Imagine 5ª Temporada | Capítulo 62: Choque
É impossível mensurar o tempo que Yasmin e Victor ficam se encarando de lados opostos no corredor do hospital. Os segundos parecem ter congelado desde que os olhares dos ex-namorados se encontraram.
Victor se sobressalta quando Yasmin pula para dentro do banheiro novamente. Ele pisca rapidamente, sem acreditar no que está acontecendo.
Um impulso diferente do que o levou até a capela, mas igualmente intenso, o faz caminhar até a porta do banheiro. Com a mão na maçaneta, ele sente um toque no ombro.
— Senhor — uma enfermeira está parada ao seu lado. — Esse banheiro é o feminino.
Um bolo de frustração desce pela garganta de Victor. Ele morde o lábio e assente, totalmente de volta à realidade.
— Desculpa, me confundi — fala sem olhar para a enfermeira. O rapaz dá as costas e se afasta rapidamente.
— A Yasmin o quê? — Felipe coça os olhos, tentando entender as palavras agitadas de Isabela do outro lado da ligação.
— A Yasmin encontrou o Victor! — berra Isabela. — A gente precisa ir pro hospital agora. Ela está trancada no banheiro, em choque.
Felipe senta no sofá da sala de estar, onde estava tirando um cochilo, se perguntando se ainda está dormindo.
— Que história é essa, Isa? A Yasmin não está no interior de São Paulo?
— Eu te explico no caminho. Vem me buscar. Agora.
Uma sala pequena, mas confortável e funcional foi destinada à família de Ricardo. O espaço é preenchido por um sofá de três lugares, uma mesinha de quatro lugares, um frigobar e uma televisão. Marina e Vinícius são os únicos presentes ali. Ele está deitado no sofá, mexendo no celular, enquanto ela ocupa uma das cadeiras à mesa.
Com o queixo apoiado na mão, Marina observa cada detalhe da sala, tentando controlar a ansiedade, até que se vira para o namorado e diz:
— E o Victor, hein? Ele foi comer algo e sumiu.
— Ele deve estar por aí — responde Vinícius.
— Será que ele está bem? Desde que a gente chegou ao Brasil ele tem estado bem estranho.
— É muita recordação para ele, né? E eu não sei se ele gosta de tudo o que lembra. Ou melhor, se ele gosta de lembrar de tudo o que viveu aqui.
— Fico preocupada com ele — admite Marina. Vinícius assente e senta no sofá.
— Quer que eu vá atrás dele? — se oferece, já cansado de ficar na sala também.
— Você faria isso? Fico com medo de sair daqui e virem dar alguma informação do vô.
Vinícius levanta e vai até a namorada.
— Fica tranquila, vou encontrar o seu irmão. — Ele dá um beijo no topo da cabeça de Marina e sai da sala.
Com os ombros caídos, Vinícius caminha pelo hospital, sem saber exatamente por onde procurar Victor. Ele decide ir para outro andar e se surpreende quando as portas do elevador abrem.
— Vocês aqui? — questiona para Isabela e Felipe.
— A Yasmin e o Victor se encontraram — despeja Isabela.
— Hã? Do que você está falando?
— Vem com a gente. — Isabela pega no pulso do irmão e sai do elevador com Felipe. No caminho até o banheiro indicado por Yasmin atualiza o irmão dos últimos acontecimentos. Felipe pega uma placa de interditado e deixa em frente ao banheiro antes do trio passar pela porta.
Yasmin está sentada no vaso sanitário do boxe indicado para pessoas com deficiência. Ela está tão atônita que não se importou em fechar a porta. Isabela caminha até ela e se agacha em sua frente. Felipe e Vinícius ficam parados logo atrás.
— Como você está? — pergunta Isabela apoiando as mãos nos joelhos da amiga.
— O que o Victor está fazendo aqui? Eu estou delirando?
— A gente ia te contar quando você voltasse ao Rio. Não esperávamos que você fosse voltar antes — diz Isabela.
— O que o Victor está fazendo aqui? — repete Yasmin, agora olhando para Felipe e Vinícius. — O que você está fazendo aqui, Vini?
— O Seu Ricardo está internado — conta Vinícius. — Nós três voltamos para o Brasil para todo mundo ficar junto neste momento difícil.
Yasmin leva alguns segundos para digerir as palavras do amigo e assente.
— Eu não sei o que fazer.
— Como você está se sentindo? — pergunta Isabela.
Os olhos de Yasmin se enchem de lágrimas instantaneamente.
— Eu não sei. Estou confusa. Meu Deus! — Ela leva a mão saudável à cabeça. — E o Seu Ricardo, é grave assim? — Vinícius apenas confirma com a cabeça. — Meu Deus! Coitado do Victor, de toda a família.
— O que você quer fazer agora? — indaga Felipe. — A gente não pode ficar o resto do dia trancado aqui neste banheiro — fala de forma prática.
— Sei lá.
