sexta-feira, 17 de novembro de 2017

Imagine ChaMel 4ª Temporada (Filhos) - Capítulo 368: Marina recobra trauma

A cama de Isabela está cheia de caixas e embalagens de diversas marcas que enviaram produtos para ela. Desde que subiu para o seu quarto após o almoço, ela analisa cada item com minuciosidade, tanto que não repara quando Vinícius passa pela porta entreaberta.
   — Preciso desabafar com alguém — ele fala parando ao pé da cama. Isabela olha espantada para ele e tira mechas do longo cabelo castanho de seu rosto.
   — Nem vi você entrando. O que foi?
   — Tem algum espaço para eu sentar? — indaga o jovem observando a cama dela.
   — Empurra umas coisas aí.
Vinícius empilha três caixas enormes de sapato e se senta no espaço anteriormente ocupado por elas.
   — Eu tive um sonho horrível com a Marina.
   — Horrível tipo como? — questiona Isabela olhando intensamente para o irmão.
   — Eu sonhei que via ela e o Brian se beijando.
   — Ah tá! — responde a garota em tom de alívio.
   — Por quê? — indaga Vinícius estranhando a reação dela.
   — É que eu pensei que tivesse sido um sonho tipo aqueles.
Vinícius desvia o olhar.
   — Não.
   — Tem certeza, né? — insiste Isabela e seu irmão a encara.
   — Como assim, Isa?
   — Foi só um sonho?
Vinícius reflete sobre a pergunta da irmã.
   — Eu acho que foi, mas agora com você falando assim eu fiquei em dúvida.
   — Ah, não! — exclama a jovem. — Eu só fiz uma pergunta mesmo, não era para você ficar em dúvida sobre isso.
   — Mas e se não tiver sido só um sonho, Isabela?
   — Vinícius — ela fala em tom de alerta. — Não fica pensando em caraminholas. Você sente a diferença de quando não é um sonho normal, não fica encanado só porque eu te fiz um questionamento.
O rapaz assente.
   — Ok.
   — Vinícius, eu estou falando sério.
   — Ok, Isabela — repete ele.

Com uma sacola de farmácia, Anelise passa pela porta de seu apartamento e encontra Bernardo deitado no sofá com uma coberta.
   — A febre voltou? — indaga, pois enquanto Bernardo está coberto ela está suando dentro de sua roupa.
   — Sim — ele responde com a voz rouca.
   — Eu comprei o remédio que você pediu. Você vai tomar um comprimido agora? — Bernardo confirma com a cabeça e indica que vai levantar, porém Anelise diz: — Fica aí, eu vou pegar um copo de água para você. — Ela deixa a sacola sobre a mesa de centro e vai para a cozinha. — Você fez o almoço, Bernardo? — comenta retornando com a água.
   — Fiz — ele responde sentando no sofá.
   — Nesse estado? — Anelise senta ao lado dele e passa a mão por seu cabelo.
   — Estava tentando não me entregar a dor, mas não consegui. 
A jornalista dá um leve sorriso e beija o canto da boca dele. 
   — Você é um amorzinho, sabia?
   — Sabia — responde Bernardo baixinho e eles sorriem. 

