domingo, 15 de janeiro de 2017

Imagine ChaMel 4ª Temporada (Filhos) - Capítulo 351: Isabela descobre o segredo de Vinícius


A professora de inglês, Tânia, entra na sala de aula carregando duas pastas pesadas.
   — Bom dia, turma! — deseja sorridente encaminhando-se até sua mesa. Vinícius entra discretamente logo atrás dela e retorna para seu lugar.
   — Onde você estava? — indaga Marina. — Nem te vi sair.
   — Meu pai me ligou — ele responde.
   — Está tudo bem?
   — Sim.
Marina dá um sorrisinho e eles voltam suas atenções para a professora, que diz:
   — Animados para o final de semana?
   — Nem fala nisso, professora — pede Alexandre.
   — Ué, pensei que vocês estivessem contando os dias para o ENEM.
   — Só que não, né — Amanda responde.
Tânia sorri e cruza as pernas.
   — Vocês estão assim porque não estão pensando no lado positivo.
Do fundo da sala, Luciana diz:
   — Eu só vou saber se existe lado positivo quando sair o resultado.
   — Claro que não — fala Tânia Pensem, pelo menos isso vai acabar. Toda a pressão, nervosismo, tudo isso vai passar depois desse final de semana.
   — Não pra quem depende de outros vestibulares — Samuel retorque com desânimo.
   — É, isso é verdade — concorda a professora. — Mas é uma prova a menos.
   — Queria ter toda esse pensamento positivo da senhora — ri Laís.
   — Basta querer, Laisinha. — Tânia levanta e bate uma palma. — Enfim, turma, chega de papo, né? Abram a apostila na página 234.
Os alunos começam a pegar seus materiais e Marina se esforça para controlar o nervosismo que faz seu estômago doer.
   — Se só de pensar eu já fico assim, imagina na hora? — ela resmunga para si mesma enquanto abre o caderno.
   — Falou alguma coisa? — Vinícius vira para trás.
   — Estou pensando que esse final de semana definirá meus próximos anos.
Vinícius pega na mão dela.
   — Fica calma — pede. — O que for pra ser, será.
Marina assente e não fala mais nada.

Durante a tarde, sob uma forte chuva, Vinícius chega a um bistrô e se encontra com seu pai.
   — Pensei que não fosse conseguir chegar — comenta o jovem deixando um guarda-chuva embaixo da mesa.
   — Está muito alagado por aí? — pergunta Chay.
   — Muito! O Evaldo teve que mudar de caminho duas vezes. Nossa!
   — Mas e aí, como você está?
Como se a pergunta de Chay fosse a senha para os sentimentos de Vinícius, o rapaz transparece todas as suas inquietações.
   — Eu nunca me senti tão mal, pai — ele confessa com a voz mais baixa.
   — O que está acontecendo?
   — Parece que tudo — Vinícius responde vagamente. — O senhor já pediu alguma coisa? — indaga mudando repentinamente de assunto.
   — Pedi dois chás de canela e um bolinho. Você quer mais alguma coisa?
   — Não, está bom.
   — Então, o que houve? — Chay pergunta com olhos preocupados.
Vinícius solta um suspiro e passa a mão no cabelo úmido da chuva que tomou do carro até a porta do bistrô.
   — A Isabela mexeu nas minhas coisas, pai. Ela e o Victor juntaram suas desconfianças e tentaram descobrir o que eu estou escondendo.
   — Sobre a prova da escola de gastronomia da França?
   — Sim.
   — No que ela mexeu?
   — Ela encontrou um pen drive e pegou escondido pra ver o que tinha nele. Acho que a minha reação quando ela pediu o pen drive deixou ela intrigada.
   — E o que tinha nesse pen drive? — Chay questiona o que Isabela, Victor e Marina querem tanto saber.
   — Lá estão todos os documentos de inscrição para a prova. Se eu não tivesse colocado senha no pen drive eles teriam descoberto tudo.
