sério? Nossa, e vocês não são namorados?
   — Não — eles riem.
O desenhista olha para Samuel e fala:
   — Se uma menina viajasse para outro estado só para me apoiar durante um vestibular, eu pediria ela em casamento.
   — Mas eu vou pedir ela em casamento um dia — responde Samuel e olha para Malu, que sorri fitando a boca dele.
   — Agora sim! — diz o desenhista e eles riem. — Aqui está a caricatura de vocês — fala minutos depois entregando a folha com o desenho para Malu.
   — Amei — responde a jovem e mostra para Samuel. — Olha que lindo.
Samuel coloca os óculos de grau novamente e concorda.
   — Lindo mesmo. 
Malu abre a bolsa e paga o desenhista.
   — Muito obrigada.
   — Por nada. Boa sorte para vocês.
   — Obrigado — responde Samuel. Ele e Malu continuam caminhando pela praça, observando as pessoas e as lojas ao redor. Diversos hippies expõem suas artes em panos espalhados pelas calçadas e Samuel guia Malu até um deles. — Oi — fala para a moça que está sentada manipulando uns arames.
   — Olá — ela fala com sotaque espanhol, erguendo os olhos para eles. Malu fica impressionada com a intensidade do verde nos olhos dela que brilham com a luz do Sol. 
   — Muito legal suas coisas — elogia Samuel se agachando para olhar melhor as peças.
   — Gracias. Te gusta este tipo de trabalho?
   — Sim — responde o rapaz analisando o que ela faz. Malu continua em pé e coloca seus óculos escuros para olhar melhor ao redor sem interesse na conversa dos dois.
   — Qual es tu signo?
   — Câncer.
   — Estas pedras aqui combinam con su signo — diz a moça indicando alguns colares com pedras amarradas.
   — E quais combinam com leão?
   — Leão — ela busca em sua mente a informação. — Estas aqui — fala apontando para outros colares. — Principalmente esta, que es la pedra âmbar.
   — Muito bonito — elogia Samuel observando a pedra amarelada. — Quanto custa?
   — Quinze reais.
   — Malu — chama o rapaz olhando para cima. — Malu!
A garota vira-se ele.
   — Oi?
   — Pega vinte reais aí na minha carteira.
Malu abre a bolsa e entrega a carteira para ele.
   — Meus pais me ensinaram a não mexer na carteira dos outros.
Samuel e a hippie sorriem.
   — Você já tem intimidade para mexer na minha — ele responde antes de entregar a cédula para a moça. — Pode ficar com o troco.
   — Gracias. 
Samuel sorri e recebe o colar das mãos dela. Ele levanta, entrega a carteira para Malu e a hippie volta a se concentrar nos arames.
   — É para você — fala mostrando o colar para ela.
   — Pra mim?
   — Sim.
Malu sorri e vira de costas para ele.
   — Que meigo.
Samuel coloca o colar nela e beija sua nuca.
   — É a pedra do seu signo.
   — Desde quando você acredita em astrologia? — indaga a morena voltando-se para ele.
   — Não acredito nem duvido. — Eles riem e continuam passeando pela praça. 

Por causa dos raios de Sol que invadem o quarto e queimam sua pele, Bernardo desperta incomodado. Ele passa a mão no rosto, sente a cabeça latejar e solta um gemido.
   — Que merda — reclama ajeitando-se sob o cobertor. Anelise se mexe, virando para o lado do marido na cama.
   —  O nome disso é ressaca — diz Anelise minutos depois. Bernardo olha surpreso para ela, pois não tinha percebido que ela havia acordado.
   — Não tenho mais idade para encher a cara.
   — Não mesmo — ela concorda ainda bastante sonolenta.
   — Minha cabeça está doendo pra caramba.
   — Daqui a pouco passa — resmunga Anelise com a voz abafada pelas cobertas. Bernardo se aproxima ainda mais dela e beija sua testa.
   — Como foi o evento ontem?
   — Mais tarde a gente conversa, amor — diz a jornalista sem abrir os olhos. — Quero continuar dormindo.
Bernardo dá um leve sorriso e assente.
   — Ok. — Ele joga a coberta para o lado e senta na cama. — Vou fazer o café. Estou precisando de uma boa xícara. — Sua esposa não responde e continua adormecida na cama enquanto ele sai do quarto usando apenas uma samba canção.

Yasmin chega na sala de estudos arrastando suas pantufas e carregando uma bandeja com seu café da manhã. Ela senta no sofá ao lado de Vinícius, que lança um olhar para as torradas em uma bandeja.
   — Quer? — ela oferece.
   — É geleia de morango? — ele indaga observando o creme vermelho na torrada.
   — Sim.
   — Eu quero.
A loirinha estica o prato até ele, que pega duas torradas. Mastigando, Vinícius volta a prestar atenção em Isabela, que fala:
   — É importante a gente falar só o que é a nossa parte, porque a nota é individual. Então, se um falar mais que o outro, a nota dele será maior que a dos demais.
   — Viu, Felipe? — retruca Victor.
   — Entendi, gente. Vou falar só a minha parte, pode deixar.
   — Ok, vamos repassar mais uma vez — manda Isabela. Como sua parte é a introdutória, Felipe é o primeiro a falar. Ele discorre por quase cinco minutos até ser interrompido por Victor.
   — Aí já é a minha parte — diz o loiro.
   — Claro que não eu, sou eu.
   — Não, Felipe, é a minha parte — repete Victor.
   — Cara, sou eu.
O namorado de Yasmin respira fundo, pois desde o começo já não estava com muita paciência para ensaiar trabalho em pleno domingo de manhã.