A noite cai e nos Estados Unidos, Brian, Marina e a irmã dele vão a um jogo de futebol entre duas escolas de Nova York. 
   — A gente tem um amistoso contra um dos times semana que vem — comenta Brian subindo os degraus da arquibancada.
    — Queria estar aqui no campeonato entre os colégios — diz Marina recebendo olhares surpresos de alguns conhecidos que não sabiam da visita dela.
   — É só você comprar uma passagem e vir — responde Juliana.
   — Não dá ideia que eu venho mesmo. — Os três sentam em cadeiras junto com o restante do time de futebol americano do colégio de Brian e Juliana, algumas líderes de torcida e amigos. 
   — E traz o Victor, tá? 
   — Como assim? — gargalha Marina pegando batatas fritas de Aria. — Pensei que você estivesse com uma menina.
   — Não é nesse sentido que você pensou — ri Juliana. — Eu estava falando da parceria que o Victor tem mesmo.
   — Ah, entendi!
   — Marina!
A própria adolescente, Brian, Juliana, Aria e mais alguns amigos do grupo giram a cabeça para o corredor da arquibancada, vendo uma loira voluptuosa sorrindo para a gêmea de Victor.
   — Oi, Jane — sorri a morena levantando e indo até ela.
   — Eu não sabia que você estava aqui em NY! — exclama a loira chamada Jane antes de abraçá-la.
   — Não está vendo os meus stories no Instagram? — brinca Marina.
   — Confesso que eu estou por fora. — As duas riem. — Onde você está morando?
   — Ah, eu não voltei a morar aqui, não — responde Marina em tom de lamentação. — Eu só vim passar uma semana com o Brian mesmo.
Jane olha para o quarterback por cima do ombro de Marina.
   — Vocês voltaram a namorar? A última vez que eu acompanhei sua vida no Instagram você estava namorando um menino de cabelo cacheado — ri Jane.
Quando sua colega faz referência a Vinícius, Marina sorri inconscientemente.
   — Eu ainda estou namorando esse menino. 
   — Ah, que pena! Adorava você com o Brian.
Marina ri.
   — Isso é passado. 
   — Adorei te encontrar, Mari. Espero te ver mais vezes aqui por Manhattan.
   — Também gostei de te ver, Jane. — Elas se abraçam novamente e Marina retorna para perto dos amigos.
   — As pessoas sentem a sua falta aqui, Marina — comenta Brian passando um braço pelas costas dela. — Eu sinto a sua falta aqui.
   — Para de falar isso, senão eu não vou embarcar no sábado.
   — Seria meu sonho? — Eles gargalham.

   — Se cuidem vocês dois, entenderam? — diz Mel parando o carro no estacionamento do aeroporto Santos Dumont. 
   — A gente vai hoje e volta amanhã, mãe — responde Vinícius. — Não vamos ficar nem vinte e quatro horas lá em São Paulo.
   — Uma hora já é tempo o suficiente para fazer besteira.
   — Eu vou fazer a prova da Cásper Líbero e o Vinícius só vai me acompanhar, mãe — fala Isabela. — A gente não vai fazer besteira.
   — Assim espero. Agora vão logo senão vocês vão perder o voo.
   — A senhora não vai descer com a gente? — pergunta Vinícius abrindo a porta do carro.
   — Não, meu amor, mesmo sendo a noite pode ser que tenha algum fotógrafo ou mesmo algum fã para fotografar nós três. Não quero tumultuar o embarque de vocês.
   — Tá bom.
   — Mas vocês querem um mapinha para chegar até lá? — provoca Mel e Isabela força uma risada.
   — Nossa, que engraçada a senhora está hoje — ironiza saindo do carro. 
   — Se cuidem, meus amores. Qualquer coisa me liguem, eu alugo um jatinho e vou para São Paulo a hora que vocês precisarem.
   — Mãe, para de drama — ri Vinícius pegando sua mala de mão e a de Isabela no bagageiro. Eles se despedem da mãe e caminham para o interior do aeroporto. 