   — Nossa, ainda bem que você protegeu, né? Mas o que me surpreende é a sua irmã tentar invadir sua privacidade dessa forma. Com o Victor eu nem surpreendo, ele não me parece ser um cara exemplo de caráter. O Arthur e a Lua que me desculpem, mas é o que eu vejo.
   — É. Acontece que além deles fazerem tudo isso, essa história acabou respingando na Marina.
   — Ai meu Deus! — exclama o cantor assustado. — Ela descobriu tudo?
   — Não, graças a Deus não! — responde Vinícius. — Não sei o que aconteceu, mas a Isabela devolveu o pen drive. Só que ela deixou com a Marina.
   — Mas não tava com senha, não teria como ela ver nada mesmo.
   — A Marina é hacker, pai — lembra o jovem.
   — O quê? — Chay reage como se não soubesse e Vinícius desconfia se contou ou não para ele essa informação. — Estou começando a duvidar dos valores que o Arthur e Lua passaram a essas crianças.
Mesmo angustiado, Vinícius sorri.
   — Relaxa, pai, ela sabe fazer muitas coisas mas não sai hackeando todo mundo assim deliberadamente.
   — Só quando ela quer?
Vinícius se recorda de quando Marina hackeou a filha do diretor do colégio a pedido de Yasmin e Felipe.
   — Isso não vem ao caso — ele responde rapidamente. — Então, acontece que a Marina não invadiu o pen drive. Mas eu conheço a minha namorada, ela já estava em alerta a muito tempo, com isso ela apenas teve certeza de que tem algo realmente acontecendo.
   — E aí?
   — Eu não consigo esconder nada da Marina, pai. Nem quero.
   — Você contou? — espanta-se Chay.
   — Não! Nem sei como ela reagiria, ainda mais agora a tão pouco tempo do ENEM. Eu confirmei que tem uma coisa muito importante acontecendo, mas disse que não consigo contar ainda. E é verdade! Eu nem sei se vou passar ou não, tenho quase certeza que não. Então pra que perturbar ela com essa informação agora?
   — É, mas quando você pretende contar?
   — Talvez quando chegar a resposta. Eles enviam uma carta para todos os concorrentes dizendo se foi aceito ou não.
   — E tem previsão para essa carta chegar?
   — Então... a qualquer momento.
   — Sério? — Chay fica mais uma vez espantado.
   — É, eles disseram que é na primeira semana de novembro.
   — E nós estamos na primeira semana de novembro.
   — Pois é.
   — Nossa, Vinícius — suspira Chay.
   — Agora o senhor entende por que eu estou tão atordoado? Pai, eu não sei o que eu faço! Quer dizer, eu sei que eu só posso contar para a Marina quando passar o ENEM, não importa o que diga a carta.
   — Não estou entendendo o seu raciocínio — diz Chay.
   — Eu não...
   — Com licença. — A garçonete se aproxima com os pedidos deles.
   — Claro — responde Chay e ela dispõe os itens sobre a mesinha arredondada. Em seguida, afasta-se rapidamente com grande entusiasmo por ter atendido o cantor Chay Suede e seu filho. — E então — o ex-marido de Mel retoma a conversa.
   — Eu só vou para a França se a Marina for para os Estados Unidos, pai.
   — Vinícius — Chay fala em tom de pesar —, a gente já conversou sobre isso, você não acha...
   — A gente já conversou sobre isso — repete Vinícius — e o senhor sabe a minha decisão. Não é justo com a Marina, pai!
   — E é justo com você? Abrir mão de uma grande oportunidade como essas?
   — Eu não vou para a França depois dela ter feito o maior sacrifício pra ficar aqui no Brasil. Ela está disposta abrir mão de voltar pro lugar onde ela realmente se sente em casa pra poder ficar com a família, pra poder ficar comigo. Eu não vou deixar ela aqui no Brasil e ir para a França depois de tudo isso.