— Você quer ir lá na sala da família conversar com o pessoal? — sugere Vinícius já imaginando a resposta da amiga.
— De jeito nenhum! — Yasmin diz de imediato. — Eu não estou pronta para ver o Victor de novo, gente.
— Acho que nem ele — observa Vinícius. — Desde que ele chegou ao Brasil está bem estranho. Eu e a Marina achamos que vai além do estado do Seu Ricardo.
O comentário chama a atenção de Yasmin.
— Como assim?
Vinícius fica inquieto e Isabela e Felipe também olham com curiosidade para ele.
— Ai, gente, estou cansado de ficar escondendo as coisas dos dois lados.
— Do que você está falando? — pergunta Isabela ficando em pé, ao lado de Yasmin.
— Sendo bem direto — diz Vinícius. — O Victor não te superou, Yasmin. Ele faz de tudo para esconder isso, mas é bem evidente. Ele se relaciona com meninas parecidas fisicamente com você…
— Igual o Renan parece a versão agro do Victor — interrompe Felipe e Yasmin lança um olhar cortante na direção dele.
— E desde que chegou ao Brasil — continua Vinícius —, ele está estranho. A gente acha que é por todas as lembranças de vocês.
— Mas ele me bloqueou! — lembra Yasmin.
— Para não ter que lidar com o que ainda sente por você — justifica Vinícius. — Bom, é o que eu acho. Ele não fala absolutamente nada pra gente.
O banheiro fica em completo silêncio.
— Por essa eu não esperava — fala Isabela, por fim.
Yasmin balança a cabeça, sem acreditar na teoria de Vinícius.
— Não acho que seja isso.
— Vamos embora? — chama Felipe. Sua irmã olha ao redor, parecendo se dar conta de que esteve este tempo todo no banheiro.
— O Renan está me esperando.
— Com essa demora, deve estar achando que foram te operar — ri Felipe.
Isabela estica a mão para Yasmin.
— Vem, vamos sair daqui.
Yasmin levanta do vaso e abraça a melhor amiga.
— Obrigada por vir me socorrer.
— A gente nunca iria te deixar sozinha.
O quarteto caminha para fora do banheiro. Yasmin olha fixamente para a entrada da capela, como se fosse enxergar Victor parado ali novamente. Vinícius passa um braço pelos ombros dela, guiando pelo corredor.
— É melhor eu voltar sozinha — fala Yasmin, de repente. — Não quero que o Renan desconfie que aconteceu algo além do meu pulso quebrado.
— Tem certeza? — pergunta Felipe.
— Sim. Vou pedir para ele me deixar em casa. — Eles se despedem. Yasmin segue para o encontro de Renan, Isabela e Felipe deixam o hospital e Vinícius vai em direção ao local onde a família Blanco-Aguiar está.
Assim que Yasmin surge no corredor, Renan fica em pé. Ele caminha até ela, com o olhar apreensivo.
— Meu Deus, que demora! — exclama, analisando cada parte do corpo dela com o olhar. — Você está bem? Deu tudo certo?
Yasmin assente.
— Tinha mais gente pra imobilizar — mente. — Vamos embora?
— Claro! Eu te deixo na casa dos seus pais.
— Não. Eu quero ir para o meu apartamento.
Renan estranha a escolha dela, já que mesmo com a compra do apartamento no Rio de Janeiro, Yasmin prefere ficar na casa dos pais, sempre justificando que a decoração ainda não está completa.
— Tem certeza?
— Sim.
Os passos de Vinícius são firmes pelos corredores do hospital, embora sua mente esteja tremulante com tantos pensamentos e angústias. O sofrimento de Marina e de toda a família com a saúde de Ricardo. A complexidade de sentimentos que cerca o reencontro de Yasmin com Victor e como o término do casal ainda impacta na relação entre o sexteto de amigos. Todos esses pensamentos paralisam quando Vinícius enxerga Victor encostado em uma parede, próximo à entrada da sala onde a família está.
— E aí, cara — diz se aproximando, sem saber como Victor deve estar se sentindo no momento. O rosto do loiro segue impassível.
— E aí.
Vinícius para em frente a Victor, que segue com o olhar nos próprios pés. Alguns segundos passam com Vinícius ainda buscando a melhor maneira de abordar o cunhado.
— Você está bem? — indaga.
— Como poderia estar com tudo o que está acontecendo? — retorque Victor erguendo o olhar. No instante em que eles se encaram, Victor percebe que o irmão de Isabela sabe do reencontro com Yasmin.
Vinícius observa a mandíbula de Victor se contrair e diz:
— Um dia você vai se sufocar com tudo o que você guarda para si, sabia?
— Enigmas a essa hora, Vinícius?
— Você sabe do que eu estou falando.
— Eu nunca sei do que você está falando — desconversa Victor antes de se afastar e entrar na sala. Vinícius solta um suspiro e balança a cabeça antes de segui-lo.