Depois da derrota do time que Brian enfrentará, ele, Marina e seus amigos vão até uma conveniência próximo ao colégio em que ocorreu o jogo no carro de alguns amigos.
   — Quem vai lá descer para pegar bebidas pra gente? — pergunta Brian.
   — Quem tem idade para comprar, né — responde Juliana no banco da frente. — Desce lá, Steven.
   — Me dá dinheiro, né — responde Steven, irmão de um dos integrantes da equipe de Brian.
   — Vai, vamos passar o boné aí — ri Marina tirando o acessório da cabeça de Brian e colocando alguns dólares dentro dele.
   — Desde aí, gente — pede Steven para Brian e Marina.
   — Por quê? — indaga o loiro.
   — Como eu vou descer aqui do lado da rua, cara?
Brian ri e abre a porta do carro de Aria. Na calçada, ele estica a mão para Marina e ajuda ela a sair do veículo.
   — Vamos descer todo mundo — fala Aria de dentro do automóvel. Ela fica aguardando o fluxo de veículos na rua diminuir para descer, tempo suficiente de Steven entrar na conveniência e dois carros de amigos deles pararem atrás do dela. Durante todo o período, Brian e Marina permaneceram abraçados na calçada.
   — Eu estou com muito frio — ela comenta sentindo seus pelos arrepiados sob os vários casacos.
   — Você colocou a blusa térmica? — pergunta Brian.
   — Óbvio, mas não parece o suficiente. 
Juliana, que foi conversar com algumas pessoas dos outros carros, chega perto deles ao mesmo tempo que Aria. Brian solta Marina, que se aproxima de sua melhor amiga.
   — Será que me desacostumei do frio? — indaga sorrindo.
   — Não sei, mas eu que não saí daqui estou congelando — ri Aria. — Estou louca para ir para a casa do Peter.
Marina arregala os olhos.
   — Você vai dormir na casa dele?
   — Claro que não — ri Aria. — Nós todos vamos para a casa dele depois que o Steven comprar as bebidas. 
   — É? Pensei que a gente fosse para a sua casa.
   — Não, meus pais anteciparam a volta da viagem, uma hora dessas eles já devem estar em casa.
   — Ah, entendi. Vamos esperar lá dentro do carro? Estou com muito frio de verdade.
   — Vamos — responde Aria e as duas retornam para dentro do veículo. Elas ficam conversando sobre alguns aspectos do tempo do namoro de Marina e Vinícius e não se dão conta da aproximação de dois caras. Eles, visivelmente bêbados, batem nas janelas tanto do motorista quanto do banco de trás, pronunciando algumas palavras emboladas e sorrindo de maneira maliciosa. Aria estica o dedo do meio para eles e fala:
   — Que vocês sejam atropelados, seus animais! 
O que está na janela de Marina tenta abrir a porta e ela solta um grito de pavor, se arrastando para o banco do meio. 
   — Vão embora! — grita Aria embora eles não possam ouvir por causa do vidro espesso. Ela liga o carro e começa a buzinar. O barulho chama a atenção dos amigos delas na calçada, que percebem os caras incomodando as duas e passam a insultá-los. Os dois homens continuam rindo e um puxa o outro para longe do carro. Nesse instante, um motoqueiro quase atropela os dois e também buzina. Aos tropeços eles se afastam do veículo de Aria, que para de buzinar. Ela olha para trás por entre os bancos e encontra Marina encolhida no banco de trás.
   — Você está bem?
Marina sacode a cabeça e começa a chorar.
   — Ei, Mari, passou — fala Aria passando entre os bancos para se juntar à amiga. — Foi assustador, mas não precisa ficar assim.
   — Eu pensei que ele fosse entrar no carro — diz Marina escondendo o rosto no casaco da amiga. 
   — Na hora que eles bateram no vidro eu já travei as portas.
   — Eu fiquei com tanto medo!
   — Eles são uns babacas. Não precisa ficar assim, já passou.
   — Lembrei do que aconteceu no banheiro do meu colégio no Rio.
Aria recorda-se do relato de Marina sobre a vez em que ela foi assediada sexualmente no banheiro do Otávio Mendes. Nesse instante ela toma consciência do por que a amiga ficou tão abalada com o ocorrido.
   — Você está rodeada de amigos, não ia acontecer aquilo de novo.
   — Eu sei, mas é difícil controlar. 
   — Tudo bem. Você quer que eu chame o Brian?
   — Não precisa — responde Marina enxugando as lágrimas. — Eu já estou bem. 
   — Tem certeza?
   — Absoluta.
Aria segura nas mãos da amiga com força.
   — Você está segura, Marina.
   — Eu sei — responde a morena respirando fundo. — Passou, foi só a adrenalina da hora mesmo.
   — Posso voltar para o meu banco?
   — Pode — sorri Marina.
Instantes depois, Steven retorna com as bebidas e os três carros seguem para a casa de Peter. Aos poucos e com a ajuda dos amigos, Marina vai ficando tranquila novamente e aproveita o final da noite com todos eles.