   — Ok, apesar de não concordar com essas escolhas de vocês, respeito. Mas o que eu não entendo é por que você não pode contar pra ela.
   — Eu conheço a Marina. Se ela souber dessa história da França, ela vai querer que eu vá, não importa tudo o que ela tem feito. E quando ela souber da minha condição, é capaz de ir mal de propósito no ENEM só pra que eu vá.
   — E assim ela também iria pra fora.
   — É. 
   — Talvez seja melhor assim, você não acha?
   — Não começa, pai — pede Vinícius mordendo um pedaço do bolo. — Já está decidido. A Marina fica, eu fico. Se a Marina for, eu vou.
   — Então você só vai contar pra ela quando sair o resultado do ENEM?
   — Não, só até passar o ENEM, porque daí ela não vai poder fazer mais nada.
   — Entendi. Mas caso você fique aqui no Brasil, quais são suas ideias?
Vinícius dá um leve sorriso e começa a contar seus planos para Chay.

Usando uma calça jeans preta e moletom cinza com capuz, Jonas corre na chuva pelo caminho do portão até a porta principal do casarão da família de Maísa. Assim que entra no casarão, abaixa o capuz e passa a mão no cabelo molhado.
   — Oi — fala se aproximando do sofá, onde Maísa se encontra encolhida.
   — Oi, Jonas. — Ela fica visivelmente aliviada pela chegada dele e levanta para abraçá-lo.
   — Eu estou sabendo do que aconteceu.
   — Quem não está? — indaga Maísa ainda com os braços ao redor do pescoço dele.
   — Como você está se sentindo? — Jonas pergunta segurando o corpo dela com firmeza.
   — Péssima — responde a loira apoiando a testa no ombro do namorado. — Vem comigo — ela pede segurando na mão dele. Juntos, caminham até o cômodo que é como um segundo para ela. Eles se acomodam no tapete indiano ao redor da mesinha amarelo vibrante.
   — Cruzei com a Laís quando desci do carro — comenta o jovem.
   — Ela passou aqui quando saiu do colégio. Ficou cochada com a notícia! Nem ela nem meus tios tinham ideia do que estava acontecendo.
   — Posso imaginar, a mãe dela é irmã do seu pai, né?
   — Sim. A Laís disse que a tia Viviana está super brava com o meu pai.
   — Então ela acha que ele é culpado?
   — Não, a raiva dela é por ele ter exposto a família. Ela chegou a dizer que é até bom que os meus avôs não estão mais aqui para ver isso.
   — É, japonês tem fama de ser muito responsável, daí ele se envolve em corrupção — Jonas brinca para tentar descontrair o clima. Ele alcança o objetivo, pois Maísa sorri.
   — Só você mesmo.
   — Sabia que todo mundo lá na sala ficou preocupado com você? — comenta o rapaz rodeando a mesa para abraçar ela.
   — Preocupado comigo ou julgando o meu pai?
   — Alguns até fizeram julgamentos, mas a maioria só estava pensando em como você estaria se sentindo — responde Jonas com sinceridade.
   — Estou me sentindo péssima — confessa Maísa aconchegando-se no peito dele.
   — Sinta o que você tiver que sentir, eu estou aqui pra viver isso com você.
Maísa dá um leve sorriso e fecha os olhos.

Segurando uma xícara para aquecer as pontas dos dedos, Anelise conversa com Luíza no café de uma livraria no shopping.
   — Quando eu vi no jornal fiquei chocada! — exclama a psicóloga. — O círculo está se fechando cada vez mais ao redor desse povo. Sinceramente, eu acho é bom!
   — Eu também acho — concorda Anelise. — Só fico preocupada com o Bernardo no meio disso tudo.
   — Mas ele não corre o risco de ser preso, né?
   — Não, claro que não — a irmã de Chay ri. — Ele só vai perder o emprego — ironiza.
   — Poderia ser pior — brinca Luíza e elas sorriem.