   — Eu vou ter que esfregar na sua cara que sou eu? — fala em seguida e Felipe ri.
   — Não, porque sou eu.
   — Olha aqui, mano — diz Victor virando a tela de seu celular para o amigo. Felipe estreita os olhos e lê no esquema montado por Isabela que a parte que estava falando foi determinada a Victor.
   — Ué, mas no meu arquivo está falando que essa parte é minha — responde entregando seu celular para Victor, que corre os olhos pela tela e olha para a irmã de Vinícius.
   — Isabela? O que está acontecendo?
A falta de empenho do restante do grupo deixou Isabela irritada e ela olha com cara de poucos amigos para o namorado.
   — Qual é essa versão que você tem, Felipe?
   — Esquema três — lê o jovem.
   — Eu mandei a versão quatro no grupo do trabalho. Por que você não viu?
   — Mandou? — surpreende-se o moreno conferindo o grupo no Whatsapp. — Ah, é verdade. Desculpa, gente!
Vinícius limpa os farelos da torrada na calça jeans.
   — Vamos ter mais atenção, né pessoal — fala sorrindo.
   — Foi mal mesmo — diz Felipe e Victor sacode a cabeça rindo.
   — É um mané. — Ele senta ao lado da namorada. — Me dá essa fruta? — indaga apontando para a bandeja.
   — Essa fruta tem nome e é ameixa e não, eu não te dou.
   — Você deu torrada para o Vinícius.
   — Primeiro, torrada não é ameixa. Segundo, você não é o Vinícius. — Mesmo sem consentimento, Victor pega a ameixa da bandeja dela. — Victor!?
   — Quer? É só pegar — ele responde prendendo a fruta entre os dentes. Yasmin fita profundamente os olhos dele e balança a cabeça.
   — Idiota — diz abrindo mão da fruta.
   — Gente, presta atenção aqui — pede Isabela.
   — Eu nem faço parte desse grupo — Yasmin diz.
   — Então o que você está fazendo aqui?
   — Hum, queridinha, essa aqui é minha casa.
   — Mas fica de boca fechada.
   — Sim, senhora. — As duas riem e Vinícius desvia novamente o foco ao perguntar para a loirinha:
   — O seu quarteto já começou a fazer?
   — A Graziele separou o que a gente tem que dizer, o Thiago vai fazer o texto que tem que entregar e eu vou fazer os slides.
   — O de vocês é trio? — surpreende-se Felipe.
   — Éramos quatro, mas a Malu resolveu prolongar a viagem e não voltar para a apresentação.
   — E ela vai ficar sem nota? — questiona Victor.
   — Esse trabalho nem vale nota realmente — Isabela lembra. — É só um conceito para caso você precise de uns pontinhos no final do bimestre.
   — Então por que eu estou fazendo essa merda?
   — Porque provavelmente você vai precisar de pontos — ri Yasmin.
   — A coisa deve estar boa lá em Porto Alegre, né — comenta Felipe. — Pra Malu não querer voltar.
   — Deve mesmo — Yasmin concorda. — Não teria como estar ruim, uma cidade maneira e você sozinha com um boy como o Samuel?
   — O que você quer dizer com "um boy como o Samuel"? — indaga Victor.
   — Ah, quem sabe um dia você saiba?
   — Eu também fiquei curioso — ri Vinícius.
   — Ué, gente, o Samuel tem uma coisa. Vocês não acham?
   — Eu não acho nada — responde Felipe enquanto Isabela apenas ri.
   — Você e o Samuel já se pegaram? — pergunta Victor com curiosidade.
   — Sim — Yasmin responde naturalmente. — Quando a Isabela namorava o Jonas a gente combinou da melhor amiga dela pegar o melhor amigo dele.
Isabela, Felipe e Vinícius se controlam para não gargalhar quando Victor arregala os olhos.
   — É sério?
Yasmin começa a rir e passa a mão pelo cabelo dele.
   — Claro que não, bobão.
   — Gente, vamos voltar para o trabalho — ordena Isabela com autoridade.
   — Sim, senhora — Victor imita a namorada.

Depois de terem caminhado por quase toda a praça, Malu avista uma loja da Subway e fala para Samuel:
   — Vamos parar para comer.
   — Vamos só passar no banco primeiro, preciso sacar dinheiro.
   — A gente não pode comer primeiro?
   — Não é melhor ir logo e depois ficar livre para comer?
Malu dá de ombros.
   — Pode ser. 
   — Então vamos — ele pega na mão dela e eles caminham até uma agência do banco de Samuel que fica ao redor da praça. O rapaz e Malu entram na fila do caixa eletrônico e ela fica observando o colar que ganhou dele após entregar mais uma vez a carteira para ele.
   — É charmosinho.
   — Eu? — brinca Samuel endireitando os óculos com uma das mãos.
   — O colar. 
   — Ah, ele também. — Eles riem.
   — Essa vai ser a pedra que estará na minha aliança?
   — Hã?
   — Você disse que vai me pedir em casamento um dia, lembra? — ela sorri.
   — Eu vou. 
   — Isso significa que você quer casar comigo?
   — Quero. Você quer ser minha esposa?
   — É tudo o que eu mais quero — responde Malu encarando os olhos dele, segurando um riso. — Eu sabia que eu tinha nascido com uma missão. Essa missão é me tornar sua mulher, a senhora Haddad. 
   — Hamid — corrige Samuel e eles riem. Malu aproxima lentamente o rosto do dele. Samuel dá um leve sorriso e quando está prestes a beijá-la, a jovem ergue o rosto e solta ar nos óculos dele, embaçando as lentes. — Idiota! — exclama Samuel tirando o acessório. Nesse instante, um caixa fica desocupado e Malu o arrasta até lá.