Na manhã seguinte, Isabela acorda logo cedo e se arruma para o vestibular da faculdade Cásper Líbero. Vinícius continua dormindo na cama que eles dividiram, despertando apenas por alguns segundos para desejar sorte à irmã. Minutos depois, após tomar o café da manhã, Isabela chama um carro por um aplicativo e vai para o local da prova. 
   Cerca de cinco horas depois, ela retorna com um sorriso no rosto.
   — Como foi? — pergunta Vinícius já acordado.
   — Foi mais fácil do que eu esperava — sorri Isabela se jogando na cama. — Eu acho que eu me preparei tanto, mas tanto que não senti o choque da prova, sabe?
   — Ai, que bom, Isa! Então, partiu São Paulo ano que vem?
   — Vamos com calma — ela ri. — Ainda estou pesando as outras opções.
   — Ok, vamos com calma então — sorri Vinícius.

É noite de sexta-feira quando Victor faz uma chamada de vídeo com Marina pelo Skype.
   — E aí, maninho, como vão as coisas por aí? — pergunta a jovem deitada na cama de Juliana.
   — Você pode falar em português, se quiser — ri Victor e só então Marina se dá conta de que continuou falando em inglês.
   — Ou você pode matar a saudade do nosso idioma — fala sorrindo.
   — E aí, Victor! — exclama Juliana. Ela saiu do banheiro e está usando apenas um roupão e uma toalha amarrada no cabelo.
   — Juliana, como você me aparece assim na minha frente? — indaga o loiro passando a falar em inglês.
   — Gostou do meu visual? — provoca a ex-cunhada de Marina.
   — Mais do que deveria — brinca Victor.
   — Deixa a sua namorada ouvir isso. Qual é o nome dela? — Juliana pergunta para Marina.
   — Yasmin.
   — Deixa a Yasmin ouvir isso — corrige Juliana.
   — Ela sabe que eu brinco, mas só tenho olhos para ela — responde Victor do outro lado da tela.
   — Olha! Quem te viu, quem te vê, senhor Aguiar.
   — Algumas mudanças são boas, né? Aliás, fiquei sabendo que a senhorita mudou um pouco suas preferências.
   — Não mudei nada, só expandi o cardápio.
   — Opa! — Eles gargalham.
   — Deixa eu me vestir. Tchau, Victor!
   — Tchau, Ju!
   — Estamos te esperando aqui também, hein?
   — Pode deixar.
Juliana sorri e se tranca em seu closet. 
   — E aí — diz Marina em português —, a prova do ITA acabou hoje, né?
   — Sim — responde Victor ficando sério.
   — E como foi?
   — Punk, né?
   — Como você acha que se saiu?
   — Não fui tão ruim quanto imaginei, mas também não fui tão bom quanto gostaria.
   — Entendo perfeitamente — responde Marina pensando em seu desempenho no ENEM. 
   — O jeito é esperar, né?
   — Sim. E o que a Isa foi fazer em São Paulo? Eu vi no Instagram dela e não entendi nada.
   — Ah, ela só foi fazer uma prova de uma faculdade. Voltou ontem a tarde. O Vinícius foi com ela, inclusive.
   — Entendi.
   — É depois de amanhã, hein? — sorri Victor adotando uma postura mais leve e Marina sorri.
   — Sim, dezessete — ela responde pensando no aniversário dos dois.
   — Com cabeça de vinte e cinco.
   — Essa é a vontade, né? — ri Marina. — Minhas malas já está prontas.
   — Estão prontas — Victor corrige. — Bastou uns dias sem treinar o português que já desaprendeu, maninha? — Eles riem.
   — Acho que sim. Deve ser o frio nova iorquino que congelou meu cérebro, quando eu pousar no calor do Rio e o gelo derreter volto a falar certo.
   — Entendi — ri Victor. — Estamos todos ansiosos pela sua volta.
   — Sentiram minha falta?
   — Sim, bastante.
   — Todos vocês?
   — Pergunta logo do Vinícius — ri Victor.
   — Você que está falando dele.
   — Ah tá — ele responde com descrença. — Tenho certeza que quando você voltar, vocês vão se acertar.
   — É tudo o que eu mais quero.
   — Isso se você não aprontar nada aí, né?
   — Eu não aprontei nada.
   — Mas você só embarca amanhã de manhã — observa Victor , ainda dá tempo de fazer algumas merdas.