   — Mas é sério, estou preocupada com o Bê. Ele está tenso, com raiva, triste — diz a jornalista tomando um gole de café.
   — Sei que a situação é séria, Ane, mas está ficando pior porque vocês estão olhando para isso com pessimismo.
   — Como eu vou ser otimista, Luíza? — questiona Anelise largando a xícara no pires com força.
   — Pensa, vocês têm economias, não tem? Vão conseguir se manter no período que ele ficar desempregado. Sem contar que você ganha um bom salário lá na MelPhia. Vai dar tudo certo!
   — Assim espero, assim espero — responde Anelise.

Deitados no chão da sala de televisão da mansão de Sophia e Micael, Yasmin e Victor conversam sobre o futuro entre beijos e carinhos.
   — Não sei que graça você vê nisso, de verdade — diz a loirinha. — Nada contra, mas engenharia aeroespacial? Olha o tamanho desse nome, aeroespacial.
   Victor gargalha.
   — É o que eu gosto, Yasmin. Construir aviões, satélites, naves espaciais!
   — Uau — ela responde sem empolgação. Em seguida, apoia-se em um dos cotovelos e beija o maxilar e pescoço dele. — Se é o que te faz feliz então envolva-se com o aeroespaço — brinca e eles caem na gargalhada.
   — Mas e você, quer fazer moda. Moda!
   — Moda, sim. Criar roupas, vestir mulheres.
   — Então você já sabe até o público alvo — percebe Victor.
   — Sim, noivas.
   — Noivas? — ele repete surpreso. — Está focando ainda mais, hein?
   — Acho que eu nunca te mostrei uma coisa — diz Yasmin sentando no chão. — Quer dizer, tenho certeza que não te mostrei.
   — Do que você está falando? — pergunta Victor acompanhando Yasmin levantar e caminhar até a porta. — Ei, aonde você vai?
   A loirinha deixa a sala de televisão e seu namorado levanta e senta em um dos sofás. Minutos depois, ela retorna com uma pasta catálogo preta.
   — O que é isso? — questiona Victor.
   — Umas coisas que eu andei fazendo — ela responde ao sentar ao lado dele. — Olha — pede entregando a pasta para ele. Sorrindo, Victor abre o objeto e vê uma série de vestidos presos nas folhas plásticas.
   — Você que fez isso? — indaga surpreso.
   — Eu que fiz isso — confirma Yasmin sorridente.
   — Isso é muito bom, né? Eu não entendo nada de moda, mas isso é bem bonito! — Ele olha para ela e sorri. — Até imagino a minha noiva usando um desses.
Yasmin ri.
   — E você quer casar?
   — Ah, deve ser legal, né?
   — Na igreja?
   — Aí já é demais! — ri Victor.
   — Mas eu pensei que você tivesse começado a acreditar em Deus depois do que aconteceu comigo. — Victor recorda-se de quando Yasmin levou um tiro e ficou em estado grave e fica mais sério. Vendo a reação dele, Yasmin logo diz: — Mas isso já passou, lembra? Graças à sua irmã.
   — Sim.
   — Então, você não passou a acreditar?
   — É difícil, Yasmin. Mesmo que eu quisesse, não é algo que muda do dia pra noite. Mas eu sei que tem algo que olha pela gente, algo que me ouviu no momento que eu mais precisei.
Yasmin dá um leve sorriso e faz um carinho na mão dele.
   — Então?
   — Então agora eu não acredito nem duvido — ri Victor. — Sou agnóstico. 
   — Agnóstico? Agora em cima do muro tem nome? — ela gargalha.
   — Vai brincando.
   — Enfim, você me imagina usando um desses?
   — Eu imagino a minha noiva, não disse que será você — ele ri.
   — Nossa, Victor! — exclama Yasmin. — Você brinca assim, mas imagina eu me casando com outro cara? 
   — Eu nem iria no seu casamento caso isso acontecesse.