   — Me dá seu cartão — ela pede posicionando-se em frente ao caixa.
   — Você não sabe a minha senha mesmo — diz Samuel dando o cartão para ela enquanto continua limpando os óculos.
   — Deve ser alguma data importante. Talvez o dia em que a gente se conheceu? Já que você quer casar comigo um dia — ela gargalha. 
   — Pronto, agora você não vai esquecer isso. — Samuel recoloca os óculos e fica parado atrás dela.
   — Não vou mesmo. — Malu faz as operações básicas e pergunta: — Quantos você quer sacar?
   — Quinhentos reais.
   — Que rico — ela fala digitando os números. Samuel abraça ela por trás e apoia o queixo no ombro dela assim como a morena fez com ele horas antes. — Sua senha — fala momentos depois. O rapaz cobre os olhos de Malu com uma das mãos e com a outra digita o código de segurança. A garota ri e pergunta: — Você acha que eu vou te assaltar?
   — Vai que você zera minha conta e me abandona aqui em Porto Alegre? — ele fala destampando os olhos dela e voltando para a posição anterior.
   — É uma boa ideia — responde Malu massageando distraidamente o braço dele em sua cintura.
Após sacar o dinheiro, Samuel deixa a agência bancária com Malu e segue rumo a Subway. Assim que terminam de comer o casal parte em direção ao Mercado Público de Porto Alegre que fica a poucas quadras da Praça da Alfândega. 

Estando mais consciente de seus atos, Douglas chega ao condomínio e se encontra com Graziele ao lado das quadras de tênis.
   — Oi — fala a jovem ao vê-lo descer de um táxi.
   — Oi, ruiva — responde Douglas caminhando até ela. Eles se abraçam e ela recebe um beijo na bochecha. — Onde está o meu carro?
   — Você não lembra onde deixou?
   — Sim, na frente da casa da Yasmin Borges — ele pronuncia o nome da loirinha da forma com que sai na mídia —, mas esse condomínio é enorme. Eu nunca vim para esse lado.
   — A casa da Yasmin é logo ali. — Graziele aponta para o norte. — Eu preferi combinar com você aqui para ficar mais fácil, não sabia se você ia conseguir explicar para o motorista onde fica a casa dela e as quadras de tênis são referências.
   — Sim, têm placas por todo o lado.
   — Pois é, vamos indo?
   — Vamos.
Os dois caminham lado a lado pelas calçadas até a mansão dos Abrahão-Borges e não trocam uma sequer palavra. Douglas sorri ao visualizar seu carro estacionado exatamente em frente ao portão da mansão.
   — Senti falta do meu carrinho.
   — Está entregue — diz Graziele forçando um sorriso. — Você sabe o caminho até a saída, né? Eu já vou indo.
   — Eu te deixo em casa — prontifica-se Douglas.
   — Não precisa — dispensa ela. — Eu moro aqui perto, dá para ir andando de boas.
   — Eu quero conversar com você.
   — Sobre o quê?
   — Sobre ontem.
   — Não precisa, Douglas.
   — Eu faço questão — ele insiste. Graziele pensa por alguns instantes e assente.
   — Tá bom — fala parando ao lado da porta do passageiro. Douglas destrava o carro e eles entram.
   — Desculpa por ontem — diz o rapaz já a caminho da mansão em que mora Graziele.
   — Tudo bem, que isso não se repita.
   — Eu vou me controlar.
   — Você tem que me prometer que não vai mais fazer isso — retorque a ruiva. — E cumprir.
   — Eu prometo — garante Douglas. — Eu sei que o que eu fiz foi errado.
   — Sim, onde já se viu aparecer na casa dos outros naquele estado? Eu ainda pedi para você não ir.
   — Eu sei, desculpa. É que eu queria muito ver você e o Thiago.
   — Que nos procurasse quando não estivesse drogado — diz Graziele chateada. — Caramba, Douglas!
   — Desculpa — ele repete.
   — Eu me preocupo com você, sabia? — continua Graziele.
O rapaz vira em uma esquina e responde:
   — Não precisa se preocupar.
   — Mas eu me preocupo. O que você está fazendo com a sua vida? Com a sua saúde?
   — Graziele, eu não quero falar sobre isso.
   — Você disse que queria conversar — ela lembra.
   — Não sobre isso. Eu sei muito bem o peso do que faço e estou disposto a lidar com ele no futuro.
   — Eu sei que você sabe, por isso já desisti de tentar fazer você mudar.
   — Então por que está tocando nesse ponto? — ele questiona se aproximando da entrada da casa dela.
   — Porque a partir do momento que você aparece chapado atrás de mim e do Thiago eu tenho o direito de opinar.
   — Isso não vai mais acontecer — diz Douglas parando no portão principal da mansão dos pais de Graziele. — Eu não vou mais procurar você ou o Thiago quando tiver usado alguma coisa.
   — Eu te pedi isso, mas sei que você não pode me garantir. Você perde o controle, Douglas.
   — Não totalmente. Meu corpo já está bastante adaptado, eu preciso usar uma coisa muito forte ou muito mais do que eu costumo usar para ficar completamente fora de mim.
   — Eu tenho medo do que possa te acontecer — confessa Graziele virando-se para ele no banco.
   — Graziele, eu já levo essa vida há muitos anos. Você me conhece a pouco tempo e eu sei que esse meu jeito doido de viver te assusta, mas é o meu jeito.
   — Eu realmente não estou acostumada com isso.
   — Com o tempo você se acostuma. Eu não sou esse louco completo que você imagina. Eu só uso umas coisas pra me divertir.
   — Isso é um vício, Douglas.