quinta-feira, 2 de novembro de 2017

Imagine ChaMel 4ª Temporada (Filhos) - Capítulo 367: Mel encontra objeto do passado


   — Não estou afim de relembrar hábitos nenhum, não — Marina força um sorriso e respira fundo para acalmar seu coração.
   — Ok, foi só uma sugestão — Juliana responde e pega no pulso de Marina. — Vem cá, deixa eu te mostrar esse creme. Nunca mais você vai ficar com a pele ressecada na vida!
A namorada de Vinícius deixa-se ser levada por Juliana até um mostruário e tenta recobrar sua naturalidade experimentando novas fragrâncias de hidratantes.
   A poucas quadras da farmácia onde elas estão Brian enfrenta sentimentos tão intensos quanto aos de Marina. Ele reflete sobre a pergunta de sua mãe, o olhar fixo nos talheres em sua frente, e responde:
   — Eu amo a Marina. — Claire o encara profundamente. — Eu amo a pessoa que ela é. Só que às vezes eu fico em dúvida sobre a forma com que esse amor se manifesta.
   — Você precisa esclarecer seus sentimentos, filho. 
   — Não é fácil, mãe!
   — Eu sei, mas se você quer mesmo preservar sua amizade com a Marina, você tem que ter clareza do que sente. Ela está namorando, Brian, e parece gostar muito do atual namorado. Tentar recobrar o que vocês tiveram pode sim atrapalhar a amizade de vocês.
   Brian agita-se.
   — Eu não quero recobrar nada! Eu sei que o meu namoro com a Marina acabou e que não vai voltar mais. Nem sei que eu quero isso. Ai, mãe, eu estou confuso demais!
Claire pega nas mãos do filho.
   — Só aproveita a estadia dela aqui. 
   — Já estou aproveitando.
   — Então é isso, não fica se preocupando com mais nada.