   — Credo! Você não ia querer o meu bem?
   — O seu bem é eu ir no seu casamento com outro?
   — O meu bem seria ter todos os meus amigos no meu casamento.
   — Então a gente não estaria juntos, mas ainda seríamos amigos?
   — É uma hipótese — ri Yasmin.
   — Eu prefiro a hipótese em que eu não precisaria ir ao seu casamento como convidado, e sim como noivo.
   — Você que começou com tudo isso! — Os dois riem e Victor continua observando os vestidos desenhados por ela. Os traços são visivelmente amadores, mas com muitíssima personalidade e talento.
   — Você já desenhou o seu? — pergunta o rapaz repentinamente.
   — O meu?
   — O que você quer usar quando for se casar.
   — Ah, não! Nem sei qual que eu quero. Qual você escolheria pra mim?
   — Sei lá — ele ri. — Um que não fosse nem rodado nem simples demais. 
   — Mas comigo ou é oito ou é oitenta — ela brinca. O casal cai na gargalhada e Victor deixa a pasta de lado, puxando Yasmin para seu colo.
   — Oito ou oitenta, é? — indaga mordiscando o lábio dela.
   — Sim — responde Yasmin e eles se beijam com volúpia.

Na manhã seguinte, Maísa apronta-se para ir ao colégio e se encaminha para a porta após tomar café com os pais.
   — Já vai, filha? — indaga Lorena. — Não vai esperar a Laís?
   — Não, hoje eu vou de Uber com o Jonas.
   — Ah tá.
   — Se cuida, filha — diz Edson e a loira olha para ele.
   — O senhor é quem deve se cuidar, pai. — Ela dá um beijo na bochecha dele e sai do casarão.
   — Oi, meu anjo — fala Jonas carinhosamente quando ela entra no carro.
   — Oi. — Eles dão um beijo curto e Maísa se apoia no banco. — Você não se sente nenhum pouco culpado?
   — Sinceramente? Não — ele sorri. 
Maísa sacode a cabeça e tira o uniforme, ficando com uma regata que usava por baixo.
   — Me parece errado matar aula na última semana antes do ENEM.
   — Não pensa que você está indo matar aula, pensa que você está indo relaxar na praia com o seu namorado. Sem contar que a essa altura do campeonato, ou a gente aprendeu ou a gente aprendeu.
Ela assente e coloca o mochila entre as pernas.
   — Você tem razão. Agora eu só tenho que aliviar a cabeça pra não chegar surtando no dia da prova.

Durante a manhã, Mel e Sophia tomam um café após uma reunião importante. 
   — E o Reinaldo que nunca mais apareceu por aqui — comenta Sophia.
   — Ele quase não aparece mais na cidade, né querida — Mel ri.
   — Ele viajou de novo?
   — Sim, mas agora pra Salvador.
   — Ah, muita diferença, né? — ironiza Sophia rindo.
   — Pelo menos ele está no Brasil, né! — ri a morena.
   — Você deve estar morrendo de saudade, né? Ele chegou de Madrid e ficou o quê? Uma semana aqui?
   — Por aí — responde Mel. — Até que não estou com tanta saudade assim — ela sorri —, com tantas coisas na grife mal tenho tido tempo de sentir saudades.
   — Nossa, não sei como você consegue. Se o Micael passar duas semanas longe eu não vou me aguentar de saudade do meu pretinho.
As duas riem e continuam conversando.

À tarde, Vinícius e Felipe fazem outra visita à casa de Branca para mais uma aula de piano. Felipe que já está um pouco mais avançado no instrumento que Vinícius, toca com mais delicadeza e habilidade. Enquanto ele toca, o irmão de Isabela fica sentado em uma poltrona próxima, porém com o olhar distante.
   — Cansei — fala Felipe para a avó. — Vou lá pegar um pouco de suco, a senhora quer?