   — Pode ser que seja, mas é um vício que não me faz mal. Quer dizer, tirando a minha saúde, não me faz mal. Eu tenho meus negócios, n...
   — Negócios com drogas.
   — Não — Douglas nega com rapidez. — Não e você sabe disso. Eu tenho os meus negócios, o dinheiro que compra as coisas que eu uso é meu, não peço emprestado pra ninguém. Tudo o que eu uso eu compro na hora, não fico devendo nada. Tenho vários imóveis, veículos, moro muito bem... essa é a minha vida, ruiva. Como eu disse, uma hora você se acostuma. Ou você pode se afastar de mim. Você tem duas opções.
   — Eu não vou me afastar de você — responde Graziele. — Eu gosto de você.
   — Eu também gosto de você, por incrível que pareça.
   — Por incrível que pareça? — ela fica tão surpresa que acaba sorrindo.
   — Eu não deveria gostar tanto de uma patricinha novinha e santinha, concorda?
   — E eu nem preciso dizer por que não deveria gostar de você, né?
   — Mas a gente se gosta — simplifica Douglas encarando os olhos dela.
   — Mais do que deveria.
   — Muito mais — ele fala indo para a ponta do banco, de modo a ficar mais perto dela. Os dois ficam se observando em silêncio e sem pensar muito no que está prestes a fazer, Graziele salta de seu banco e senta no colo de Douglas. Imediatamente ele envolve a cintura dela com seus braços tatuados e começa a beijá-la intensamente. Uma das mãos de Graziele segura o cabelo dele e ela se alinha ainda mais ao corpo de Douglas. 
   A atração existente entre eles, que até então parecia estar adormecida, eclode de maneira tão forte que em questão de minutos eles ficam seminus. Eles não trocam nenhuma palavra durante todo o momento, porém seus olhares são tão profundos e cheios de desejo que preenchem o silêncio. 
   Graziele passa a mão no cabelo suado e respira fundo enquanto Douglas fecha o zíper de sua calça jeans minutos depois. A ruiva fecha os olhos, tomando consciência do que acabou de acontecer. O prazer dá lugar ao arrependimento conforme ela vai pensando nas consequências disso. Porém, a aflição em seu peito atenua-se quando Douglas fala:
   — Isso não precisa significar alguma coisa.
   — Como assim? — ela indaga olhando para ele. A pele dele está muito mais corada e seus olhos mesmo sérios transmitem tranquilidade.
   — Você quis isso e eu também. Essa não é a primeira vez que a gente transa, talvez não seja a última e se for, tudo bem também. A gente só transou.
   — Isso não vai mudar em nada as coisas, né?
   — Não vai.
Graziele pega na mão dele.
   — Eu só consigo ser assim com você.
   — Assim como?
   — Desimpedida. Não dar tanta importância para os sentimentos.
   — Eu também só consigo ser assim com você, mas ao contrário. Você é a única mulher por quem eu nutro algum sentimento.
   — Talvez seja por isso que tenha dado certo.
   — Sim. 
Graziele solta a mão dele e olha para a fachada de sua casa. Rapidamente ela volta a encará-lo e questiona:
   — Esses vidros são escuros, né?
Douglas gargalha.
   — Relaxa, ruiva, só eu e você sabemos o que aconteceu aqui.
   — E vai continuar assim?
   — Se depender de mim, sim. E você, não vai contar nem para a sua melhor amiga?
Graziele pensa em Malu e não consegue imaginar não contar para ela.
   — Eu posso contar pelo menos para ela?
   — Pode contar para quem você quiser — Douglas dá de ombros.
   — Para não ser injusta, eu deixo você contar para o seu melhor amigo também — diz lembrando de Fabrício.
   — Meu melhor amigo é o Thiago — responde Douglas. Eles se calam por alguns instantes.
   — Ok, vou ser injusta então — ela sorri preferindo não deixar o clima mais tenso. — Eu posso contar e você não.
Douglas sorri.
   — Nunca pensei que fosse concordar com uma injustiça contra mim, mas dessa vez concordo.
Eles riem e Graziele chega perto dele.
   — Vou indo — fala e dá um beijo curto nos lábios de Douglas. 
   — Tchau, ruiva. Se cuida.
   — Se cuida, digo eu. — Eles dão mais um beijo e Graziele desce do carro.

Ainda somente de samba canção, Bernardo assiste distraidamente um programa de culinária, largado no sofá. Anelise surge na sala com o cabelo bagunçado e sua camisola mais antiga. Ao olhar para sua esposa, Bernardo sorri.
   — Bom dia!
   — Bom dia — responde Anelise rodeando a mesinha de centro para se sentar ao lado dele. — O que você está vendo? — pergunta colocando os pés no sofá.
   — Aquele programa de receitas que eu gosto.
   — Hum. — Ela passa a mão no cabelo, assentando alguns fios rebeldes. — A noite foi boa?
   — Foi muito divertido.
   — É?
   — Sim. E como foi a inauguração da loja que você foi?
   — Uma chatice — conta Anelise. — Aquele tipo de ambiente com gente esnobe que está ali mais para se mostrar do que qualquer coisa, sabe? 
   — Cruz credo.
Anelise arranca uma pelinha de um de seus dedões do pé.
   — Você se lembra de como chegou em casa? — pergunta.
   — Bêbado — ri Bernardo e ela sorri.
   — Estou falando dos detalhes.
   — Não muito, por quê?
   — Do que você lembra? — indaga Anelise.
Bernardo umedece os lábios e esforça sua memória.
   — Lembro de pedir para a Maristela dirigir meu carro, porque estava muito bêbado pra isso. Depois lembro que a gente chegou e ficou enrolando pra subir.