Henrique chega em casa depois do almoço e vai direto para o seu quarto.
   — Graziele? — chama batendo no quarto de sua filha após sair do banho.
   — Pode entrar, pai — responde a ruiva deitada em sua cama. Henrique gira a maçaneta e adentra no espaço da jovem. — O senhor já chegou?
  — Sim, hoje eu só tinha atendimento de manhã — ele fala caminhando até a cama. — O que você está fazendo? — indaga com os olhos passando pela tela da televisão.
   — Assistindo série. 
   — Ah sim, será que eu posso atrapalhar sua série um pouquinho? Quero conversar com você.
O corpo de Graziele contrai-se discretamente e ela assente.
   — Pode. 
Henrique senta-se diante dela e cruza os tornozelos. 
   — Eu percebi uma certa tensão entre você e o Thiago ontem durante o almoço.
   — A gente tinha acabado de ter uma discussão — conta a ruiva.
   — Por quê?
A adolescente se mexe sobre o cobertor e desvia o olhar.
   — As coisas ainda são complicadas entre a gente, pai.
   — E por que vocês discutiram ontem? — Henrique insiste em saber e Graziele fecha os olhos, mordendo o lábio inferior enquanto decide o que falar. Sua vontade é de contar toda a verdade para seu pai sobre sua complexa relação com Douglas e Thiago, porém sabe que se mencionar que se envolveu com um dos amigos de Thiago, Henrique saberá que ele é um daqueles que compartilham da mesma vida que o jovem tinha. 
   — O Thiago me ouviu conversando com um garoto e começou a me perguntar se eu tinha ficado com ele. Eu não gostei do jeito que ele falou comigo e me exaltei. 
   — Foi só isso?
  — Sim — responde Graziele sem olhar no rosto de Henrique. — Eu estou tentando ser amiga do Thiago, pai, mas... nada vai mudar o que aconteceu entre a gente. Eu ainda sinto muita mágoa pelo o que ele fez comigo e em momentos como o que aconteceu ontem, essa mágoa fala mais alto do que qualquer coisa e eu acabo falando certas coisas que não deveria.
   — Ontem você disse alguma coisa que não deveria?
  — Eu disse que não aguento mais mudar minha vida por causa dele e que não quero ele se intrometendo nas minhas coisas. 
   — E você se arrepende disso?
Imediatamente os olhos de Graziele enchem-se de lágrimas e ela balança a cabeça.
   — Não, porque é verdade. Pai, eu ainda amo o Thiago. Só que aquilo que aconteceu criou uma barreira entre a gente que eu sinto que nunca mais vai desaparecer. Todo mundo comenta sobre o quanto está sendo difícil o tratamento dele, mas vocês já pararam para pensar como tudo isso está sendo para mim? 
Henrique faz um carinho no joelho dela enquanto ela tenta se controlar.
   — Como está sendo para você, Grazi?
  — Eu me sinto pressionada, por tudo e por todos. Parece que todo mundo espera que eu volte com ele e que a gente enfrente isso junto. Mas quando eu tentei fazer isso lá atrás, ele mentiu pra mim! Isso não é fácil de esquecer, mas mesmo assim eu tentei ficar do lado dele e o Thiago preferiu me afastar para que a gente não se machucasse ainda mais. Só que o que eu mais estou é machucada! 
   — Vem cá — pede Henrique trazendo ela para seus braços. A ruiva chora com o rosto na camisa de seu pai. 
   — Eu só quero ter uma vida normal, pai. Ele está em tratamento, não eu. Eu sei que é egoísta pensar assim, mas por tanto tempo eu coloquei as necessidades do Thiago acima das minhas que... agora eu não consigo mais. Mas ao mesmo tempo eu me preocupo com ele! 

Duas pastas estão firmes nos braços de Mel, que analisa minuciosamente uma das estantes de seu escritório.
   — Tem que estar aqui — fala para Vera, que também está diante das grandes estantes.
   — Duas pastas pretas, né? — confirma a governanta.
  — Sim, iguais estas — Mel indica as pastas em seus braços. — Eu preciso das fichas das ex-modelos, nós estamos querendo fazer uma campanha especial.
   — Mas não tem outro lugar que você possa encontrar essas fichas?
  — Ter até tem, mas aí eu teria que procurar nos registros da empresa, pensei que fosse mais fácil olhar nas minhas pastas. Pelo jeito eu estava enganada. — Ela libera os braços e prende o cabelo em um coque antes de se agachar e começar a procurar nas prateleiras mais baixas. Seus dedos vão passando por cada pasta, livro ou caderno que estão empilhados, analisando um por um. 
   Os seus olhos estreitam-se ao ver um caderno de couro surrado. 
   — Não — sussurra Mel. Ela permanece olhando para o objeto sem ter coragem de tocá-lo novamente. — Vera? — fala olhando para a governanta segundos depois. — Você pode preparar um lanche para mim? Essa procura toda meu deu fome.
A governanta sorri.
   — Tudo bem — responde retirando-se do escritório. Assim que ela sai, Mel puxa o caderno de couro da estante e fecha a porta do escritório, sentando logo em seguida em sua poltrona.
   — Faz tanto tempo — comenta abrindo o caderno. Uma avalanche de emoções a inundam ao encontrar diversos poemas, letras e anotações de melodias. Seus olhos vão ficando marejados conforme ela lê cada palavra que escreveu em momentos de tristeza, alegria e angústia. A maioria das composições são sobre um mesmo assunto, o que faz com que Mel reflita sobre ele. Ela fica profundamente tocada e sente seu coração se apertar. 
   Quando uma lágrima escapa de seu olho e cai sobre o papel amarelado, Mel percebe o quanto está abalada e rapidamente fecha o caderno. Ela abraça a memória objetificada e diz:
   — Será eterno.