   — Quero, querido — responde Branca e quando seu neto deixa a sala ela olha para Vinícius. — É a sua vez. — O rapaz continua imóvel e olhando para o chão. — Vinícius? — ela chama e só então ele olha para ela.
   — Oi, Dona Branca.
   — Sua vez de tocar — ela fala e ele levanta, aproximando-se do piano de calda. — Estava longe, né?
   — Sim — sorri Vinícius sentando ao lado dela na banqueta. Branca troca as partituras e Vinícius começa a tocar uma música clássica. Ele tem que se esforçar mais do que nos demais dias para que seus dedos sigam seus comandos. Mesmo com todo o esforço, em um certo momento ele erra.
   — Pode continuar dessa parte — diz Branca quando ele dá a entender que vai começar a tocar a música desde o início. Vinícius faz o que ela diz e prossegue de onde parou. Ele não toca por mais de dez segundos e erra novamente.
   — Não dá — diz fechando as mãos com força. — Não estou conseguindo me concentrar hoje.
   — Mas essa é a música que você já vem treinando, Vinícius — observa Branca com doçura. — Você sabe o que tem que fazer.
   — Eu sei, mas hoje não vai rolar — responde o jovem e massageia a nuca tentando controlar a inquietação. O que o deixa ainda mais impaciente é que reconhece essa sensação. É exatamente a inquietação que sente sempre que algo sério está prestes a acontecer.

Arthur dirige com tranquilidade enquanto Marina observa as casas que eles passam a caminho da gravadora.
   — Você vai gostar de assistir a gravação de um CD — comenta o músico parando em um sinaleiro.
   — É, pena que o senhor vai estar como produtor e não lá dentro gravando, né? — ela sorri.
   — Quando eu for gravar algo, vou te levar — promete Arthur.
   — O Fred vai estar lá? — indaga Marina.
   — Vai. É por isso que você está indo?
Marina ri.
   — Claro que não, pai.
   — Sei, vou ficar de olho em vocês dois.
   — Eu sou uma moça comprometida — Marina fala mostrando sua aliança de namoro com um pomo de ouro.
   — O Vinícius que sei cuide, hein? O Fred é um bom partido.
   — Pai, ninguém usa mais o termo "bom partido" — ela fala rindo.
   — E como é hoje em dia?
   — Ah, sei lá.
   — Eu ouvi umas meninas falando em crush, não seria essa palavra?
   — Não — ela gargalha. — O Fred não é meu crush.
   — Você é crush dele?
   — Aí o senhor tem que perguntar pra ele — responde a jovem rindo bastante. — Brincadeira, não faz isso!
   — Mas como vai seu relacionamento? Vai fazer um ano que você está com o Vinícius, né?
   — Sim — ela confirma e deixa de sorrir progressivamente.
   — E como vai as coisas?
   — Estão um pouco complicadas.
   — Com um ano de namoro já está assim? — ri Arthur. — Falando sério agora, por quê?
   — Ah, pai, tem alguma coisa acontecendo e o Vinícius ainda não está preparado pra me contar. Eu não sei o que é, nem quero ficar criando hipóteses.
   — Mas você está desconfiada de alguma coisa, não é?
   — Não, pior que não — responde Marina com sinceridade. — Eu confio no Vinícius, não consigo sentir nenhuma desconfiança ou ficar insegura. Eu simplesmente confio nele.
   — Muito bonito isso, filha. De verdade. Ter um sentimento como esse nesse momento é muito raro na idade de vocês.
   — É, às vezes eu acho que nós somos dois velhos namorando — ela ri.
   — Isso pode ser bom. Bem bom!
   — Eu torço para que estejamos certos em seguir assim. Torço também para que eu não me arrependa de confiar — diz Marina com a voz séria.

Yasmin e Victor saíram juntos da casa dela, mas seguiram caminhos diferentes. Enquanto ele foi para casa, ela partiu rumo à mansão de Mel. 
   A loirinha provoca Graziele, que também está na mansão.