Apesar da mobília reduzida, a sala do apartamento de Yasmin apresenta um pouco de aconchego. O apartamento recém comprado, na região do condomínio em que Malu e Samuel moram, ainda não tem uma decoração que reflita a personalidade da jovem, mas está perfeitamente pronto para morar, incluindo todos os pertences da loirinha.
No centro da sala, ela abraça Renan.
— Obrigada por tudo.
— Não precisa agradecer — ele responde passando a mão no cabelo dela. — Tem certeza que quer ficar sozinha?
— Sim. Já avisei meus pais que estou bem, só preciso de um tempinho em casa para recarregar as energias.
— Quer que eu peça algo pra você comer?
— Estou sem fome.
— Quer que eu prepare o seu banho?
Yasmin dá um leve sorriso.
— Renan, eu estou bem.
— Você não parece bem, Yasmin.
— Estou só desanimada porque os nossos planos na fazenda não deram certo — ela inventa.
Renan ri.
— Não pensa nisso. Oportunidades não vão faltar.
Yasmin assente, sentindo um incômodo no estômago. Depois de tudo o que sentiu ao rever Victor, se pergunta se ainda quer passar tanto tempo assim com Renan.
— É melhor você ir. Você vai voltar para São Paulo ainda hoje?
— Não, fico aqui até amanhã de manhã. Se precisar de qualquer coisa, já sabe.
— Tá bem. Obrigada.
Renan dá um beijo curto em Yasmin e deixa o apartamento. Assim que fica sozinha, Yasmin deita no sofá e afunda o rosto em uma almofada, sentindo o peito apertado.
— E se tudo o que eu vivi nos últimos meses foi uma farsa? Será mesmo que o Victor ainda sente o que eu sinto? — Ela coloca para fora as perguntas que a rodeiam. — Por que tudo está desmoronando logo agora que eu estava construindo um outro caminho? Por que ele ainda mexe tanto comigo, meu Deus?
— Que dia! — exclama Isabela no banco do passageiro do carro dirigido por Felipe. Assim que saíram do hospital, eles passaram um fast-food e agora seguem para o condomínio em que moram.
— Que momento péssimo para a Yasmin reencontrar o Victor, né? — comenta Felipe.
— Não tinha como ser diferente. O Victor não voltaria para o Brasil se não fosse por algo de força maior — analisa Isabela.
— Isso é.
— Agora o que me deixou intrigada foi o que o Vinícius disse.
— Sobre o quê?
— O Victor não ter superado a Yasmin.
— Ah, sim. Bizarro mesmo.
Isabela suspira, olhando para a paisagem que passa velozmente do lado de fora.
— Tipo, ele passou esse tempo todo fingindo que estava cagando para ela?
— No lugar dele, eu não conseguiria fingir por tanto tempo. Capaz que eu ia ficar meses separado de você, ainda te amando.
Isabela sorri e passa a mão no cabelo do namorado antes de voltar a se debruçar no conflito da amiga.
— Mas o Victor sempre foi esquisito, né? Como será que ele reagiu? É tão bizarro ficar supondo as coisas sobre ele.
— Sim — concorda Felipe. — Depois que ele se afastou de todos nós, parece que ele virou um desconhecido.
A mansão de Abrahão-Borges está silenciosa somente com a presença dos donos da casa. Micael está deitado na cama e acompanha Sophia sair do banheiro, espalhando um creme nas mãos.
— Não entendi por que a Yasmin quis voltar para o apartamento dela — fala a empresária.
— Acho que ela ficou chateada por a gente ter obrigado ela a voltar para o Rio.
— E eu ia deixar a menina com o pulso quebrado lá em São Paulo? Ela fica inventando essas coisas de acompanhar o Renan e esquece que foi criada no asfalto, isso sim.
Micael ri.
— Deixa ela ser jovem, Sophia.
— Mas tem que ter responsabilidade. A menina sequer anda de bicicleta direito e inventa de andar a cavalo depois de anos?
— Pelo menos ela está abrindo o coração novamente.
Sophia senta na cama.
— Ainda bem. Não aguentava mais vê-la sofrendo pelo Victor.
— Disfarçando que não estava sofrendo, né?
— Ela achava que enganava a gente — Micael ri de leve.
— Mas eu estou preocupada. Agora ele está de volta com a Marina, uma hora ou outra eles vão se encontrar por aí.
— Será? Eles estão ficando só no hospital. Assim que o Seu Ricardo melhorar, eles voltam para os Estados Unidos.
Antes que Sophia possa falar mais alguma coisa, o celular dela começa a tocar na cabeceira da cama.
— É a Mel.
Micael, que sabe que Mel está na casa dos pais de Arthur, senta de imediato na cama.
— A essa hora?
O casal prende a respiração e Sophia atende à chamada.
— Oi, Mel.
— Amiga — Mel chora do outro lado da ligação. — O Seu Ricardo morreu.
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