Os últimos raios de Sol entram no quarto de Victor através da porta da sacada e iluminam o rosto de Yasmin, que está sentada sobre os glúteos da namorado. Suas mãos percorrem as costas do loiro, espalhando um creme por sua pele dourada. Cada músculo de Victor está relaxado sob o toque da namorada e seus olhos pregados no armário deixa transparecer um olhar distante. 
   Quando todo o creme é absorvido pela pele dele, Yasmin senta ao seu lado e Victor vira de barriga para cima. Ela tira o excesso de creme de sua mão passando os dedos pelo abdômen dele. Victor segura na mão de Yasmin e beija seus dedos. Eles se encaram intensamente e a loira inclina-se para beijá-lo. Victor coloca as mãos na cintura dela e a traz para si, deitando o corpo dela sobre o seu. Yasmin entrelaça suas pernas nas dele e acaricia sua nuca enquanto sua língua percorre delicadamente os lábios dele.
   — Obrigado pela massagem — diz Victor após dar dois beijinhos no pescoço dela.
   — Você pode me agradecer de outras formas — sorri Yasmin e ele a abraça com mais força.

Jonas, Samuel e Jaqueline conversam reunidos na casinha montada em uma das árvores do quintal da mansão da família do primeiro.
   — Estou tão confusa, gente — fala a garota deitada com a cabeça no colo de Samuel, que faz carícias em seu cabelo.
   — Confusa por causa do Gabriel, Jaqueline? — questiona Jonas deitado ao lado do amigo.
   — Eu ainda gosto dele.
   — Ele é passado, Jaque — Samuel fala.
  — Um passado muito lindo e fofo — ri a loira e os dois reviram os olhos ao mesmo tempo, o que faz ela gargalhar ainda mais. — Fala sério, gente, ele se preocupa muito comigo.
   — E só por isso você quer namorar com ele de novo? — indaga Jonas.
   — Não, é porque eu ainda gosto dele também. Mas não sei, porque ao mesmo tempo eu tenho medo das coisas darem errado de novo.
   — Mas eu pensei que vocês tivessem terminado porque não era o momento certo — comenta Samuel.
   — Foi por isso, e se o momento certo ainda não for esse?
   — Isso você só vai saber se tentar.
   — Você está aconselhando ela a voltar com o Gabriel? — Jonas estranha.
   — Pra você ver o quanto eu me importo com a sua felicidade — Samuel ri para Jaqueline.
   — Ai meu Deus, que lindo!
   — Nem parece que você torce para eu terminar com a Malu.
   — Eu não cheguei no nível de evolução que você chegou, desculpa — brinca a loira e os três gargalham.
   — Mas e aí — fala Jonas —, o que você vai fazer?
   — Vou seguir o baile e ver no que dá.
   — Vai perdendo tempo, ele arruma outra e você fica chupando o dedo — diz Samuel.
   — Ele não vai arrumar outra — retorque Jaqueline —, ele é caidinho por mim.
   — Nossa senhora! — exclama Jonas rindo. — Isso que é confiança, hein? Ela é tudo isso mesmo, Samuel? Você que já pegou.
   — Você não tem noção — responde Samuel sorrindo.
   — Vocês são ridículos. Eu falo isso, porque sei que ele não ia me trocar assim do nada.
   — Você fala isso porque sabe que ele é seu pau mandado, isso sim — Jonas continua provocando. — Parece o Samuel com a Maria Luíza.
   — Eu não sou pau mandado de ninguém — fala Samuel.
   — É sim — concorda Jaqueline.
   — Até você, Jaque?
  — Ué, cara, ela é de leão e você é de câncer. Ela te domina, ponto. Você não está fazendo nó no meu cabelo, né? — ela questiona passando os dedos pelos fios.
   — Eu sei fazer carinho, tá? — ri Samuel. — Parece até que se esqueceu.
   — Eu já disse que vocês são ridículos? — pergunta Jaqueline e os três caem na gargalhada.