   — Enrolando?
   — É, a gente ficou conversando lá no carro. Depois disso, a gente subiu e eu sentei no sofá. Daí só lembro de acordar de madrugada meio perdido, virar para o lado, te abraçar e dormir de novo.
   — Eu cheguei em casa ontem e te encontrei no sofá — diz Anelise.
   — Ah, então foi você que me levou para cama? — se espanta Bernardo. — Pensei que tivesse ido sozinho.
   — Não, fui eu, mas isso depois de me surpreender com a Maristela na nossa cozinha.
O médico franze a testa.
   — Do que você está falando?
   — Ela estava lá na cozinha tentando preparar um café para você.
   — Sério? — ele ri.
   — Eu não estou brincando, Bernardo — corta Anelise.
   — Desculpa. — Seu esposo para de sorrir imediatamente. — Você ficou brava? — pergunta.
   — Brava não seria a palavra exata, mas eu não gostei.
   — Seria muito ridículo eu perguntar o porquê?
   — Seria. Mas eu vou te responder o porquê. Essa é a nossa casa, só de nós dois. Eu não tenho intimidade nenhuma com a Maristela, não gostei de saber que ela transitou pela nossa casa com total liberdade ontem. Não sei qual nível de intimidade vocês têm — comenta com acidez —, mas essa casa não é só sua. Eu não quero estranhos passeando por aqui.
   — Anelise — Bernardo endireita-se no sofá —, a Maristela só estava tentando me ajudar. 
   — Não me interessa as intenções dela, não é esse o ponto aqui.
   — Eu entendi que o ponto aqui é o fato dela ter tido total liberdade aqui em casa, mas as intenções dela justificam esse ato.
   — Que seja, Bernardo. Então da próxima vez não fique tão bêbado a ponto de não conseguir chegar em casa sozinho.
   — Ok. Entendo suas razões e não vou deixar que isso se repita.
   — Obrigada — responde Anelise levantando do sofá. Ela tenta ir para a cozinha, mas como Bernardo volta a falar, para e o encara.
   — Só não gostei da maneira com que você falou que eu tenho intimidade com a Maristela.
   — Por que não?
   — Parecia que você estava querendo insinuar alguma coisa.
   — Eu não estava querendo insinuar nada — responde Anelise com franqueza. — Se soou como se eu tivesse dando a entender que você me traiu com a Maristela, não foi a minha intenção. Eu sei que você não faria uma coisa dessas comigo. E caso você viesse a fazer, acredito que teria pelo menos a capacidade de me contar.
   — Eu jamais te trairia — diz Bernardo. — Nem com a Maristela, nem com ninguém.
   — Eu não estou com ciúmes de você com ela. Eu confio em você.
   — Você pode confiar.
   — Que ótimo então. — Anelise dá meia volta e vai para a cozinha.
Bernardo fecha os olhos e suspira, sentindo sua cabeça doer ainda mais.

Entre muitas gargalhadas, Malu e Samuel conhecem o Mercado Público da capital gaúcha. Os dois escolhem sorvetes após degustarem queijos.
   — Eu vou querer de pistache — diz Malu à atendente.
   — Eu quero um de baunilha — Samuel fala. 
Eles caminham com suas casquinhas pelo espaço, encantados com a variedade de produtos, aromas e cores. 
   — Olha isso! — exclama Malu parando em uma banca de panos de prato feitos à mão.
   — Legal — comenta Samuel sem muito interesse nas peças.
   — Eu vou levar uns para a minha mãe só de sacanagem.
   — Você está falando sério? — ele ri.
   — Estou. Moça, você me vê quinze desses panos — diz a morena. — Pode escolher as estampas, só não quero repetido.
Samuel continua rindo.
   — Se eu fosse a Nathália ia te enfocar com esses panos.
   — Aposto que essa será a vontade dela quando eu mostrar o presente de Porto Alegre que estou levando para ela — ri Malu.

Quando terminam de ensaiar o trabalho, os jovens se espalham pela sala de estudos. Felipe, que mexe em seu celular deitado no tapete, pergunta:
   — Vocês viram a última foto que o Brian postou?
   — Eu não fico stalkeando o Brian — responde Victor.
   — Deveria — Yasmin fala só para provocá-lo e Isabela ri.
   — Ele postou uma foto com a irmã dele. Não sabia que ela era tão bonita assim não.
   — Ficou interessado, Felipe? — brinca Vinícius.
   — Não, né, bobão — responde o moreno e olha para Isabela. — Só fiquei surpreso mesmo.
   — Ela realmente é bem bonita — opina Victor.
   — Deve ter puxado ao irmão — fala Yasmin.
   — Não quer criar um fã clube para o Brian, não? — pergunta o loiro.
   — Ué, vocês podem achar a irmã dele bonita e eu não posso achá-lo bonito?
   — Porque ela não tem contato nenhum com a gente, já o Brian é bem próximo.
   — E quem me garante que você já não ficou com ela?
   — Eu — responde Victor. — Quando eu quis, ela me deu um fora.
   — Olha aí! — exclama Yasmin. — Você já tentou ficar com ela.
   — Já, mas há muito tempo atrás.
   — Hum, sei — fala Yasmin em tom de desconfiança.
Vinícius estica o pescoço tentando enxergar a foto de Brian.
   — Deixa eu ver a irmã dele.
O moreno vira a tela do celular para o amigo, que se surpreende.
   — Nossa, ela é bem bonita mesmo.
   — Estou te dizendo.
   — Quando a Marina te trocar pelo Brian, Vinícius — começa Victor em tom de provocação —, você pode pegar a irmã dele para se vingar.