   — Ah, conta, Grazi!
   — Não tem o que contar — responde Graziele.
Isabela sorri deitada em um sofá com Nina.
   — Tem sim, Grazi — fala olhando cheia de curiosidade para a amiga.
   — Claro que tem! — exclama Yasmin. — Eu tenho certeza que você e o Thiago ficaram na festa de Halloween. Eu percebi aquele dia.
   — Não tenho nada a dizer — responde a ruiva evasivamente. 
   — Para de fugir! — diz a loirinha. — Conta, Grazi. Conta.
   — Conta, conta, conta, conta — cantarola Isabela e Nina late. — Olha, até a Nina concorda com a gente.
   — Ai, ok, eu conto! — Graziele irrita-se com a insistência das duas. — Eu e o Thiago nos beijamos na mata. Satisfeitas?
Yasmin e Isabela vibram descontroladamente. A loirinha bate diversas vezes no braço da poltrona que está enquanto a morena sacode a própria cadelinha, dizendo:
   — Eles ficaram, Nina. Eles ficaram!
   — Vocês são muito bestas — ri Graziele menos chateada.
   — Essa é a vibração de quem não vê a hora de vocês voltaram — responde Yasmin. Vera entra discretamente na sala e deixa alguns envelopes trazidos pelo carteiro sobre a mesinha de centro, onde costuma ficar as encomendas. Ela sai sem fazer nenhum barulho enquanto Yasmin continua brincando com Graziele: — E como shipper desse casal, quero saber como foi.
   — Aí você já quer demais — responde a ruivinha enquanto Isabela coloca Nina no chão para olhar as correspondências.
   — Não custa nada contar — rebate Yasmin. — Foi bom?
   — Sempre é, né?
   — Ai meu Deus! — exclama a loirinha e joga uma almofada em Isabela. — Você ouviu, amiga, sempre é bom!
   Isabela ri passando os envelopes um por um, a maioria deles para Mel.
   — Estou ouvindo.
   — Nunca mais falo nada pra vocês — avisa Graziele.
   — Por quê? — indaga Yasmin.
   — Eu falo, vocês ficam me zoando.
   — A gente não está te zoando — a loirinha responde. — Não é, Isa?
   — Eu não, a Yasmin talvez — ri a morena chegando em uma carta endereçada a Vinícius.
   — Ei! — exclama a irmã de Felipe. — Eu estou zoando, mas estou feliz por vocês. Torço muito por esse casal.
   — Vai com calma — pede Graziele. — A gente só ficou.
   — Não vai me dizer que você ainda está de rolo com aquele bandidinho?
   — Não sei de quem você está falando.
   — Qual é o nome dele, Isa? 
   — Douglas — responde Isabela virando o envelope para procurar o remetente da carta para Vinícius. 
   — Douglas! — exclama Yasmin. — Você ainda está com ele?
   — Eu não estou com ninguém. E também não fala do Douglas como bandidinho, ele não é isso.
   — Ok, sorry se eu ofendi.
Isabela levanta do sofá e caminha até o armário de livros, onde seu celular carrega. Assim que viu o remetente em francês empalideceu. Ela alcança seu celular e fala digitando no Google:
   — École Ferrandi. — Assim que toma conhecimento da escola de gastronomia francesa, Isabela tem que se controlar para não abrir a carta. As vozes de Yasmin e Graziele passam despercebidas por ela, que rapidamente abre o Twitter e digita o nome da escola na barra de pesquisa. 
   O primeiro tuíte que Isabela vê faz o coração dela saltar.
   — Triste porque chegou minha carta da Ferrandi e eu não passei — lê em um sussurro. O próximo tuíte, no entanto é de alguém comemorando pois foi aceito na escola francesa. — Então é isso — diz Isabela para si. — O Vinícius fez uma prova pra essa escola de gastronomia francesa e aqui está o resultado — conclui segurando a carta com firmeza.