Na manhã seguinte, assim que acorda Anelise vai para o banheiro. Ela estranha a ausência do esposo na cama, pois desde que ele perdeu o emprego ela vem acordando antes que ele, mas resolve procurá-lo após tomar banho. 
   — Bernardo? — chama minutos depois chegando na cozinha e vendo a luz da despensa ligada.
  — Estou aqui — ele responde saindo do cômodo. Os olhos de Anelise automaticamente notam o termômetro sob o braço dele.
   — Você está bem? — pergunta colocando café em uma xícara.
   — Acho que estou com uma infecção na garganta.
Anelise olha para ele.
   — Isso é sério?
   — Se eu tratar não — responde o médico olhando para o termômetro. — Já tomei um antitérmico, a febre já está abaixando. Daqui a pouco vou lá na farmácia comprar um antibiótico. 
   — Quer que eu compre e te traga no almoço? — indaga a jornalista se aproximando dele. — Você não parece muito bem para sair de casa. Fica aqui descansando um pouco — sugere após dar um selinho nele. 
Bernardo faz um carinho na bochecha dela com a mão livre.
   — Não vai te atrapalhar?
   — Não.
   — Então eu aceito — ele responde caminhando até a mesa— Vou fazer a receita daqui a pouco e te dou.
Anelise gira para ele.
   — Você pode prescrever para você mesmo?
   — Eu sou médico, lembra? — ri Bernardo passando requeijão em uma fatia de pão integral.
   — Eu sei, mas não é antiético?
   — Não, amor — ele responde sorrindo. — Não sendo entorpecente ou psicotrópico, eu posso fazer a prescrição.
   — Vou fingir que sei o que é tudo isso — ri Anelise tomando um gole de café.
   — Eles agem no sistema ner...
   — Não precisa explicar, não — interrompe a irmã caçula de Chay. — Está muito cedo para a aula de medicina.
   — Pensei que você achasse sexy quando eu falasse em termos técnicos. Toma.
Anelise recebe as fatias de pão que seu esposo estava passando requeijão.
   — Pra mim? — Ele concorda com a cabeça. — Eu acho super sexy, você sabe disso.
   — Você está ligada de que isso é um fetiche, né?
   — Tenho plena consciência disso — ri Anelise sentando em uma cadeira para comer. 
   — Você sempre teve fantasia com médico ou isso começou depois que eu me formei?
   — Você já parou para pensar que talvez tenha feito medicina, porque eu te induzi a isso só para satisfazer minha fantasia? — Eles começam a rir.

Lado a lado, Brian e Marina caminham por uma rua de Manhattan. Em um determinado momento, ele segura na mão dela e a puxa para a vitrine de uma loja. Eles sorriem e Marina leva uma das mãos até o pescoço de Brian, falando em seu ouvido. O americano ri do que ela diz e vira a cabeça em sua direção. Eles trocam mais algumas palavras entre risos e se beijam lenta e profundamente. Do lado de dentro da loja, Vinícius observa o casal com atenção. Marina dá alguns selinhos entre o beijo e a maneira apaixonada com que ela olha para Brian deixa o coração de Vinícius em frangalhos. 
   — Meu Deus! — exclama o rapaz despertando em sua cama no Rio de Janeiro. Ele olha rapidamente para os lados e confere as horas em seu celular, constatando que falta poucos minutos para seu despertador tocar. — Meu Deus, eu tenho que controlar a minha mente — diz para si mesmo deitando a cabeça no travesseiro. — Ela te ama, ela te ama — repete algumas vezes. — Você não precisa se sentir inseguro desse jeito, Vinícius.