   — A Marina não vai me trocar pelo Brian — retorque Vinícius. — E eu jamais faria uma coisa dessas.
   — Mas fica a dica — ri o loiro.
Isabela balança a cabeça.
   — Você é muito idiota.

Com algumas sacolas de compras, Malu entra com Samuel no rústico restaurante Gambrinus, que fica no próprio Mercado Público e é referência na cidade. Eles escolhem uma mesa e analisam o cardápio trazido pelo garçom.
   — Nós vamos querer de entrada uma porção de bolinhos de bacalhau e de prato principal um linguado grelhado com salada de batatas com bacalhau — diz Malu.
   — E para beber? — pergunta o garçom.
   — Vou querer uma H2O de limão — Samuel fala e olha para a garota —, e você?
   — Um suco de laranja.
   — Ok. Com licença — pede o rapaz afastando-se com os cardápios.
   — Estou cansada de tanto andar — fala Malu.
   — Eu também, mas andaria muito mais. Estou adorando conhecer Porto Alegre.
   — É, eu também. Vamos ter boas recordações quando voltarmos para o Rio.
   — Com certeza. Essas recordações vão ficar melhores ainda se eu conseguir passar no vestibular — ri o jovem.
   — Você vai — responde Malu com positividade. — Aí você vai ter bastante tempo para conhecer Porto Alegre.
   — É verdade — concorda Samuel. Malu tira um elástico da bolsa e enquanto prende o cabelo acompanha ele falar: — Na verdade, eu queria passar mais alguns dias aqui.
   — Eu também.
   — Vamos? — ele propõe e a jovem ri.
   — Meus pais são loucos, mas nem tanto. Nós já prolongamos a viagem em um dia, eles não vão gostar se eu adiar o retorno ainda mais.
   — Você tem razão. É que — ele suspira — eu não quero voltar para o Rio, ter que lidar com o Elias em coma, entende? Só que ao mesmo tempo eu me sinto culpado por estar aqui me divertindo e a minha mãe estar lá preocupada com ele.
   — Ela está passando esses dias da viagem no apartamento da sua avó, não está?
   — Sim! Eu jamais deixaria que ela ficasse sozinha lá em casa.
   — Pois então, ela está bem. Pelo o que você me fala, a sua avó é uma pessoa mente aberta, animada. Aposto que ela está lembrando dos mil e um defeitos do Elias para não deixar a sua mãe tão triste com o estado dele.
Samuel sorri.
   — Isso é bem a cara da minha avó.
   — Não fica encanado com isso — pede a jovem. — Vamos curtir nosso último dia aqui. 

Já usando um casaco pesado de pelo sintético, Marina acompanha o avião voar por cima da costa leste dos Estados Unidos, cada vez mais próximo do aeroporto John F. Kennedy. Seus olhos brilham ao enxergarem a faixa de terra abaixo pertencente a Long Beach. 
   — Estou de volta — fala a jovem com o nariz encostado na janela. Ela sorri e uma lágrima escorre por sua bochecha. — I'm back.
   Pouco tempo depois, seis horas da tarde no horário local, Marina está descendo do avião juntamente com os outros passageiros da classe executiva. Por causa do tipo de passagem, eles têm preferência para deixar a aeronave e, consequentemente, na fila da imigração. 
   Mesmo com toda a papelada necessária em mãos, Marina fica nervosa e com medo de ser barrada. Após uma breve conversa com o agente e apresentar documentos como seu green card, o passaporte, a autorização para viajar desacompanhada e a procuração de guarda provisória em nome dos pais de Brian, Marina é liberada. Ela também não teve dificuldades para pegar suas bagagens e segue com as duas malas para a saída do espaço de desembarque. 
   Seu coração fica ainda mais acelerado ao passar pelas portas de correr e visualizar vários rostos desconhecidos, que expressam ansiedade e felicidade com a chegada dos passageiros. Um enorme sorriso e lágrimas surgem instantaneamente em seu rosto ao visualizar Brian, sua irmã Juliana, seus pais James e Claire e sua melhor amiga Aria. Ela praticamente corre até eles e se joga nos braços de Brian, sentindo diversos braços rodearem os dois.
   — Welcome back, Marina — sorri Claire no abraço coletivo.
   — Eu senti tanta falta de vocês — diz Marina voltando a falar em inglês. — É tão bom estar de volta.
   — É tão bom te ter de volta — fala Aria abraçando individualmente ela. 
   — Você está tão bonita — elogia Juliana.
   — Olha quem fala! — ri Marina. — Até o Victor comentou de você, sabia? — conta sem saber que sua ex-cunhada continua sendo pauta entre seus amigos no Brasil.
   — Uau! E por que ele não veio com você?
Marina dá de ombros.
   — Preferiu deixar para depois — esquiva-se.
   — O importante é que você chegou e chegou bem — fala James pegando nas mãos dela. — O seu quarto já está pronto lá em casa.
   — Você vai conhecer nossa nova casa — sorri Brian. — Você vai gostar.
   — Então vamos? — Marina fala. — Estou ansiosa para ver Manhattan novamente. 
   — Não mudou nada — ri Aria.
   — Para mim mudou tudo — Marina responde. — Eu mudei muito desde que saí daqui.
   — Mas continua sendo a Marina que a gente ama — fala Brian passando um braço pelos ombros dela. — Deixa que eu levo pra você — diz pegando uma das malas dela.
   — Eu levo a outra — fala Juliana. 
No caminho para o carro, Marina sofre com a mudança brusca de temperatura. Seus olhos ardem por causa do vento forte e suas bochechas e nariz ficam vermelhos.
   — No Rio estava trinta graus — conta ainda abraçada com Brian. 
   — Só isso? — espanta-se James.
   — É — responde Marina e em seguida gargalha, dando-se conta do que disse. — Quer dizer, trinta graus celsius.
   — Lá a temperatura é em celsius — explica Brian abrindo a porta do carro. — Eu lembro que estranhava andar na rua e ver trinta graus e estar suando ao mesmo tempo. 
Eles riem e se acomodam no veículo enquanto James e Claire colocam as bagagens de Marina no porta-malas.
   — Quantos é em fahrenheit? — pergunta Juliana.
   — Deve ser uns oitenta e pouco — Marina faz uma aproximação. 
   — Uau! Ir de oitenta e pouco para quarenta em menos de dez horas é complicado.
   — Muito! — ri Marina. 
   — Quarenta seria quantos graus no Brasil? — Aria questiona e após conferir no celular, Brian diz:
   — Quatro graus.
   — Caramba! — Eles voltam a rir e Marina encosta o nariz gelado na bochecha de Brian.
   — Eu estou de volta! — ela exclama sem conseguir acreditar no que diz.
   — Sim, você está aqui de novo — ele responde com a mesma animação que ela.
James e Claire entram no carro e ele fala:
   — Tudo pronto?
   — Tudo pronto? — Brian repete a pergunta para a ex-namorada.
   — Tudo mais que pronto — responde Marina e James dá partida no carro. 

O relógio está marcando cinco e meia quando Malu senta na cama com o notebook de Samuel em seu colo e o Skype aberto em uma chamada de vídeo com Graziele. A ruiva encontra-se na casa de Isabela e as duas conversam com Malu na sala de jogos.
   — Ela veio até aqui e disse que só iria contar quando você estivesse ouvindo — fala Isabela.
   — É claro — responde Graziele —, assim eu não tenho que contar a mesma história duas vezes e vocês já opinam de uma vez só.
Na região Sul do país, Malu indaga:
   — E o que é que você tem para contar?
   — Hoje aconteceu uma coisa... diferente.
   — Diferente bom ou ruim?
Graziele hesita.
   — Depende do ponto de vista.
   — Como assim? — questiona Isabela ao seu lado.
   — Eu prefiro analisar como algo bom, mas pode ser interpretado como algo ruim também.
   — Conta logo — pede a irmã de Vinícius cheia de curiosidade.
   — Espera aí — diz Malu. — O Samuel acabou de sair do banho, ele pode ouvir? Senão eu desço e converso com vocês lá embaixo.
   — Pode ficar aí — fala o rapaz indo até sua mala com uma toalha presa na cintura. — Eu me visto rapidão e desço.
No Rio, Graziele recorda-se de que Douglas disse que ela poderia contar para quem ela quisesse e não enxerga problemas em Samuel saber também.
   — Ele pode ouvir — responde. 
   — Ok, então conta — Malu pede.
   — Eu transei com o Douglas hoje.
   O QUÊ? — questionam Isabela e Malu ao mesmo tempo.
   — Aconteceu — Graziele dá de ombros.
   — Como assim aconteceu? Do nada? — pergunta Malu.
   — Eu nem sabia que vocês estavam se vendo — comenta Isabela.
   — Nós não estávamos — Graziele responde e conta o que se passou no dia anterior.
   — Falando em aniversário do Felipe — fala Malu olhando para a imagem de Isabela —, diz para ele responder minha mensagem de parabéns, tá?
   — Ele deve ter esquecido — ri a garota.
   — Ano que vem não mando mais — brinca Malu e Graziele fala:
   — Gente, vamos voltar para a minha história, por favor.
   — Continua — diz Isabela.
   — Hoje quando ele veio buscar o carro, a gente ficou conversando por um tempo e rolou.
   — Rolou a rola? — brinca Malu, porém a ruiva não ouve pois ao seu lado Isabela indaga:
   — Aonde foi?
   — No carro dele.
   — A gente tem que transar no minicooper antes de devolver — ri Samuel sentando na cama já vestido.
   — Você não acha muito pequeno? — questiona Malu iniciando uma conversa paralela.
   — Acho, mas pode ser uma experiência interessante.
   — Ou não. 
   — Gente, foco! — exige Graziele e Malu volta a encarar a tela do notebook. Samuel chega mais perto dela e acena para as outras duas jovens.
   — Oi, meninas!
   — Oi, Samuel — elas respondem.
   — Eu achei maravilhoso — opina Malu retomando o assunto principal. — O Douglas parece ser bem desencanado, então você pode aproveitar daquele corpinho tatuado sem medo de causar transtornos sentimentais maiores.
   — Mas tem sentimento no meio, não tem? — pergunta Isabela.
   — Tem, só que eu acho que é só de amizade.
   — Amigos que são realmente amigos não fazendo sexo.
   — Você começou a fazer com o seu amigo — observa Malu.
   — Depois que a gente começou a namorar. A Graziele e o Douglas não parecem que vão ter esse tipo de relacionamento.
   — Não mesmo — diz a ruiva. 
   — Eu posso opinar? — questiona Samuel e Graziele autoriza com a cabeça. — Pelo o que eu entendi vocês são amigos que se pegam de vez em quando. Se não estão acontecendo dramas sentimentais, qual é o problema?
   — Esse amigo em questão é também amigo do Thiago — simplifica Malu. 
   — Eita! E ele te conheceu já sendo namorada do Thiago ou não, Graziele?
   — Eu e o Thiago não namorávamos, mas já estávamos de rolinho.
   — Nossa, pegar ex de amigo é meio complicado, né?
   — Cala a boca, você ficou com a Maísa — lembra Malu.
   — Foram situações completamente diferentes e eu já admiti que foi um erro. 
   — Realmente foram situações bem diferentes — analisa Isabela.
   — Sem contar que a Graziele não é totalmente ex do Thiago, né? — continua Samuel.
   — Como assim? — questiona a ruiva.
   — Ah, todo mundo vê que ainda rola um negócio entre vocês — comenta o rapaz e Graziele se esforça para não ficar vermelha.
   — Então — fala Malu vendo que a amiga ficou incomodada —, eu não vejo problema algum no que aconteceu.
   — É que eu não gosto de estar nessa posição — fala Graziele.
   — Que posição?
   — Eu ainda sinto algo pelo Thiago — confessa a ruiva confirmando o comentário de Samuel — e parece errado eu me sentir atraída pelo amigo dele.
   — É muito complexo — diz Isabela não conseguindo opinar.
   — Grazi, entende uma coisa — fala Malu com a voz suave —, você não está mais com o Thiago. Eu sou amiga de vocês dois e mais do que ninguém sei dos sentimentos envolvidos nessa história toda, mas a realidade é que vocês não estão juntos mais. Por enquanto, né? Porque eu tenho fé em Deus que no futuro vocês vão voltar — ri, mas logo recobra o ar de conselheira. — Mas enfim, não fica se sentindo mal por estar se divertindo com o Douglas. Ele está te fazendo bem e é isso o que importa. Não fica remoendo o passado nem pensando no futuro, viva o presente.
   Graziele se joga na cama de Isabela minutos depois de se despedir de Malu e Samuel. A herdeira de Chay e Mel fecha a porta de seu quarto segurando Nina no colo.
   — Está mais tranquila? — pergunta sentando na cama.
   — Estou — a ruiva responde. — Eu já sofri muito com essa história. Não vou me arrepender de uma coisa que foi tão boa.

Os últimos raios de Sol são refletidos no Rio Harlem e Marina não consegue desviar o olhar da paisagem. Quando o veículo sai da ponte e entra em uma grande rotatória, Brian aproxima a boca do ouvido dela e diz:
   — Agora estamos oficialmente em Manhattan. Bem vinda de volta.
Marina olha para ele e sorri mais uma vez.
   — Eu sabia que ficaria feliz, mas não tão feliz como estou.
Eles sorriem um para o outro e Claire pergunta do banco da frente:
   — Você quer parar em algum lugar para comer, Marina?
   — Tem um restaurante italiano lá perto de casa que é uma delícia — sugere Juliana e seu irmão concorda.
   — É verdade.
   — Na realidade tudo o que eu quero agora é o bom e velho hambúrguer — diz Marina.
   — Então vamos para uma hamburgueria — responde Claire.
   — Vamos na Bareburger? — pede Juliana. — Lá tem uns hambúrguer orgânicos que são uma delícia.
   — Pode ser — diz Claire. — Você sabe onde fica, amor?
   — É aquela umas quatro quadras de casa, não é?
   — Isso.
James altera o destino no GPS e cerca de vinte minutos depois, eles estão estacionando em frente a uma padaria do outro lado da avenida em que fica a hamburgueria. Todos descem e Marina estremece.
   — Caramba, está muito frio — comenta com Aria.
   — Desacostumou, amiga? — ri a jovem.
   — É que eu estou com pouco casaco eu acho.
   — Quer pegar mais um casaco na sua mala? — pergunta Brian parando ao lado delas.
   — Eu quero — responde Marina.
   — Pai! — Brian chama James, que já está quase na faixa de pedestres para atravessar a rua com Claire e Juliana. — Joga a chave do carro.
   — Por quê? — pergunta James.
   — Vou pegar um casaco para a Marina. — James atende ao pedido do filho e Brian abre o porta-malas.
   — Ainda bem que eu deixei alguns casacos em fácil acesso — anima-se Marina atravessando a rua com o ex-namorado e a amiga instantes depois. Os três passam pela porta de correr com detalhes em amarelo e se juntam a família de Brian em uma mesa. 
   Assim que fazem os pedidos, Marina fala:
   — Vou ao banheiro.
   — Eu vou com você — diz Aria também ficando em pé. As duas cruzam o restaurante que é todo revestido em madeira e entram no banheiro.
   — Não consigo mais comer sem lavar as mãos — sorri Marina passando sabão entre os dedos.
   — Brasil está te transformando mesmo — brinca a líder de torcida e elas riem. — É tão bom te ter de volta — fala Aria após usar os sanitários. — Mesmo que seja por pouco tempo.
   — É maravilhoso estar de volta — fala Marina. — Estou sentindo uma alegria que poucas vezes senti.
   — E como foi se despedir do pessoal? — indaga Aria. — Você disse ontem que ia deixar para contar pessoalmente.
   — É — fala Marina se recordando das mensagens que trocou com a amiga. — Foi fácil, né? Agora foi fácil, porque eu vou passar poucos dias.
   — Da próxima vez que será mais difícil — conclui Aria e Marina assente.
   — Exatamente.
   — Como vai as coisas com o Vinícius?
Ao ouvir o nome do namorado, Marina sente um aperto no peito que vai de encontro com a felicidade que ela sente.
   — Ainda estamos distantes.
   — Mas vai ficar tudo bem. Tenho certeza que essa semana que você vai passar aqui vai ser importante para vocês. Quando você voltar, ele nem vai se lembrar das coisas que você fez.
Marina sorri.
   — Queria que fosse assim. Vamos voltar?
   — Vamos, mas nós ainda temos muito papo para colocar em dia — fala Aria passando o braço pelo de Marina. — Nem acredito que vamos poder fofocar pessoalmente! 
   — Eu quero curtir intensamente cada minuto dessa semana aqui. —  As amigas sorriem e deixam o banheiro.